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Imagine o que será Lisboa daqui a 15 anos.

Na Baixa inteira, não haverá mais do que hotéis e apartamentos de luxo. Lojas e restaurantes de cadeias grandes e franchisings de comida de plástico irão, a pouco e pouco, substituir as lojas que agora gozam de rendas controladas no rés-do-chão. O néon será a nova cor. Alfama, Castelo, Intendente, Santa Catarina e Bairro Alto vão estar cheios de “hostels” e apartamentos, enquanto os residentes actuais morrem ou mudam-se, e os prédios abandonados serão dados a novas vidas turísticas.

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As ruas e as passadeiras no centro da cidade, hoje horrivelmente estragadas, serão reconstruídas e as obras à volta do Carmo acabadas (após a “Grande Subida” da Taxa Turística em 2019, a €20 a noitada). Com o novo clima sub-tropical, a Baixa sofrerá inundações 4 ou 5 vezes por ano, mas o dilúvio urbano será “rebranded” como “um fenómeno fabuloso”, para atrair ainda mais turistas. A menos, claro está, que um investidor chinês tenha comprado a rede de esgotos à câmara municipal e descubra que, de facto, existe uma coisa chamada “limpar os esgotos”.

As linhas abandonadas do eléctrico — que, misteriosamente, ninguém removeu em 30 anos — serão reutilizados para um novo sistema de eléctricos turísticos, mascarados como eléctricos antigos, mas sem tectos e com Wifi e guias áudio. Hão de ser conduzidos por robôs vestidos de condutores dos anos 1930, e terão prioridade absoluta na estrada.

Se os Vistos Gold não tiverem sido proibidos nessa altura (por causa das inevitáveis “irregularidades alegadas” … ó, isso não era previsível, pois não?), a Avenida da Liberdade terá ainda mais lojas de luxo  e residentes extremamente ricos, e será reclassificada só para peões, menos as duas ruas de cada lado, que serão para o uso exclusivo dos carros exclusivos dos residentes exclusivos. Uma grande loja com vários departamentos, tipo “Harrods”, ocupará um palácio antigo no Restauradores, para atrair turistas que miram nas montras coisas que não podem comprar.

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Um teleférico ligará o Castelo de S. Jorge à colina do Carmo, e o Elevador de Santa Justa há-de parecer pequeno e triste por comparação com a torre deslumbrante que surgirá de dentro do centro de visitantes  da “Experiência 1974”, construído dentro da sede da GNR no Largo do Carmo.

O centro da cidade tornar-se-á cada vez mais uma máquina de imprimir dinheiro. Haverá mais uns milhares de empregos nas indústrias de restauração e hotelaria e turismo, e os sortudos proprietários de imobiliário do centro da cidade ficarão ricos sem terem de se mexer.

E depois, um dia, todos vão descobrir que afinal esta explosão de turismo é apenas uma moda passageira, um “boom” ocasional, e haverá um “bust”.

Lisboa não é Paris, Roma, Londres, Madrid, Tóquio nem Nova Iorque. Essas capitais, muito maiores, têm outras vidas para viverem além do turismo. Se os turistas deixassem de as visitar amanhã, notariam a diferença, mas continuariam a viver e a prosperar.

No entanto, Lisboa parece estar a dirigir todas as suas energias só para turismo. O problema é que Lisboa é capaz de se matar nesse processo. É que a cidade não tem o tamanho suficiente. Se todos se concentrarem demasiado nos turistas durante demasiado tempo, ao fim restará pouca outra vida em Lisboa. E quando os turistas deixarem de a visitar em números vastos, Lisboa enfrentará mais uma crise. O centro da cidade ter-se-á tornado uma casca vazia, sem alma, com os pastéis de nata no lugar do “tumbleweed” que rolava nas ruas das cidades abandonadas dos Westerns. Toda a vida genuína terá sido empurrada outra vez para os subúrbios, depois de ter começado a voltar recentemente ao centro.

