Corria o ano de 2015 e Carlos Brito, ex-líder parlamentar do PCP e ex-director do jornal Avante, criticou Jerónimo de Sousa por colocar de parte uma aliança com o PS.

Em declarações à Lusa, a propósito dos dez anos passados sobre a morte de Álvaro Cunhal (que então se assinalavam), Carlos Brito afirmara que o PCP tinha “medo de ser levado” pelo PS, tendo lamentado que o partido tivesse herdado o lado mais “fechado” e “autoritário” do antigo líder histórico e não a sua “ginástica política” e a “capacidade dialética” de analisar as situações com coragem.

Declarações que mereceram duras críticas de (antigos) correligionários comunistas, como as de Vítor Dias, um ex-dirigente que o acusou de ter “um final de carreira política que mete dó” e de “deturpar indecentemente” afirmações de Jerónimo de Sousa.

Mas Carlos Brito, afinal, fora historicamente premonitório nas suas declarações: “Quando o Jerónimo de Sousa diz – mas estar num Governo PS para quê? Eu digo – é tão simples como isto: para acabar com a austeridade”.

Tendo também dito, depois, que ao longo da sua vida, foi “sempre coerente” a defender entendimentos, recordando o acordo que o PCP fez com o PS para a Câmara de Lisboa nos anos 80 e o apoio que o PCP deu ao candidato presidencial Mário Soares.

Uma postura de coerência de Carlos Brito em linha com um percurso político, iniciado com a idade de 17 anos, no MUD Juvenil, em 1951, que o leva mais tarde a militar no Partido Comunista Português.
E a ser perseguido por essa actividade como militante comunista: preso por três vezes, cumpriu um total de oito anos de prisão.

Na década de 1990, finalmente, Carlos Brito insurgiu-se contra a rigidez do rumo marxista-leninista do PC, tendo sido suspenso do partido por decisão do Comité Central em 2002.

A viver em Alcoutim desde então, onde a sua família, vinda de Moçambique, se instalou um dia no ano de 1936, Carlos Brito dedica-se hoje em dia a ajudar os outros, participando em diversas actividades cívicas e sociais, algumas das quais em estreita colaboração com o pároco local.

É bom, salutar e realmente urgente que as pessoas descomprometidas com o sistema percebam (à esquerda ou à direita, não interessa) a diferença abissal e essencial que existe entre o porte e a inteireza do tipo de intervenção política a que Carlos Brito nos habituou e o facilitismo e oportunismo que radicam na alegada “afirmação política” de uma secretária de Estado que entendeu revelar publicamente e em entrevista a sua orientação sexual.

Ou a diferença, também absoluta e crucial, que existe entre o percurso político de Carlos Brito e a carreira dos cursistas a caviar do Bloco de Esquerda.

Portugal agradece.

Miguel Saldanha Alvim é advogado e membro da Comissão Política Nacional do CDS.