1. Primeiro foram os remoques pretensamente irónicos, uma vozearia sobranceira, as promessas inúteis de não futuras memórias. Passada o superficial arremedo, esperar-se-ia porém subir a um patamar superior de opinião: críticas, argumentos, debates, como o livro de Cavaco Silva obviamente mereceria e deveria suscitar. Mas não. É a fulanização em curso. Antes do “o quê” há que atender ao “quem”. O “quem” determina, engole ou liquefaz o resto. E se houver ainda por cima a ameaça da “verdade dos factos”, pior. Pena é que vozes mais sérias não se tivessem sobreposto à irrelevância da vozearia, vindo a terreiro abrir uma discussão que só poderia ser politicamente interessante. Como o livro é.

Fizeram mal. “Quinta Feira e Outros Dias” (Porto Editora), o segundo volume das memórias presidenciais de Cavaco Silva — e o mais político dos seus livros –, tem muito que se lhe diga. Para quem acompanhou razoável e relativamente bem a coroa de espinhos que foi a governação da AD de Passos e Portas, a palavra surpresa não é descabida. Não foi senão o espinhoso desenrolar dessa saga quem melhor interpelou a minha leitura que me valeu pelo livro todo. Seja como for, lidas todas as páginas, fica a saber-se mais. E melhor. Mais claramente. Fica-se a conhecer a singularíssima relação que houve entre dois políticos, e não quaisquer, Aníbal Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho, e a aliança que teceram e nunca romperam. A visão é ampla e polifónica, goste-se ou não dela.

2. O livro é político e já não um “relato”, e nesse sentido é, repito, o melhor dos quatro volumes já conhecidos. Tudo passa pela política, as teias que ela engendra, as ilusões que cria, as armadilhas que tece, o que mostra ou tapa, o que dá e tira, as relações que estabelece, os eleitos que escolhe, os inimigos que fabrica. A história que conta. Ao longo de mais de quinhentas páginas o autor lembra, conta e descreve incansavelmente. Um caudal imenso, permanente, rigoroso, detalhado, minucioso, de informação – não falta uma circunstância, um nome, um encontro, não falha uma data, uma hora, um lugar e há que convir que dá pouco jeito duvidar da palavra de alguém como Cavaco Silva. Um exercício precioso, e só essa disponibilidade para deixar o caudal escorrer é em si tão rara que deveria ser objecto de atenção e guarda.

Uma obra política sim, na medida também em que nunca quer o autor largar essa pele, não lhe ocorrendo — ou não sabendo, ou não querendo – juntar-lhe outra ou aventurar-se por outros caminhos, e tinha por onde escolher. Muita gente que (obviamente) não leu o livro recorrendo apenas ao índice remissivo, logo acusou Cavaco Silva de ser “mau” com este, “bom” com aquele, “assim-assim” com aqueloutro, quando o livro tem indiscutivelmente pouco a ver com essa medíocre contabilidade. O que não exclui que muitos leitores certamente tivessem apreciado algo para além de “observações pessoais” ditadas quase só pelas circunstâncias políticas e sociais de cada momento ou pela própria natureza dos factos.

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