Muito dependerá dos homens com dinheiro. Terão eles a imaginação suficiente para não tornarem o próximo prédio abandonado em mais um hotel? Perguntar-se-ão eles se não seria uma boa ideia oferecer tal prédio a gente com ainda mais imaginação de que eles, para fazerem coisas maravilhosas e coisas importantes, de modo a que a cidade adquira algo mais importante do que mais um hotel de luxo para visitantes chineses ou mais uma cadeia de hamburguerias ou mais um café dedicado aos pastéis de nata — algo que possa alimentar a gente e a alma de Lisboa? Talvez até servisse para sustentar a indústria de turismo durante muito mais tempo. Nunca se sabe.

(traduzido do original inglês pela autora)

 

Tumbleweed.

Imagine what Lisbon may be like in 15 years’ time.

The whole of the Baixa will consist of luxury hotels and apartments. Chain stores and tourist restaurants and fast food joints will slowly occupy previously rent controlled shops on the ground floor. Neon will be the new colour. Alfama, Castelo, Intendente, Santa Catarina and Bairro Alto will be filled with hostels and holiday apartments, as old residents either die or are pushed out and abandoned buildings are reclaimed, done up and repurposed for tourism.

The horribly broken roads and calçada in the city centre will have been repaired (after the “Great Tourist Tax Rise of 2019 to €20 per night), the works around Carmo will be finished, and when the Baixa inevitably floods four or five times a year (with Portugal’s new sub-tropical climate), the floods will have either been rebranded as a “fabulous natural phenomenon, will you be lucky enough to see it?”, or a private Chinese investor will have bought the drains from the council, having discovered that, in fact, there is something called “cleaning out the drains”.

The discontinued tramlines, which have mysteriously not been dug up or covered over for the last thirty years all over the city, will be re-used for a new tram system, filled with tourist trams faked to look like the old ones, open topped and with wifi and guided audio tours. They will be driven by automata dressed as 1930s tram drivers and they will have absolute priority on all roads.

If the Golden Visas haven’t been blown out of the water by then (because of the inevitable *alleged irregularities*… oh that wasn’t very predictable, was it?), Avenida da Liberdade will be populated with even more luxury goods stores and even more extremely wealthy residents, and will be pedestrianised, leaving the two side roads for exclusive access for the exclusive cars of the exclusive residents. A fabulously expensive department store will be built in an old palace in Restauradores and it will be the Harrods of Lisbon, attracting tourists to come and gaze in the windows at things they can’t possibly afford.

A cable car will connect the Castle to Carmo, and Elevador Santa Justa will pale in insignificance underneath the gleaming new tower that rises from inside the visitor centre at the “1974 Experience” that has been built inside the headquarters of GNR in Largo do Carmo.

The city centre will be a money making machine. There will be thousands more jobs in the service industries and the lucky few who own real estate in Lisbon city centre will rake it in.

And then, one day, this tourism explosion will show itself for what it really is, a fashion, a boom, and there will be a bust.

Lisbon isn’t Paris, Rome, London, Madrid, Tokyo or New York, those far bigger cities that have other lives to be getting on with, lives that sustain the souls of their cities, lives that co-exist with the tourists. If the tourists stopped visiting them tomorrow, they would notice the difference, but they could continue to live.

Meanwhile, Lisbon seems to be directing all her energies just towards tourism. The problem is that Lisbon might kill herself doing just that. She just isn’t big enough. If everyone concentrates too much on the tourists for too long, there will be little left of Lisbon herself.  If… no, when the tourists stop visiting in vast numbers, Lisbon will be facing yet another crisis. The city centre will have become just an empty soulless shell, with pasteis de nata as a modern version of tumbleweed, and all “real” life will have been pushed out, again, after it just started to move back.

It will depend on the man with the money. Will he have enough imagination to not turn the next abandoned building into another hotel? Will he wonder if it might be an idea to give it over to people with even greater imaginations, to do marvellous things with, important things with, to nurture something more important than a fancy hotel for Chinese visitors or another gourmet hamburgeria or another café dedicated to the pastel de nata? That is, to nurture Lisbon’s people and her soul. In turn, that might, just might, help sustain the tourist industry for longer. You never know.