A questão não é saber se a segunda vaga, vai acontecer? Vai. A questão é saber quando e por quanto tempo. Enquanto não houver imunidade de grupo seguir-se-ão outras ondas de infeção. Logo, debater a possibilidade do SARS-CoV-2 não ser erradicado é um absurdo. Não vai. Quanto muito poder-se-á debelar um surto ou uma epidemia. Uma zoonose não se erradica. O mais provável é que se continue a assistir a fluxos “migratórios” entre reservatórios de espécies diferentes como acontece com a maioria panóplia de agentes microbiológicos.

Há dados interessantes que mostram a persistência de vírus em pessoas com e sem sintomas da Covid-19. Poderá haver um fenómeno de colonização generalizada da espécie humana que permitirá chegarmos a um ponto, como acontece com os vírus herpes, em que a maioria da população mundial esteja infetada e só os imunocomprometidos, incluindo os idosos, tenham risco de vida com reativações. Uma coisa é certa. O SARS-CoV-2, como aconteceu com outros coronavírus patogénicos, está bem adaptado a persistir em humanos. O mecanismo de colonização pode não passar por inserção de genoma e já se sugeriu  que no caso do SARS-CoV-2 possa haver um estado de replicação estável, sem lise celular, no epitélio das fossas nasais. O SARS-CoV-2 está instalado nos humanos.

A resposta às primeiras infecções foi toda construída na lógica de ganhar tempo. Face à situação precária do SNS em Portugal não havia muito que se pudesse fazer.

As autoridades nacionais de saúde reagiram tarde e com atabalhoamento inicial, a que se seguiram medidas que mitigaram, no campo das possibilidades existentes, a propagação da epidemia. Portugal não foi melhor, nem pior, do que a maioria dos outros Países. Os ajustes estatísticos à dimensão e composição etária da população mostram isso. Concordo que os dados mostram sucesso nas premissas de “desacelerar a transmissão da infeção e manter capacidade do sistema de saúde”, nas palavras da senhora ministra da saúde.

Chegados aqui, “o maior inimigo que enfrentamos não é o vírus, é o medo”, também disse a Dra. Marta Temido. Eu diria que ainda temos os dois inimigos mortais, nenhum mais do que o outro. O primeiro, apesar de ter uma taxa de letalidade baixa, já matou direta e indiretamente umas largas centenas de milhares de pessoas. Estou muito mais preocupado com a mortalidade indireta do que com a letalidade por doença viral. O efeito devastador sobre a economia que o confinamento teve, a nível mundial, foi e será muito mais mortal do que a Covid-19. O medo ajudou a que a população aceitasse uma intrusão do Estado nas suas vidas que de outra forma não teria acatado. Mas o medo tolhe e as palavras da senhora ministra revelam o medo que ela sente face à incerteza da nossa preparação. Aguentámos à primeira, apesar de consequências sanitárias que ainda estão para ser contabilizadas. Vamos ver como suportaremos as vagas seguintes.

Não é possível voltar aos níveis de confinamento e suspensão da actividade económica que se viveram em março e abril de 2020. Não há como recuar para níveis de confinamento iguais aos já vividos. As restrições que ainda hoje se vivem no mundo do espectáculo, nas viagens, no comércio e na restauração estão a acabar de “matar” os agentes económicos e empresariais sobreviventes. Não discuto a sua necessidade, embora haja claros exageros. Apenas constato a realidade. O “desconfinamento” é inevitável e deverá ser rapidamente total para bem de nós todos. Iremos viver com mais cuidado e protegidos, haverá mais teletrabalho, mas o convívio familiar, social, cultural e laboral tem de regressar. A partir de agora, para não agravar o estado de saúde da população, será preciso viver e morrer com a Covid-19, para que não se continue a morrer mais das outras coisas.

