Há um ano as perspectivas económicas para Portugal e para o euro eram melhores. Apesar da crise na China. Entretanto tudo aconteceu. No Reino Unido, em Angola, no Brasil e por cá, em Portugal. A conjuntura económica e política recomenda prudência. Nas previsões, nas políticas e na política e na gestão da nossa vida. Quem nos diria que no Verão de 2016 estaríamos a enfrentar uma enorme gritaria sobre a banca e a assistir a uma economia que dá sinais de estar em mergulho, apesar de funcionários públicos e pensionistas terem mais dinheiro no bolso?

Vamos a factos, com alguns indicadores e estatísticas em Portugal e na União Europeia. Comecemos pelos mais recentes acontecimentos.

A decisão dos eleitores do Reino Unido, de sair da União Europeia, lançou o país e o resto da Europa num mar de incerteza que está a ditar uma elevada instabilidade nos mercados financeiros. A libra atingiu o valor mais baixo em 31 anos, três fundos de investimento imobiliário britânicos suspenderam os seus pagamentos e as bolsas caem, castigando especialmente o sector bancário. Há sintomas que nos fazem recordar os anos de 2007 e 2008 que nos trouxeram até aqui.

As regras contabilísticas, que nasceram especialmente como resposta à crise financeira, criam condições para ampliar os efeitos das desvalorizações bolsistas nos bancos. O que significa que se os bancos da Europa já estavam com problemas, por causa de erros passados, de uma crise económica que não desparece e de taxas de juro negativas, enfrentam agora mais um desafio, o de ultrapassarem este abalo do Brexit.

Itália Alemanha e Portugal são os países que parecem enfrentar maiores problemas com a sua banca. Os italianos estão a tentar um intrincado modelo que envolve um banco mau, dinheiro do Estado e responsabilidades dos bancos do sistema. A Alemanha, como tem uma situação financeira bastante folgada, resolverá facilmente o seu problema com o Deutsche Bank. Portugal, pelo contrário, com o dinheiro que não tem, envolveu-se num labirinto de debates não se sabendo exactamente se há um problema para além das necessidades de capital da CGD que, como disse o Presidente da República, todos já sabiam que existia.

Há um ano não era essa a perspectiva que se tinha. Mentiram? Todos também sabem que não houve mentiras nem desvios inustificados. Os problemas que estamos a enfrentar na banca são uma combinação de mudanças sucessivas de regras contabilísticas e de uma economia europeia e portuguesa que não arranca para o crescimento.

A economia portuguesa, reflexo do que se passa no resto da Europa mas, temos de reconhecer, também da inflexão das políticas económicas realizada por este Governo, está de novo a dar fortes e continuados sinais de queda.

O indicador coincidente do Banco de Portugal, que antecipa a evolução da economia, está a diminuir desde Novembro do ano passado e em Maio indica que existiu uma queda na actividade económica. A informação qualitativa aponta para a quebra ou estabilização. É o caso do inquérito de conjuntura às empresas e aos consumidores de Junho. “O indicador de confiança dos consumidores diminuiu em Junho, após ter aumentado no mês anterior, interrompendo a tendência ascendente observada desde o início de 2013”, diz o INE logo no primeiro parágrafo. Na indústria transformadora verifica-se uma estabilização e os principais obstáculos à expansão da actividade é a falta de procura. (Vale a pena verificar que o crédito é o quarto problema identificado, com um peso muito baixo, o que contradiz a mensagem política de que é preciso capitalizar a CGD também por causa do financiamento à economia).

O emprego está a ser, até agora, o que evolui de forma mais positiva, de acordo com os dados do primeiro trimestre. Mas como o emprego, tendo em contas as regularidades do passado, leva seis a nove meses a reagir a alterações na economia, teremos de esperar para ver o que aconteceu no segundo trimestre.

Claro que esta nova tendência de mergulho da economia é um reflexo de uma dinâmica mais lenta da Zona Euro e dos abalos que estão a sofrer economias que foram âncoras de crescimento, como Angola e Brasil. Mas, em contrapartida, temos a Espanha já mais robusta (cresceu 3,4% no primeiro trimestre face a igual período do ano anterior) e beneficiamos de uma evolução historicamente elevada no turismo. Ou seja, temos choques negativos mas também positivos.

O quadro que traçam os indicadores qualitativos e quantitativos, assim como a incerteza gerada pela perspectiva de saída do Reino Unido da UE, recomendam prudência em todas as frentes. O que em si pode alimentar um reforço da tendência de queda da actividade económica mas que, a prazo, significa estar melhor. Se o pior dos cenários se confirmar estaremos prevenidos.

A mesma prudência é especialmente necessária na classe política que dirige o país ou que está na oposição. Na conjuntura que enfrentamos temos algumas oportunidades, como a de ser um país que atrai investimento estrangeiro como atraiu turistas e que consegue aproveitar, o mínimo que seja, os efeitos de deslocalização de empresas que a infeliz decisão do Reino Unido vai gerar.

A fragilidade da coligação que governa o país é o único factor que está a impedir uma governação que dá prioridade à prosperidade. Temos estado em campanha eleitoral e assim vamos continuar. O que significa reforçar ganhos de curto prazo que vamos perder no prazo de um ano se não existir uma surpresa muito positiva.

Este ano estamos pior que o ano passado, sem o sentirmos. Para o ano, quando estivermos de novo a debater o Estado da Nação, corremos o sério risco de estar bastante pior. E aí sem qualquer ilusão mas com efeitos sérios nos nossos bolsos, nas nossas vidas.