Era inevitável. Mais dia, menos dia, Hortense Martins ia voltar a estar na berlinda. Ciclicamente, como vagas de Covid, podemos contar com mais um caso de actividade suspeita da deputada do PS e do seu marido Luís Correia, ex-presidente da Câmara de Castelo Branco. Enquanto a pandemia está na 2ª vaga, as desconfianças sobre o casal Martins Correia já vão para aí na 6ª ou 7ª vaga. Com a ressalva de aqui “vaga” ter duplo sentido. Está como substantivo, em vez de “onda”, e como adjectivo em “desculpa vaga”, para classificar o tipo de justificação confusa que quer Hortense Martins, quer Luís Correia, costumam dar para as suas trapalhadas.

Desta feita, trata-se da parcela de um terreno que o casal adquiriu em 2004, por 10 mil euros, e que vendeu, no ano seguinte, por 62 mil euros. A súbita valorização deveu-se ao facto de a REN (na altura presidida por José Penedos, ex-secretário de Estado do PS e entretanto condenado a 5 anos de cadeia por tráfico de influências no âmbito do Face Oculta) ter decidido, aparentemente ao calhas, construir lá uma subestação eléctrica. Mais uma vez, tudo às claras em Castelo Branco.

Para Hortense Martins e o marido, assinar documentos é como jogar à raspadinha. De vez em quando dá prémio. Desta feita tratou-se de um registo de venda, mas podia ter sido um contrato assinado em nome da Câmara com uma empresa do próprio pai. Ou uma cessação de funções com a data falsificada. Ou uma candidatura ilegítima a subsídios comunitários. Tanto faz. O que interessa é que, sempre que rubricam, ouve-se o tilintar da caixa registadora. Há quem sonhe ver o seu nome na fachada de um teatro, é sinal que se teve sucesso. Hortense é mais modesta, basta-lhe ver o nome numa escritura.

As suspeitas de falcatruas que recaem sobre Hortense Martins e o marido são já tantas que se torna difícil acompanhar. Sempre que acho que já domino as obras completas, aparece outra que tenho de juntar ao rol. Felizmente, tenho uma técnica mnemónica que me permite decorar, com alguma facilidade, o cadastro actualizado. Consiste em usar a música infantil “Loja do Mestre André”. Na lengalenga, descreve-se cada compra de um instrumento musical. À medida que se vão adquirindo mais, acrescenta-se a nova compra à repetição das antigas. O que eu faço é substituir instrumentos por falcatruas, mantendo as onomatopeias que ajudam a recordar. E dão alegria, claro.

Por exemplo, a assinatura de contratos com o pai é o tamborzinho e a falsificação da cessação de funções é o pifarito. Quando tenho dúvidas, é só cantar: “Foi em casa da Hortense e do Luís que assinaram contratos com o pai! Tum, tum, tum, contratos com o pai! Tiro, liro, li, uma falsificação! Ai olá, ai olé, foi em casa da Hortense e do Luís!” Quando o casal empreendedor infringe um novo, digamos, instrumento, é só juntar à lista.

Com a quantidade de instrumentos musicais que há no mundo, a “Loja do Mestre André” é a lengalenga com maior capacidade para acomodar todas de vigarices que, Deus lhes dê saúde e o PS cobertura, ainda podem vir a praticar. Ou muito me engano ou estamos na presença de uma potencial orquestra sinfónica, aprimorada com instrumentos exóticos como a trompa alpina, a balalaica ou o didjeridu. É informação e melodia.

Só não consegui perceber ainda porque é que António Costa e a cúpula do PS permanecem tão leais a Hortense Martins, que continua como deputada com destaque na AR. Pensei que pudesse ser pela qualidade tribunícia e dei-me ao trabalho de assistir a uma das suas últimas intervenções, no debate do Orçamento do Estado. Alguns excertos:

“Como todos nos recordamos, esta crise apanhou o mundo desprevenido, mas Portugal pôde contar com o nosso SNS, que tinha vindo a ser reforçado e isso foi feito pelo Governo do PS e pela maioria de esquerda que aprovou os anteriores orçamentos e que defendeu o seu reforço de meios”.

“Isso foi feito e foi essencial para responder à primeira fase da pandemia, para termos mais equipamentos de protecção individual, ventiladores, laboratórios, vacinas e conseguirmos mais profissionais de saúde”.

“O PS inverteu esse retrocesso que vinha sendo feito pelos governos da direita”.

Está visto que não é pela capacidade oratória ou pela argumentação de Hortense Martins que o PS a acolhe. É um tipo de sabujice que está ao alcance de qualquer engraxador. Há por aí vários fãs do Governo capazes de debitar, mais articuladamente, estas semi-aldrabices lisonjeiras, sem precisarem de ser suspeitos de corrupção. Basta ir às redes socais e recrutar alguém de entre as dúzias de lambe-botas. Só na caixa de comentários a este texto vão aparecer 3 ou 4.

Então, porque é que o PS não afasta Hortense Martins? É fácil: por causa das saudades de Sócrates. Os socialistas sentem falta do seu ex-PM predilecto e Hortense Martins faz lembrar o Eng.º Pinto de Sousa. Também é uma beirã com faro para o erário público, também mostra não ter vergonha, também tem amigos empresários com jeito para o negócio. Podia ser Sócrates, se Sócrates tivesse ficado na serra em vez de descer à capital, onde levou duas demãos de sofisticação e uma injecção de esteróides na ganância. Dá para matar saudades da lata, da bazófia e da desfaçatez. É trapaceira de substituição. Metadona de Sócrates.

O PS vai apoiar Hortense até ao dia em que seja detida na manga de um avião. Não à vinda da cosmopolita Paris, depois de um mestrado, mas da popular Las Palmas, depois de uma semana num resort com tudo incluído. Nessa altura, Hortense ficará sozinha a defender-se. Talvez organize um abaixo-assinado de protesto e consiga bastantes assinaturas Provavelmente, de camaradas que vão querer assinar o mesmo documento que Hortense Martins. Sabem que pode dar sorte.