Em 1956, o chanceler Adenauer, chefe do governo duma Alemanha Ocidental em reconstrução, com o seu território devastado no final da II Guerra, ofereceu transporte gratuito a todos os trabalhadores italianos desempregados, que quisessem viajar para a Alemanha. No decurso da década seguinte, o governo iria assinar uma série de acordos de imigração não só com a Itália, mas abrangendo também a Grécia e Espanha (1960), a Turquia (1961), Marrocos (1963), Portugal (1964) e Jugoslávia (1968). Os trabalhadores estrangeiros “convidados”, foram encorajados a arranjar emprego na Alemanha – na convicção de que o seu trabalho era estritamente temporário: um dia, acabariam por regressar aos seus países de origem. Tal como os trabalhadores migrantes finlandeses na Suécia, ou os trabalhadores irlandeses na Inglaterra. Estas pessoas – a maior parte com menos de 25 anos – vinham em quase todos os casos, de regiões pobres, rurais ou montanhosas. A maioria não era especializada.

Cumpre desde já reter, sem romantismos, que o facto deste convite ser meramente temporário, não resultou de uma opção governamental ou das empresas – a quem até conviria a permanência prolongada – mas da vontade da maioria da população de cada país receptor. No final, a maioria dos imigrantes até ficou no país, porque se integrou e se tornou indispensável.

De facto, a maior parte das pessoas na Europa de 1950, tinha uma opinião muito negativa sobre o recurso a imigrantes, até porque já estavam a integrar nos respectivos países, todos os deslocados da II Guerra, num movimento populacional entre nações, só comparável ao que sucedeu, quando a India e o Paquistão se separaram.

Na sequência desta política migratória controlada, em 1973 só na Alemanha Ocidental já havia quase meio milhão de italianos ou jugoslavos. Quanto aos turcos, já eram mais de 600.000. Os alemães, tal como os suíços, franceses, belgas ou ingleses – não acolhiam especialmente bem a súbita erupção de tantos estrangeiros no seu território. A sensação de viver no seu meio, tanta gente de países desconhecidos, não era familiar à maior parte dos europeus. Apesar de todos os avanços civilizacionais, a Europa, sempre foi um continente muito tribal. Assim, se a imigração na Europa, foi razoavelmente tolerada na segunda metade do Sec. XX, apenas com ocasionais manifestações de preconceito e violência contra as comunidades de trabalhadores estrangeiros, isto deveu-se ao facto destes serem necessários,  viverem afastados da população local, nos mais desolados subúrbios das maiores cidades, não constituírem uma ameaça económica numa época de pleno emprego e finalmente, no caso dos originários de Portugal, Itália, Espanha ou Jugoslávia, serem cristãos, fisicamente semelhantes e culturalmente assimiláveis.

Ainda assim, e só como exemplo, apenas após as leis raciais de 1968 no Reino Unido, foi possível à Polícia, impedir que alguns hotéis, tivessem na porta um letreiro com a seguinte inscrição: “Proibida a entrada a cães, pretos e irlandeses”. Leu bem.

Quando a imigração mudou de cor e religião, muito deste sempre frágil consenso entre os nacionais de cada Estado, começa a entrar em crise. A larga maioria destes novos imigrantes, fossem convidados ou clandestinos, não escapam ao ressurgimento dos ancestrais preconceitos em relação ao desconhecido.

Nos primeiros anos do Século XXI haveria talvez seis milhões de muçulmanos em França (na sua maioria de origem norte-africana) e um número aproximado na Alemanha (sobretudo de proveniência turca ou curda). Juntamente com os quase dois milhões de muçulmanos residentes na Grã-Bretanha (vindos principalmente do Paquistão e do Bangladesh) e uma presença significativa nos países do Benelux e na Itália, estes números apontavam para um total de cerca de 15 milhões em toda a União. Segundo estatísticas mais recentes da própria UE, o número de imigrantes extracomunitários andará perto dos 23 milhões, ou seja 4,5% da população de 500 milhões de europeus.