A pobreza é o mais grave causador de má saúde. Está na origem de quase todos os outros determinantes conhecidos. Como resultado das medidas sanitárias de quarentena generalizada que nos foram impostas, a pobreza está em níveis que nem no tempo da Tróika se viveram. A pobreza mata mais do que a Covid-19 alguma vez poderá matar. Mata por fome, por falta de acesso a condições higio-sanitárias básicas, por incapacidade de obter cuidados médicos, por perpetuar a ignorância e até por confinar, isso mesmo, confinar os pobres a ciclos de vergonha e abandono de que não conseguem sair sozinhos.

Encontramo-nos num ponto em que os novos casos detetados são cerca de 200 em cada semana, teimosamente estáveis e demonstrativos da persistência do vírus em circulação. Estamos preparados para os ciclos de propagação que aí virão? Sim e não.

Sim, porque:

  1. A população está mais consciente do seu papel na prevenção da transmissão de doenças infeciosas. Não tendo apenas que ver com a transmissão do SARS-CoV-2, interessará perceber se a interiorização de medidas de higiene básica, como lavar as mãos, não irá contribuir para algum maior controlo de outras infeções. A verdade é que, passadas as pandemias de gripe regressou-se sempre a alguma reinstituição da porcaria. Tenhamos esperança que desta vez seja diferente. Desinfetar superfícies também é bom e as infecções não são só por coronavírus.
  2. Finalmente reconheceu-se o papel das máscaras usadas por toda a população em situações de maior aglomeração. Acima de tudo, passada a fase de desnorte inicial, as autoridades já podem reconhecer o óbvio que sempre souberam. Já há máscaras e desinfectantes suficientes para todos, logo são úteis. E as pessoas usam! Um êxito nunca conseguido com a distribuição gratuita de preservativos. A população, a mais jovem em particular, deixou de acreditar que o HIV é mortal. É muito mais mortal do que o SARS-CoV-2!
  3. A Covid-19 poderá ter sido uma oportunidade para nos protegermos melhor da gripe. Quero acreditar que a vacinação para a gripe sazonal 2020-21 terá maior adesão do que em anos anteriores. Não poderá haver falhas no acesso atempado à vacina anti-gripal.
  4. Comprou-se algum material, o possível e disponível no mercado, sem olhar a custos. Teve que ser. Não é altura para estar a discutir os ajustes diretos. Li notícias de que até chegaram máscaras sem a certificação exigida na UE. Seria inevitável que os chineses fizessem dumping de tudo e mais alguma coisa. Terão vendido testes de má qualidade aos espanhóis e mandaram-nos ventiladores mecânicos com sinalização em mandarim. Pela minha parte, com a experiência repetida de comprar guarda chuvas em lojas sínicas, não me admiro. Mas era o que havia. Ao menos que não se pague se não vier em conformidade.
  5. Testou-se para SARS-CoV-2 numa grande quantidade de pessoas. Não se começou bem, testando poucos e só na sequência de um processo de autorizações estultas. Alargou-se progressivamente a mais indivíduos e chegou-se a um número de testes que serve propósitos epidemiológicos.
  6. Ensaiou-se alguma generalização de telemedicina.
  7. Os enfermeiros ganharam relevância. Não os desperdicem.
  8. Há mais informação, embora nem sempre a mais necessária.

Não, porque:

  1. Os casos vão continuar a aumentar. Não sabemos com que ritmo mas assim terá de ser até conseguirmos vacinar uma parte da população. Que parte? Ainda terá de ser decidido. Dependerá do momento em que a vacina estiver disponível, da identificação de risco epidemiológico e do número de unidades de vacina disponíveis.

