Há uma coisa que as estruturas do estado português deveriam ter em mente. Não há qualquer dúvida que cabe ao estado o controlo da coisa pública, é para isso que ele existe. Para que aquilo que são os objetivos de todos nós, enquanto entidade coletiva, possam ser levados avante e, se possível, com sucesso. Mas o dono disto sou “eu”. O estado pode controlar e nós trabalhamos para o pagar (e como!) mas a propriedade da coisa pública é de cada um de nós individualmente.

Eu não faço parte daquele grupo de pessoas que acha que as coisas têm que acontecer como por milagre e creio, honestamente, que as pessoas que nós nomeamos para os cargos políticos têm como objetivo dar o melhor de si, para que todos nós tenhamos sucesso. E nestas estou a incluir as que tiram algum para si extracontratualmente. Mesmo aquelas que sabemos que roubaram, estou em crer que, ainda assim, na sua consciência estariam a trabalhar o melhor que podiam para que o povo tivesse uma vida melhor.

Neste sentido, o que não suporto é populaça a dizer que os políticos são todos uns ladrões, que andam lá para se encher, etc. ou, mais comum entre os próprios políticos, andarem a insultar a competência uns dos outros sobre coisas que fogem manifestamente do seu alcance.

Mas há mais. Os políticos são escolhidos por nós. Se gastam o dinheiro que não temos em estradas sem automóveis, cuecas sem elástico ou em “domus municipalis” a culpa é nossa porque não só os elegemos como, na maior parte dos casos, os reelegemos, mesmo aqueles que é notório que retiram algum extracontratual para os seus hábitos mais complicados.

Só há uma coisa que não podemos ter culpa e que a culpa tem que ser atribuída, de forma política e não só, ao político enquanto homem, como seria a qualquer gestor de qualquer empresa. Quando mente ou omite informação relevante aos interessados. Ser incompetente é uma questão da tarefa que temos pela frente estar, ou não estar, ao nosso alcance e acontece-nos a todos não conseguirmos. Omitir ou adulterar informação é um ato consciente que se destina a lesar os interessados. É por isso que, mesmo na minha empresa, eu não posso adulterar a contabilidade de forma a não refletir a realidade financeira da empresa. É crime, mesmo sendo a empresa minha. O que torna totalmente inaceitável que, quando o dinheiro é dos mais fracos como o dinheiro dos nossos impostos, isso seja encarado quase como uma virtude. Nunca um governo devia deixar de ser julgado criminalmente se as contas públicas não refletissem exatamente a realidade financeira do estado, independentemente daquilo que o Eurostat diga, porque o seu julgamento político está adulterado à partida se a informação foi sonegada àqueles que são os acionistas do estado.

Há já algumas décadas que nos é devido o julgamento de vários responsáveis pelas finanças, não porque o valor do défice ou o valor da dívida tenham atingido os valores que atingiram. Isso é culpa nossa. Mas por terem andado a parquear dívida e despesa fora do perímetro de consolidação do estado que era conhecido. E quando as autoridades estatísticas apanhavam o truque, ainda vinham dizer que tinham sido alterados os critérios, chamando burros aos técnicos e aos cidadãos.

Isto por causa do caso da CGD e das várias tentativas que têm sido feitas para tentar não haver uma explicação clara do que está em causa. Que há um problema gigantesco associado à CGD já não parece ser segredo para ninguém. Aliás, as notícias hoje em dia não são sobre o problema da CGD, mas sobre as tentativas alternadas de tentar saber e tentar esconder o que realmente se passa ou passou. E, pela quantidade e qualidade dos rabos que andam irrequietos nas cadeiras, devemos estar perante algo de apreciáveis dimensões. E por isso, face àquilo que escrevi acima, gostava de fazer um singelo apelo aos meus concidadãos: não vamos deixar passar os mentirosos incólumes.

Estamos a falar de uma companhia com milhares de empregados que merecem, no mínimo, o benefício de os considerarmos profissionais e de acharmos que fizeram o que estava ao seu alcance para o melhor da instituição. E isto aplica-se ao caixa da agência de Mogadouro e ao membro do Conselho de Administração (mesmo quando são a mesma pessoa). Se a CGD tem problemas, tê-los-á como qualquer empresa tem durante a sua vida. Mas o que está em causa é óbvio para toda a gente, já que não é coisa que tenha saído do seu interior e envolve respeitáveis nomes, de respeitáveis governos e instituições.

Dos detentores atuais de cargos políticos pede-se-lhes apenas uma coisa. Que sejam leais para com aqueles que neles votaram. E leais significa que as pessoas que neles votaram, os acionistas do Estado, os donos da CGD, têm o direito e o dever de saber tudo o que deu origem ao problema, tenha isso as consequências que tiver. Com essa informação, resolveremos o conjunto das consequências como sempre resolvemos nos 900 anos que nos precederam. Mas ser-nos sonegada essa informação tem que ser criminalizado. Devemos isso a cada criança que tem que andar 1 hora de transportes para ir à escola, a cada idoso que tem que acordar às 5 da manhã para ter a consulta, a cada um de nós. Não se sonega informação, isso não se faz. Eu sou o dono daquele banco, é-me devida a informação, e as tentativas de obstruir o conhecimento devem ser inventariadas e devem ser levadas à justiça. Política é para outras coisas.

PhD em Física, Co-Fundador e Partner da Closer