Todos os dias são bons para falar do trabalho dos voluntários, mas como hoje o Observador dedica uma tarde a um tema que me é muito caro e no qual estou envolvida, decidi escrever sobre ele.

Nos tempos que correm, com meio mundo a desabar por guerras ou catástrofes naturais, e milhões de pessoas a viverem em condições degradadas, desumanizadas ou de pobreza extrema (para não dizer verdadeira miséria), deixou de fazer sentido perguntar: “queres ser voluntário?”.

A única interrogação possível para quem observa as realidades à sua volta e se deixa interpelar por apelos expressos ou subtilmente dirigidos à sua consciência cívica, ética, humana ou outras, deveria ser: “em que áreas posso dar contributo?”

Para estes, a questão já não é saber se querem ajudar, mas de que forma podem contribuir e acrescentar valor à comunidade, à sociedade, ao país e ao mundo.

Não falo de voluntariado compulsivo ou imperativo, note-se. Ninguém é ou será alguma vez obrigado a ser voluntário à força. Isso só acontece nas anedotas.

Importa perceber que o voluntariado é e será sempre uma demanda individual, uma busca pessoal e um verbo, digamos assim, que tem necessariamente que ser conjugado na primeira pessoa do singular. Ninguém pode forçar outros a fazerem voluntariado, nem esperar de terceiros que arregacem as mangas para trabalharem sem recompensa financeira. A única via possível é perguntarmos a nós próprios, cada um a si mesmo, em que área queremos e podemos dar contributo.

Claro que há cada vez mais grupos, organizações, movimentos e empresas que promovem o voluntariado. Não tenho nada contra, até porque na Academia, seja nas universidades ou nas escolas dos diversos ciclos, o voluntariado soma créditos. Há quem diga que não devia contribuir para a nota dos alunos, mas sinceramente não me repugna nada que na ponderação final de uma nota, os alunos que contribuíram para a limpeza das praias e matas, que deram explicações gratuitas em comunidades vulneráveis, que lutaram contra o bullying, ou apoiaram pessoas e projetos em situação de carência ou risco, sejam valorizados.

Não só não me repugna, como me parece adequado que o voluntariado possa somar créditos académicos, pois a experiência prova que mesmo quando um estudante se oferece para trabalho voluntário apenas e só para melhorar a nota, ou a performance académica, acaba por se deixar transformar justamente pelo facto de ter aceite a possibilidade de ‘pôr as mãos na massa’.

Faço voluntariado desde que me lembro e descendo de pais e avós que durante toda a sua vida se entregaram às comunidades onde moravam, mas não é sobre mim que quero falar. Apenas refiro a circunstância familiar por ser o caldo em que fui educada, mas acima de tudo a realidade que sempre observei em casa e em família. Mais, no dia em que o meu pai morreu, quase há 2 anos, soube que ele fazia um voluntariado que quase ninguém escolhe e fazia-o como sempre fez tudo, com sentido profissional, discrição, elevação e dedicação total. Quando me disseram o que era tive duas reações, a primeira de uma certa repugnância, mas imediatamente a seguir um sentimento de gratidão infinita por haver quem dedique horas do seu dia a lavar e escovar cabelos de pessoas muito velhas e muito pobres, para as libertar de piolhos e pulgas. Grande pai.

Em vida nunca soubemos que para além de muitos outros voluntariados, sempre em tarefas que outros não queriam fazer, como carregar pesos mesmo pesados e recolher bens para os distribuir pelos mais necessitados, o nosso pai também tinha dias em que vestia uma bata e punha um avental para se sentar pacientemente a cuidar de pessoas sozinhas, sem família e sem casa. Esta forma de voluntariado, em que tocamos os outros (literalmente falando, sem metáforas), em que lhes estendemos a mão e abrimos os braços para os acolher por serem os mais pobres entre os pobres, não é fácil. Conheço muitas pessoas que o fazem e sei, por experiência própria, que custa.

Hoje estaremos online, em direto aqui no Observador, a falar de muitas formas de voluntariado, mas gostava de referir um par de pessoas com projetos que me impressionam particularmente. Estou a pensar no Just a Change, co-fundado por António Bello, que foi recentemente dar o seu testemunho na universidade onde dou aulas e reuniu à sua volta centenas de estudantes e professores. O Just a Change começou numa roda de amigos que decidiram ir cantar e dançar nas ruas do centro histórico de Lisboa e, no fim do dia, usaram o dinheiro angariado para jantar com alguns sem-abrigo. Essa noite e esse encontro pessoal com homeless marcou o início de um grande movimento de voluntariado que cresceu de tal forma, que passados 3 anos já remodelaram centenas de casas de pessoas que viviam na miséria. Só no Verão passado juntaram mais de 1.500 voluntários para esta missão.