Até lá…

  1. A capacidade de internamento do SNS não melhorou. Houve realocação de camas, com sacrifício de umas para que se pudesse ter outras dedicadas a casos de Covid-19. Há dias li que “especialistas criam travão de emergência para voltar atrás. Quatro mil internamentos é o limite do SNS”. Dias antes eram “1200 internamentos”. Seja o que for, a verdade é que se nos confrontarmos com um pico epidémico de elevada grandeza, não haverá milagres.
  2. Havendo necessidade de recuperar actividade “normal” não estou nada tranquilo. O governo aceita que possa ter havido um milhão de consultas a menos nos últimos dois a três meses. Os doentes que tiveram cuidados adiados poderão estar mais doentes do que estavam há 3 meses. Logo, a pressão de procura de cuidados vai ser quantitativamente maior e qualitativamente mais severa.
  3. Ainda não ganhámos capacidade de acompanhamento domiciliário em larga escala. Estou certo que começámos por internar demasiados casos de Covid-19. Todavia, internar com mais critério vai exigir uma organização de capacidade de resposta hospitalar de emergência e de transporte de doentes que continua muito deficitária.
  4. Temos mais ventiladores, 35% disseram-nos. É melhor do que era. Os chineses mandam os 550 que ainda faltam quando? Vão ter manutenção e assistência assegurada?
  5. Teremos quase 3000 camas de cuidados intensivos. Mas ainda é longe das 11,5 / 100.000 habitantes da média europeia. Mais uma vez, é melhor do que já foi, mas ainda é pouco para as necessidades nacionais basais, sem Covid-19. Esperemos que a sinistralidade rodoviária não aumente.
  6. Os chamados “hospitais de campanha” que se vão mantendo não são hospitais. São dormitórios públicos. Volto a escrevê-lo. Serviram para autarcas mostrarem obra. Não servirão para tratar doentes. Albergarão os sem abrigo que lá quiserem ir. Não são solução para uma segunda vaga da Covid-19, nem servirão sequer para meter os idosos dos lares.
  7. Não houve acordo com os sectores prestadores não estatais. Erro! Desperdiçaram a oportunidade. Seja pela Covid-9 ou para a solução de listas de espera, o SNS é insuficiente e o Estado tem de usar todo o sistema de saúde.
  8. Começaram a “campanha de testes sistemáticos” em lares em finais de março. Os testes no Alentejo ainda estavam por terminar em 1 de maio. Manifestamente, não há capacidade de testar de forma rápida largos sectores da população. Já há estratégia? Quando vai começar a 2ª ronda de testes? Com que periodicidade vão ser repetidos os teste e em quem? As autoridades de saúde ainda não acertaram com o que se deve fazer em termos de testes para efeitos de decisão clínica. Em termos de conhecimento epidemiológico, ir testando por aí pode ser pode ser útil, em especial se cotejarmos os resultados com os testes serológicos que já vão sendo feitos. Em termos clínicos tenho dúvidas que se ganhe muito, em fase de transmissão comunitária descontrolada, com testes a pessoas que não tenham sintomas sugestivos de risco para doença respiratória grave.
  9. O pessoal de saúde poderá estar tentado a diminuir o seu nível de protecção individual. Não deve fazê-lo. Todos devemos continuar a trabalhar protegidos e assumir que qualquer pessoa pode ser fonte de contágio. Tudo indica que há enorme probabilidade de transmissão em fase prepatogénica e será impossível testar sistemática e repetidamente toda a população. Logo, o que se tem de manter nas urgências hospitalares, idealmente no ano todo e para sempre, é a possibilidade de doentes febris ou com sintomas respiratórios poderem estar separados dos outros em zonas de espera confortáveis, não em barracas a que resolveram chamar “covidários”. Mas imaginar que será possível segregar todos infetados com o SARS-Cov-2 da restante população que procure cuidados de saúde é fantasioso e até perigoso.

Sobre máscaras, um conselho final. A questão da “nuvem” é controversa, bem sei, mas se na Assembleia da República é para usar máscara, então, não a tirem para discursar. É deseducativo e não serve os propósitos preventivos que sustentaram a decisão dos deputados.  E não se esqueçam de colocar as máscaras convenientemente. Não chega tapar a boca. Respira-se com as narinas e os vírusitos metem-se em todo o lado.