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O país chamado Portugal algures em 1998: uma exposição universal coroada de sucesso. Um prémio Nobel. E as estrelas da companhia, cintilantes: alguns bancos respeitados e indiscutíveis, empresas de referência, políticos portadores de esperança como Guterres, Lucas Pires, Rebelo de Sousa, Portas; um ministro da Cultura que era notícia lá fora pela sua condição de governante e filósofo; uma economia com capacidade de financiamento, grupos económicos privatizados e em recomposição; uma dimensão tecnológica de que o multibanco era o orgulhoso cavaleiro e a via verde, criada pela Universidade de Aveiro, o fiel escudeiro; empresas públicas sólidas e prestigiadas, sectores públicos de referência na justiça, na segurança interna, na educação, profissionais íntegros e competentes, magistrados, polícias, professores. E no futebol, eterna estrela do reconhecimento internacional, a equipa de todos nós marcava presença regular nos grandes torneios internacionais.

Esse foi o ano em que o país, elevando-se das profundezas do cepticismo europeu, ganhou a condição de futuro membro do restrito clube do euro. Os felizes contemplados iriam partilhar uma moeda destinada a substituir o dólar na cena internacional.

Há em 1998 um episódio que é o epítoma da forma como os portugueses, depois de anos de ostracismo e instabilidade, viram afirmar-se uma identidade que redescobria os seus maiores e neles se revia com orgulho e deleite. Refiro-me ao programa “Bouillon de Culture” sobre Portugal, magazine cultural de Bernard Pivot com grande impacto em França, em que participaram portugueses como Eduardo Lourenço, Manoel de Oliveira, Lídia Jorge e… Manuel Maria Carrilho. Em destaque um país de cultura e realizações, o Portugal que revelou ao Mundo através do seu poeta maior o mal-estar existencial do homem moderno, na sua condição singular de ser múltiplo, como explicou Eduardo Lourenço.

No programa participou também Fernando Mascarenhas, em cujo palácio foi filmada a emissão. Mascarenhas, marquês de Fronteira, morreu há dias. O país em que morreu, esse Portugal de sucesso e futuro vislumbrado em 1998, vive 16 anos depois o espectro de uma crise que se sabe como e quando começou mas ninguém imagina quando terminará. O New York Times publicou recentemente uma reportagem sobre Portugal: “eles não vivem, eles sobrevivem”. Os pobres de um país pobre. É essa a nossa nova imagem, uma velha imagem.

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Em 16 anos, uma após outra, apagaram-se as estrelas cintilantes daqueles tempos de esperança e orgulho: Carrilho, o jovem e talentoso ministro-filósofo, afundou-se na amargura da proscrição, com a imagem arruinada; uma após outra, encolheram e faliram as referências da economia nacional, sendo o BES o mais gritante e impensável exemplo; os políticos são cada vez menos respeitados; a economia portuguesa, descapitalizada, depende exclusivamente do exterior para o investimento e a criação de riqueza, em particular dos fundos europeus; os centros de decisão nacionais são hoje angolanos ou chineses e as velhas referências do nosso orgulho, da PT ao Novo Banco (o BES bom), passando pela TAP, buscam desesperadamente compradores a pataco; e até os servidores da causa pública, magistrados, altos dirigentes, professores, se tornaram suspeitos ou são criticados. Já da partilha da moeda comum, o euro, mais vai de amargura que de sucesso. Sobra o futebol, perdão, sobra Ronaldo, que em breve também, sujeito à inexorável lei do tempo, “arrumará as botas” e passará a ser uma saudade (enquanto futebolista, claro).

O que nos sucedeu?

Nada de inesperado, ou de novo. A história pátria está cheia destes períodos de retrocesso; país de luz e sombras, capaz do melhor e do pior, de grandes cometimentos e grandes falhanços, o problema de Portugal resume-se numa palavra: competitividade. Foi sempre assim. Aos períodos de fausto, das especiarias de quatrocentos ao ouro de minas em setecentos, das matérias-primas das colónias aos fundos estruturais da adesão à CEE, seguiram-se quase sempre longos anos de depressão e retrocesso, dos filipes ao Marquês, do Estado Novo à crise da dívida soberana. Somos assim e provavelmente sê-lo-emos sempre.

A pergunta que se segue não devia pois ser o que nos sucedeu – mas o que fazer?

Há muito que fazer. Os sucessos ensinam-nos que somos capazes; os fracassos, que facilmente navegamos na doce ilusão de que nada vai mudar e de que somos tão bons, mas tão bons, que, quedando-nos no fruir do doce fruto dos nossos feitos, colhendo a abundância que esquecemos efémera, o sucesso durará para sempre; como se outros não quisessem o mesmo e não nos interpelassem com ambição e inteligência; como se outros, ah, esses também, não quisessem ainda mais riquezas, as nossas, sempre mais, cupidamente, e delas se não apropriassem com ambição e inteligência. E nós, no remanso prazeroso dos encómios de 98, da bem-sucedida adesão europeia, descuidámo-nos e tornámo-nos presas fáceis da capacidade e competitividade, bem como da desonestidade e cupidez alheias.

Sim, fomos ingénuos também. Embora alguém, em consciência, alguma vez tivesse pensado que os golden visa terminassem com demissões ao nível mais alto da administração e a queda do mais político dos ministros do governo? Ou alguém, uma alma que fosse, tivesse descortinado um fim parecido ao do navio almirante da banca portuguesa? Alguém, sinceramente alguém, imaginava os buracos sem fundo que crivam a nossa vida em comum de podridão e desconfiança e nos arrastam para os abismos da insolvência, do desemprego e da miséria? Os roubos de igreja, do BPM, do BCP, do BES? A PT?!

Mudar de paradigma, é a vaga expressão que me ocorre, consciente de se tratar de um chavão. Mas tem de ser. 2015 é um ano crucial. Dar a volta, outra vez. Há gente nova, empresas novas, um novo CREN. Exigir responsabilidade aos responsáveis. Supervisão e regulação, atenção aos abusos, não mais a ingenuidade que mata projectos, vontades e riqueza. Lutar para mudar o sistema político, o que tantas vezes escrevi.

Está nas nossas mãos, como cidadãos. Talvez tenhamos de nos empenhar mais, de participar no debate público, de correr riscos, de dar a cara. Vamos a isso?

Professor da Universidade Católica, Instituto de Estudos Políticos