Entretanto ganharam sucessivos prémios internacionais, alguns deles muitíssimo expressivos e cobiçados, mas sem nunca se terem candidatado a prémios.

Conheço alguns dos voluntários Just a Change e sei de que é feito o seu trabalho: identificar casas ultra degradadas, lugares por vezes infectos e fétidos, onde poucos se atreveriam a entrar, arregaçar as mangas e, lá está, pôr mãos à obra para matar ratos e baratas, desinfestar das pulgas e percevejos, e só então começar a fazer o trabalho de remodelação. Ao mesmo tempo, cuidando moral e emocionalmente de quem lá morava, tratando de toda a logística necessária enquanto a obra está em curso. Grandes voluntários.

Noutra lógica, mas com o mesmo sentido de contributo, falo de outra organização cujo propósito é ajudar, sensibilizar, transformar a realidade e educar a consciência. A Associação Salvador, que acaba de cumprir 15 anos de existência, faz tudo isto e muito mais contando com o apoio de voluntários e mecenas. O dia 2 de Agosto de 1998 marcou a vida do Salvador Mendes de Almeida porque foi o dia em que teve um acidente de mota que o deixou tetraplégico. Tinha 16 anos e depois de um longo e doloroso período de internamentos e tratamentos em hospitais e clínicas de reabilitação, poderia ter seguido com a sua vida, na sua nova condição, sem se preocupar com mais nada. Felizmente o pai inspirou-o a criar uma organização para ajudar outras pessoas como ele e foi assim que passados 5 anos sobre o acidente, nasceu a Associação Salvador.

“Portugal não estava preparado para quem se deslocava em cadeira de rodas, tanto ao nível de falta de acessibilidades, como da falta de oportunidades profissionais, ou da quase inexistência de desporto adaptado, deixando a maioria das pessoas fechadas em casa. Nessa altura existia um maior desconhecimento e discriminação relativamente às pessoas com deficiência e esta situação tinha que mudar!” As palavras são de Salvador Mendes de Almeida, no livro que acaba de lançar e celebra os primeiros 15 anos da Associação.

Em 15 anos e graças ao trabalho de centenas de voluntários, a Associação Salvador mudou para sempre a realidade nacional. Ainda é preciso fazer muito? É! Mas muito tem sido feito através da gratuidade de gente que se junta à Associação para ajudar sem esperar outra compensação para além da satisfação de estar a contribuir para a qualidade de vida de pessoas que vivem com limitações, foram vítimas de acidentes, ficaram incapacitadas ou nasceram com doenças altamente incapacitantes.

No dia em que foi lançado o livro da Associação Salvador fiquei a conhecer a mãe de três filhos gémeos que nasceram com doenças muito graves e estão todos em cadeiras de rodas. Uma mulher bonita, doce, de cara lavada e olhar limpo, que chora e ri com a mesma facilidade. Uma mãe que ama os seus três filhos, que cuida deles todas as horas de todos os dias, sem pausas nem descanso. Três banhos diários a três crianças deficientes com 7 anos, três refeições dadas à boca vezes quatro por dia, três filhos cada vez mais pesados que não andam pelo seu pé, três gémeos que nunca podem sair à rua ao mesmo tempo e não cabem juntos em carro nenhum. Mesmo quando a mãe e o pai saem com dois carros, apenas podem levar consigo dois dos três filhos. Graças aos voluntários da Associação Salvador (e voluntários são também os que apoiam financeira e logisticamente!), esta mãe, este pai e estes três filhos têm um suplemento de qualidade de vida e alguns apoios extra.

Podia ficar aqui a enunciar boas causas e pessoas incríveis que se dedicam a mil e uma causas. Seria um enunciado extenso e porventura interminável. Concluo a partir destes dois exemplos: que seria do mundo sem o trabalho dos voluntários? Que seria de nós, humanidade, se meio mundo não se voluntariasse para ajudar a metade que sofre e precisa de ser ajudada?