Uma percentagem desta dimensão, na zona do mundo com o poder económico mais significativo, mas com problemas graves de envelhecimento demográfico, qualquer análise séria, levaria a concluir que esta realidade, não deveria consistir num problema. Mas de facto, é um problema e sério.

Em primeiro lugar, em torno da imigração, instalou-se toda uma “indústria”, que incluiu — cada um no seu papel – o sensacionalismo mediático, a divulgação de índices fantasiosos (na boa tradição de que os números devidamente torturados, dizem sempre o que quisermos) traficantes de pessoas, organizações não governamentais credíveis e outras, nem tão credíveis; governos democráticos incapazes ou desnorteados.

A imagem que passa da imigração, são as filas de refugiados e emigrantes económicos, a caminhar pelas estradas e campos da Europa; insufláveis lotados no mediterrâneo; afogamentos e salvamentos, acolhimentos e rejeições, barcos à deriva, falta de alimentos, entradas nas praias à vista dos veraneantes de férias etc. Tudo situações que traduzidas em imagens televisivas ou em redes sociais, mais se parecem, com uma espécie de invasão do continente por uma horda de gente de tez escura.

Paralelamente e ao invés de estabelecer uma política comum, estruturada e consistente de imigração — aquilo que em palavras simples se chama: encarar o problema de frente –, os governos democráticos europeus limitam-se a pagar à Turquia para reter o fluxo, a negociar discretamente com traficantes e a fixar quotas de acolhimento por país, (e só para os que aderem, já agora) como se estivemos a distribuir quotas de manteiga ou de couves.

Não existindo nenhuma política europeia de integração, para aqueles que acabam por chegar e ser aceites, o destino normal é sobreviver do assistencialismo ou da exploração laboral, e viver em guetos controlados por outros ramos das mesmas máfias a quem pagaram o transporte. Em muitos destes bairros, de França, Alemanha ou Bélgica, as policias, ou não entram, ou quando o fazem in extremis, vão equipados para uma batalha.

Todo o cenário assim montado, cria naturalmente inquietação nas populações. A tradição de atribuir ao estrangeiro todas as desgraças da nossa existência, para mais quando aquele é diferente e professa um credo diverso, é uma constante da História, a que nenhuma nação escapou.

Esta inquietação gera medo, que por seu turno produz uma sensação geral de insegurança. Muitos destes eleitores não encontram representação política para estas suas preocupações no espectro partidário europeu tradicional e democrático. Novos partidos, que trazem como objectivo “por ordem na sociedade”, têm via aberta para conquistar eleitorado e é o que estão a fazer. E se mais votos não obtém, é porque possuem nos seus programas para além da recusa da imigração (por aí não seriam penalizados) outros objectivos cujo “cheiro” a autoritarismo afasta, felizmente e por enquanto, muito eleitorado conservador e moderado, que não pretende entrar em aventuras.

Enquanto estes acontecimentos se vão desenrolando, os partidos democráticos tradicionais vão-se comportando como sonâmbulos (nome pelo qual ficaram conhecidos os governos europeus apáticos que permitiram a eclosão da I Guerra Mundial), adiando todas as decisões, aguardando que o assunto se resolva sozinho, quando sabem que isso não vai suceder.

Por seu turno, a chamada “esquerda do politicamente correcto”, que cada vez mais se assemelha a uma “polícia de costumes”, muito acolhida na comunicação social apesar da sua escassa representatividade, entretém-se a denunciar cidadãos por algum desabafo inconveniente que profiram em relação a estrangeiros imigrados, vigiando cada expressão, cada gesto, cada anedota, como podendo ser uma atitude discriminatória grave ou uma manifestação de supremacia racial inadmissível. Estes maluquinhos até têm representação parlamentar, mas continuam a ser os idiotas úteis do costume.