Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Pensei que, neste mundo, já não existissem pessoas que ainda acreditem em “contos de fadas” como “Anita na China socialista” ou “Anita é recebida por Kim Jong-um”, mas o jornal “Avante”, órgão do Comité Central do Partido Comunista Português, publica, por vezes, artigos que, como diziam os bolcheviques soviéticos, “tornam os contos realidade”.

Num artigo aí publicado a propósito dos acontecimentos de Tiananmen, quando as autoridades comunistas, há 30 anos, esmagaram sem dó nem piedade manifestações de estudantes que protestavam contra a ditadura comunista e pela democracia, o autor anónimo expressa toda a sua indignação pela actual “campanha” e “pressão sobre a China” que têm como objectivo “a sua transição para o capitalismo (que propositadamente confundem com “democracia”)”.

Não sei o que impressiona mais nesta tirada demagógica. Num mundo tão informado, afirmações dessas são exemplos gritantes de ignorância crassa ou encobrem interesses pouco transparentes.

O PCP ainda não deu conta que a República Popular da China é um país com uma economia capitalista selvagem, mesmo que dirigido por um partido irmão que matou milhões de chineses desde 1949 em nome do comunismo?

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A posição do Partido Comunista Português só pode ser explicada se essa formação política leva a sério, como máxima ideológica, aquilo que na União Soviética não passava de uma genial anedota:

“– Qual a diferença entre o capitalismo e o socialismo? – pergunta o professor ao aluno.

– O capitalismo é a exploração do homem pelo homem – responde o aluno com plena convicção.

– E o socialismo [claro que se tinha em vista o soviético] ? – continua o professor.

– É exactamente o contrário – responde o aluno”.

Para os que confundem capitalismo com democracia, como se escreve no texto, efectivamente a China seria um dos países mais democráticos do mundo. Mas como para os comunistas tal equação está errada em relação a esse país, que regime impera no Império do Centro? O socialismo ou o comunismo democrático e popular? Ou estamos perante mais uma criação ideológica híbrida que os comunistas portugueses inventaram para explicar algo inexplicável?

Os clássicos do marxismo-leninismo-estalinismo-maoismo devem andar a dar às voltas nos caixões ou nos mausoléus devido ao equilibrismo programático dos comunistas portugueses.

O que mudou na China após a queda da União Soviética em 1991 para que os dirigentes do PCP mudassem bruscamente de orientação? Não se conseguem sentir órfãos, não conseguem orientar-se sem faróis? Ou haverá outros interesses? Na era soviética, pelo menos recebiam em troca uma séria ajuda financeira e não olhavam ao facto de ser em dólares norte-americanos, o símbolo máximo do imperialismo.

Claro que os ideólogos comunistas não podiam perder a oportunidade de juntar no mesmo saco a tragédia de Tiannamen e a actual “guerra comercial” entre a China e os Estados Unidos e, para isso, encontrar uma extraordinária explicação: tentativas de obrigar Pequim a desviar-se para o capitalismo. Poderiam encontrar explicações mais inteligentes, pois há muito que os dirigentes chineses já se desviaram e, com eles, o Partido Comunista Chinês, que se transforma cada vez mais num clube de milionários.

Não me estranha o facto de o PCP estar a perder eleitorado, tal é a confusão ideológica que vai no interior dessa força política. Nota-se claramente que o partido já não tem renovação possível.

E por aqui me fico, pois receio que me acusem de estar a desviar o capitalismo e não quero que a Festa do Avante deixe de ser uma festa “comunista” e grátis, e passe a dar lucro.