Férias

Ir longe: subsídios para uma análise inútil às férias de Verão /premium

Autor
713

A crónica pediu férias do dr. Costa, do prof. Marcelo, da dona Catarina do alojamento local, dos comunistas festivos, da oposição muda e, em suma, de um país que, contado ou visto, não se acredita.

Algures no caminho, as férias perderam o significado original: a interrupção prevista e regulamentada do trabalho. Em princípio, a dispensa do expediente bastaria para legitimar o conceito. O indivíduo entraria de férias no momento em que, provisoriamente, deixasse de aparecer no emprego sem risco de despedimento por justa causa ou obrigação de “baixa” médica. O modo de ocupação desse período deveria ser irrelevante. Ainda que torrasse as manhãs a dormir, as tardes a sublinhar “A Bola” e as noites a contemplar anúncios de aparelhos para a surdez na CMTV e na TVI, o indivíduo cumpriria os critérios que definem as férias e, na altura devida, regressaria à labuta com a sensação do lazer cumprido.

Sucede que não é assim. O consumismo contemporâneo, que os sacerdotes da esquerda e do Vaticano justificadamente condenam nos outros, decidiu que as férias só se consagram se o indivíduo for a algum lado. E não chega um lado qualquer. Reunir o agregado e arrastá-lo para quinze dias no T2 de um cunhado na Brandoa pode ser muito lindo (e é), mas não preenche os requisitos. O objectivo é ir longe, se bem que com condições. A primordial é a proximidade ao mar.

Embora uns poucos passem as férias em cidades no “estrangeiro”, de modo a poderem queixar-se dos selvagens que, ao invés deles, andam ali a fazer turismo, o mar comanda a vida da vasta maioria. As caravelas afundaram há séculos, a frota pesqueira foi desmembrada pela CEE e o país nunca cheirou uma medalha olímpica na natação. Não obstante, quem nos tira o mar tira-nos tudo. No que toca às férias, o mar é o equivalente estival dos fins-de-semana invernais na “neve” (uma obsessão que torna estranhíssima a nossa ausência nos campeonatos de esqui). Nos inúmeros inquéritos com que os confrontam, os portugueses não se limitam a gostar do mar: “não conseguem” estar a menos de 7 cm do dito. Não é esclarecido em que se traduziria tal “inconseguimento”. Se, com requintes de crueldade, mantiverem o indivíduo afastado da praia, ele sofre um ataque de pânico? Explode? Inscreve-se no PAN?

Certo é que, como dizia o poeta, há mar e mar, há o Dafundo e há Radhanagar. O gabarito das férias depende da distância entre o mar frequentado e a residência habitual do banhista. A distância ideal ronda os seis mil quilómetros, leia-se locais permeáveis aos adjectivos “exótico” e “paradisíaco” (por razões que percebo perfeitamente, os paraísos medem-se pelo afastamento face a Portugal; sobre o exotismo tenho dúvidas). Caso, por isto (€) ou por aquilo (€), o Havaí ou o Vietname não fiquem à mão, sobram os arquipélagos espanhóis ou Cabo Verde. Caso nem estes dêem jeito (€), há sempre o Algarve.

“O Algarve?”, exclama o interlocutor horrorizado (em geral, eu). “Ah, não é esse Algarve…”, sossega-nos o veraneante com um sorriso de desdém. E de seguida baixa a voz e junta a mão à boca para falar de um recanto “totalmente diferente” das Albufeiras e das Quarteiras do costume, uma Arcádia algarvia ignorada pela ralé e descoberta, presume-se, pelo próprio veraneante, um Serpa Pinto moderno e um felizardo. Ele, e os milhares de criaturas que partilham em segredo semelhante milagre.

Extravagante ou paroquial, após seleccionarmos o destino, importa alcançá-lo. Para quê? Ora essa, para descansar, nadar, comer, beber, ler, conviver, não é? Não é? Ou não é? É. E não é. Explico. Na Antiguidade Clássica, i.e., antes da invenção das “redes sociais”, as pessoas, coitadas, viam-se obrigadas por falta de alternativa a cometer de facto as actividades acima referidas. Hoje, o suplício acabou e as actividades são meramente instrumentais. As pessoas descansam, nadam, comem, bebem, etc. apenas o suficiente para fotografar tão grandiosos eventos, publicar as fotografias no Facebook, no Instagram e Noquecalha e provar aos amigos (força de expressão) o muito que descansam, nadam, comem, bebem, etc. Limitar o tempo perdido em disparates permite dedicar o tempo ganho à manipulação do telemóvel, a trocar figurinhas no campeonato da felicidade de que todos saem vencedores.

É aqui que um destino remoto é fundamental. Um “post” no Facebook ilustrado pelo retrato da família a trucidar sardinhas no quintal do cunhado não suscita mais de doze “likes”, nove de pena, dois da família e um de inveja, este a cargo do desgraçado que nem da Brandoa pôde desfrutar. Imagens de termómetros, tremoços, pés e criancinhas também não favorecem a aura cosmopolita. Impõe-se, pois, a identificação geográfica da “selfie”, a qual, no meio da esplanada, dos cocktails e do sushi e do livro (a escolher), convém incluir um cartaz toponímico das Maldivas, uma enseada típica de Barbados ou, em desespero, um ex-libris algarvio, por exemplo o inglês bêbedo ou o arquitecto cego.

O assunto vem a propósito de quê? De nada. Acontece que a crónica pediu férias do dr. Costa, do prof. Marcelo, da dona Catarina do alojamento local, dos comunistas festivos, da oposição muda e, em suma, de um país que, contado ou visto, não se acredita. E eu dei-lhe férias. Em Outubro, espero, a crónica retribuirá a generosidade.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

Quatro notícias obscuras /premium

Alberto Gonçalves
1.083

Aliás, podem fazer o que quiserem: esta não é apenas a geração mais informada de sempre, mas a mais ridícula. Se este é que é o tal “mundo melhor” das lengalengas, fiquem com ele.

Transportes Públicos

Os dias das mentiras /premium

Alberto Gonçalves
1.490

Em meras 3 horas e pouco António Costa percorreu 73 quilómetros, proeza notável nos idos de 1850. Ou, nos centros urbanos portugueses, em 31 de Março de 2019. Não fazia ideia do atraso em que vivemos.

Férias

Considerações estivais (2) /premium

Maria João Avillez

Apesar dos “assim nunca mais” e outros queixumes há a lucidez de perceber o dom que temos: uma família, a felicidade de a unirmos, a sorte de lhe poder abrir as portas. Sem limite de tempo ou albergue

Páscoa

O testamento de Jesus Cristo /premium

P. Gonçalo Portocarrero de Almada

Deixo à Igreja o meu coração (...) que é fonte inesgotável de perdão e graça para quantos, absolvidos dos seus pecados pelo sacramento da penitência, me recebem no santíssimo sacramento da Eucaristia.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)