Aníbal Cavaco Silva

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268

Fica-se a conhecer a singularíssima relação que houve entre dois políticos, não quaisquer, Cavaco e Passos, e a aliança que teceram e nunca romperam. A visão é ampla e polifónica, goste-se ou não dela

1. Primeiro foram os remoques pretensamente irónicos, uma vozearia sobranceira, as promessas inúteis de não futuras memórias. Passada o superficial arremedo, esperar-se-ia porém subir a um patamar superior de opinião: críticas, argumentos, debates, como o livro de Cavaco Silva obviamente mereceria e deveria suscitar. Mas não. É a fulanização em curso. Antes do “o quê” há que atender ao “quem”. O “quem” determina, engole ou liquefaz o resto. E se houver ainda por cima a ameaça da “verdade dos factos”, pior. Pena é que vozes mais sérias não se tivessem sobreposto à irrelevância da vozearia, vindo a terreiro abrir uma discussão que só poderia ser politicamente interessante. Como o livro é.

Fizeram mal. “Quinta Feira e Outros Dias” (Porto Editora), o segundo volume das memórias presidenciais de Cavaco Silva — e o mais político dos seus livros –, tem muito que se lhe diga. Para quem acompanhou razoável e relativamente bem a coroa de espinhos que foi a governação da AD de Passos e Portas, a palavra surpresa não é descabida. Não foi senão o espinhoso desenrolar dessa saga quem melhor interpelou a minha leitura que me valeu pelo livro todo. Seja como for, lidas todas as páginas, fica a saber-se mais. E melhor. Mais claramente. Fica-se a conhecer a singularíssima relação que houve entre dois políticos, e não quaisquer, Aníbal Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho, e a aliança que teceram e nunca romperam. A visão é ampla e polifónica, goste-se ou não dela.

2. O livro é político e já não um “relato”, e nesse sentido é, repito, o melhor dos quatro volumes já conhecidos. Tudo passa pela política, as teias que ela engendra, as ilusões que cria, as armadilhas que tece, o que mostra ou tapa, o que dá e tira, as relações que estabelece, os eleitos que escolhe, os inimigos que fabrica. A história que conta. Ao longo de mais de quinhentas páginas o autor lembra, conta e descreve incansavelmente. Um caudal imenso, permanente, rigoroso, detalhado, minucioso, de informação – não falta uma circunstância, um nome, um encontro, não falha uma data, uma hora, um lugar e há que convir que dá pouco jeito duvidar da palavra de alguém como Cavaco Silva. Um exercício precioso, e só essa disponibilidade para deixar o caudal escorrer é em si tão rara que deveria ser objecto de atenção e guarda.

Uma obra política sim, na medida também em que nunca quer o autor largar essa pele, não lhe ocorrendo — ou não sabendo, ou não querendo – juntar-lhe outra ou aventurar-se por outros caminhos, e tinha por onde escolher. Muita gente que (obviamente) não leu o livro recorrendo apenas ao índice remissivo, logo acusou Cavaco Silva de ser “mau” com este, “bom” com aquele, “assim-assim” com aqueloutro, quando o livro tem indiscutivelmente pouco a ver com essa medíocre contabilidade. O que não exclui que muitos leitores certamente tivessem apreciado algo para além de “observações pessoais” ditadas quase só pelas circunstâncias políticas e sociais de cada momento ou pela própria natureza dos factos.

Um dia, há dois ou três verões, estando no Algarve em conversa com Cavaco Silva, e sabendo-o a escrever este livro, perguntei-lhe porque não “uma diferença desta vez”? Porque não alguns traços mais impressionistas dos seus diversos interlocutores, alguns retratos? Alguma coisa de menos relatada e mais vivida, na pele e na alma? Porque não ousar dizer-nos quem eram “por dentro” e como eram afinal, alguns dos tão diversos personagens políticos com quem convivera durante tantos anos?

O escriba não se comoveu, nem sequer pareceu muito interessado no que lhe sugeria, para cada um o seu registo: exit retratos psicológicos. O que eu ignorava era que Cavaco Silva não se eximiria a substituir por vezes uma mera observação pessoal pelo ácido sulfúrico que derrama sobre alguns dos observados. (Se fossemos um país normal, mas não somos, tais observações seriam também as mais esclarecedoras politicamente, havendo que serem tidas em conta.)

3. Durante quatro anos Cavaco discute circunspecta e severamente cada medida governamental ditada pela troika, condena liminarmente muitas, discorda de quase todas, sugere constantes alternativas, instiga o seu paciente primeiro-ministro à impaciência. Um fala de Portugal, o outro dos portugueses, sendo porém impossível duvidar da seriedade intrínseca da aliança entre eles e mesmo quando a tensão sobe até ao limite do insuportável percebe-se que nunca desistirão. Nem um do outro, nem cada um de achar que está a fazer o que acha que deve fazer. Duelos de via sacra política em tempo histórico. Tão densos e tensos por vezes que ficamos com a surpreendente sensação de um Presidente a tomar permanentemente conta do seu primeiro-ministro: “alertei-o para”; “espero que esteja à altura de”; “lembrei-lhe que”; “aconselho-o a que”; “desaconselhei-o firmemente a”.

