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Islamismo

Islão, a tragédia que novas cruzadas facilitaram, suscitaram ou agravaram e o que se deve aprender com isso

Autor
  • Guilherme Valente

As novas cruzadas do Ocidente, encorajando, suscitando ou mesmo armando Primaveras «Árabes» precoces, reabriram o caminho do poder ao islamismo, originando a destruição e o sofrimento que se vêem.

“Não podemos enfiar-lhes democracia pela goela abaixo.”
Personagem da série de televisão «Segurança Nacional»

1. O desfecho da Primavera Árabe era mais do que previsível. A democracia não é possível em sociedades com tão baixos níveis de instrução e de pobreza e com uma religião como a islâmica. Por agora não há alternativa nesses países: ou um poder autocrático forte ou o caos seguido do domínio do extremismo religioso.

Só um poder laico nacionalista e progressista forte poderá criar condições que conduzam à democracia.

Atente-se no caso da Turquia, com as diferenças regionais e sociais que caracterizam o seu território e sociedade. Tantos anos depois do estabelecimento do Estado laico, a Turquia não parece estar garantidamente a salvo de uma reemergência do islamismo.

No Egipto correu-se o risco mais dramático. Porque no Egipto joga-se o destino do Médio Oriente, quiçá o do mundo. O Egipto é a fronteira do terror islamista.

Se o Ocidente, no interesse da paz no mundo, quisesse colocar os ideais acima dos interesses, o que deveria fazer era construir parcerias estratégicas com esses Estados, que associassem o seu apoio a reformas económicas, educativas, políticas, sociais, com forte exigência no domínio da inclusão das minorias e da construção progressiva do Estado de direito. E é isto que terá agora de acontecer.

Repare-se no exemplo sírio, tão cabal que parece ter sido criado em laboratório para verificar esta tese. À Síria tinha um índice de analfabetismo muito reduzido e o PIB a crescer anualmente na ordem dos 5,5%… até à eclosão do EI. Um caminho que a intervenção dos EU e da Europa travou. Era preciso deixar que esse regime laicizante e religiosamente inclusivo prosseguisse, apoiando, ao contrário do que foi feito, o seu avanço para um estado de direito.

Os factos estão a provar o que previ em artigo anterior no Observador. A guerra, que deve ser do mundo, contra o Estado Islâmico, legitimada pelos assumidos ataques terroristas contra vários países, já está a ser conduzida pela França em entendimento com a Rússia e os Curdos (cujo problema urge resolver) e terá de contar com Assad, por mais detestável que este seja. Como escreveu lucidamente Franz-Olivier Giesbert, “Churchill também pactuou com o diabo, isto é, Estaline, para acabar com Hitler”.

Essa necessidade prova o erro da intervenção na Síria, tenha essa intervenção sido determinada, como foi, pelos interesses económicos, energéticos e estratégicos do costume, quer tenha sido alimentada, como também foi, por esse espírito de cruzada evangelizadora que, algo infantilmente, continua muito particularmente a caracterizar a cultura e a política externa dos EU.

Conhece-se a história recente do mundo muçulmano, a prodigiosa edificação de um Estado laico na Turquia, os progressos laicizantes noutros Estados e a forte reacção a esses progressos conseguidos no último século. Um conjunto de movimentos islamitas partilha o objectivo de desfazer essas mudanças frágeis, abolir os códigos legais importados do Ocidente, banir os comportamentos sociais que os acompanharam, impondo o regresso a uma ordem política islâmica, à lei sagrada, à Sharia, que está, de facto, inscrita no Islão. Como notou Bernard Lewis num livro admirável (O Islão e o Ocidente – O que Correu Mal?), mesmo o nacionalismo e o patriotismo, que foram geralmente sendo aceites, voltaram a ser questionados como anti-islâmicos.

Movimentos islamitas que foram apoiados pela intervenção ocidental, dos Estados Unidos, então motivada pelo receio da deslocação desses regimes laicizantes e modernizadores para a órbita soviética.

Movimentos e domínio integristas que começaram no Afeganistão, no Irão e no Sudão, e, antes ainda, na Indonésia de Sukarno. É preciso ignorância, ou muito retorcido contorcionismo intelectual, para não se reconhecer que a acção desses movimentos e o seu domínio foram facilitados ou frequentemente induzidos e armados por intervenções ocidentais, servindo vários interesses.

2. Houve, nos últimos séculos, alguma sociedade islâmica sem um poder político forte, sem um ditador mais ou menos moderado, que não tenha tombado para o islamismo, a Sharia, a Jihad, com todo o seu cortejo de barbárie? Não houve.

Atatürk, num outro contexto internacional, conseguiu o que parece hoje inimaginável: construir um Estado laico, modernizar a Turquia, legando ao futuro uma massa crítica esclarecida e um Islão reformado. Mas teria Atatürk conseguido realizar hoje, sob o embate das novas intervenções do Ocidente, o que então foi capaz de realizar? E resistirão o Estado laico e o Islão reformado na Turquia, resistirá a massa crítica, entretanto surgida, ao que parecem ser propósitos e sinais de reemergência do islamismo? O desmantelamento habilmente conduzido dos mecanismos e disposições que garantiam a continuidade do regime (designadamente a decapitação das chefias militares progressistas), encorajado, aliás, por exigências da União Europeia, justifica grandes preocupações relativamente aos desígnios de Erdogan.

A relação impõe-se. Ontem, era a «verdade» de uma falseada mensagem «cristã». Hoje, a «verdade» do milagre de um modelo político que levaria a felicidade imediata aos que a ele se convertessem, aonde quer que fosse adoptado. Modelo laico, mas sacralizado. Modelo que é realmente inestimável, mas que no nosso tempo tão diferente revela, aliás, cada vez mais gritantes e dramáticas disfunções. Disfunções que o próprio Churchill, chamando-lhe o menos mau de todos os regimes, já previra.

Nasser, Anwar Sadatt e Mubarak, no Egipto, Saddam Hussein, no Iraque, Assad, na Síria, enfrentaram o islamismo, modernizando os seus países (tanto quanto podiam?). Bourguiba ocidentalizou a Tunísia que foi, agora, capaz de travar a chegada ao poder do islamismo com a Primavera Árabe.

Mas as novas cruzadas do Ocidente, encorajando, suscitando ou mesmo armando Primaveras «Árabes» precoces, reabriram o caminho do poder ao islamismo, originando a destruição que se vê, que lançou no mais atroz sofrimento milhões de seres humanos, conduzindo à tragédia que cai agora em cima do mundo todo. A intervenção no Iraque só pode ser vista hoje como uma monstruosidade. E porque não é enfrentado o ovo, o exemplo, o financiador do mais sinistro radicalismo islâmico, a Arábia Saudita?

E o que poderia ter acontecido na China (e no mundo…) com as irresponsáveis, quase infantis, tentativas sucessivas dos Estados Unidos de promover a «democratização» naquele país? Democratização já, mesmo destruindo, como seguramente se verificaria, o que foi conquistado pelo «milagre» económico, social e político chinês (reformas também políticas, como nunca houve tantas em tão pouco tempo em nenhum país do mundo). Mesmo sabendo-se que essas intervenções, se tivessem sucesso, isto é, se a China não fosse o que é, provocariam uma tragédia humana, financeira, económica, social de dimensões inimagináveis, desencadeando no mundo numa catástrofe de dimensões apocalípticas. Admirável e contraditória América.

A mudança precisa de tempo, tem a sua velocidade própria. O objectivo é impor um modelo, mais poroso ao jogo dos interesses próprios, ou promover, de facto o progresso dos povos e das nações?

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