Um tutor. Um professor, doublé de árbitro, doublé de juiz. Mas — e nada me fará mudar de opinião — percebe-se que Cavaco agia genuinamente em nome dos portugueses, da credibilidade externa, da honra do compromisso assumido pelo país face a três instituições internacionais. Fazia o seu melhor e só o sabia fazer assim. Sentado diante dele, durante quatro anos, Passos que fez mais do que o possível, era paciente e usava de diplomacia. Sabendo-se cercado, (troika, oposições, Tribunal Constitucional, socialistas socráticos, comunicação social, bem pensantes, forças vivas, associaçõess, elites, sindicatos) nunca iria transformar o seu íntimo, único e último aliado, no seu pior inimigo. E assim se descobre como – contra os tempos e ventos – nasce, cresce e se solidifica uma relação política facetada por um tempo de guerra (mas certamente que o livro que Passos anunciou e já tarda nos elucidará melhor).

4. Um dia, nos escombros em que jazia a coligação após a debandada “irrevogável” de Paulo Portas e o pânico político nacional e internacional que ela fez disparar, o então Presidente, vendo o mundo a ruir e os capatazes estrangeiros a enervarem-se demasiado, decide entrar em cena. Uma entrada de leão: o Presidente da República idealiza, promove e produz um Compromisso de Salvação Nacional. Objectivo: reinstaurar o espírito de compromisso e confiança entre os partidos envolvidos no Programa de Assistência Financeira. Modus faciendi: um acordo interpartidário (PSD/CDS/PS) que assegurasse a governabilidade do país, a sustentabilidade das finanças publicas, a melhoria da competitividade da economia. Brinde: a convocação de eleições legislativas um ano antes do seu calendário.

Cavaco acreditou, Passos não. Ele próprio — com a reserva com que costumava agir — já o tentara, Martin Schultz e Durão Barroso podiam comprová-lo (e assim Passos nos desenvolva isto mesmo no seu livro). O então chefe do Governo sabe da pouca propensão do PS para cumprir os mandamentos da troika, sabe Seguro sem vontade própria e refém de um PS dividido que o quer despedir, sabe e não acredita. Cavaco insiste,“vale a pena tentar em nome do superior interesse nacional”. Homem sem ilusões, Passos Coelho “embora não acreditando na viabilidade” de nada daquilo,“não se opõe”. Os dois divergem, discordam, discutem, debatem, mas Passos “não se opõe”. O toque de “Vésperas” em tempos históricos.

4. Ambíguo tudo isto, ambíguas afinal as relações entre Cavaco Silva e Passos Coelho impressas nestas “Quintas feiras”? Não: a coincidência no diagnóstico de um agonizante chamado Portugal, divergia porém na cura do moribundo. Aparentemente terá divergido sempre. Mas nunca por nunca ser, pondo em risco a aliança entre ambos. Nem a sua indispensabilidade, a sua solidez e a sua (inverosímil?) verosimilhança. Não é senão nesta tensa, intensa e divergente aliança que se pode encontrar uma das chaves para que a espantosa saga política vivida entre 2011 e 2015, tenha chegado a porto seguro.

E no entanto… a dúvida que muitos já tinham pode tornar-se hoje mais legitima após a leitura das “Quintas Feiras”: como teria sido se Passos Coelho tivesse sido mais “flexível”, se tivesse tido um comportamento em sintonia com o olhar do Presidente? Poderiam as coisas, as imensas coisas que vivemos, ter sido diferentes? As negociações com o FMI, a UE e o BCE, teriam decorrido de forma, mais amável para com o país se Passos tivesse batido o pé e levantado a voz? Não sabemos.

E se — como parecia alvitrar o então Presidente – Passos Coelho tivesse logo em 2011 publicitado a vil mentira de Sócrates sobre a astronómica dimensão financeira da herança socialista, teria havido mais “compreensão” para com o governo?

Poderia enfim o que se passou, ter-se passado de outra maneira, conforme o autor do livro ás vezes parece acreditar? Também não sabemos. Mas isto dito e estas (obrigatórias ) perguntas feitas, uma coisa vem permanentemente ao de cima das “Quintas Feiras” e é a sua descoberta que muito “faz” o livro: a espécie rara de lealdade de que dois politicos foram capazes na divergência que quase se julga permanente, nas inúmeras vicissitudes partilhadas. Nunca o então Presidente deixou cair Passos — salvou-lhe o governo na infeliz TSU e apoiou-o quanto pôde no antes, durante e depois da devastadora Sétima Avaliação da troika. E nunca Passos Coelho deixou ficar mal o Presidente da República (ao contrário, por exemplo, de algumas figuras de direita mas também de esquerda de quem – é um suponhamos – Cavaco teria esperado mais. Um comportamento diferente daquele que veio a verificar.

5. Em resumo: aí esta a partir de agora uma história política entre dois homens políticos num momento crucial da vida do país, como não me lembro de ver ou ler nestas quatro décadas de mais feliz ou menos feliz democracia. Uma história singular de uma aliança singular, da qual aliás, após ler o livro, me interrogo que marcas terá deixado em cada um destes dois sobreviventes e se essas marcas terão, seja lá quando for, um futuro. Mas isso é preciso esperar pelo livro de Pedro Passos Coelho. Só o que ele escolher contar, responderá a esta (não dispiscienda) dúvida.

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