O seu médico está zangado, mas não é consigo.

Está zangado porque tem apenas 15 minutos para o ver, porque o computador que tem à frente para trabalhar é lento, porque tem que inserir os seus dados em vários programas ao mesmo tempo e nesse mesmo computador, porque não pode prescrever todos os exames que entende perante o seu caso clínico, porque tem limitações à prescrição de medicamentos e porque cada vez menos tem acesso a inovação terapêutica e tecnológica. E podia continuar…

Desde já declaro o meu conflito de interesses: sou médica. Sou médica, mas dedico-me desde há uns anos à tecnologia, e o que observo é que esta ainda não cumpriu o prometido na saúde: tornar os cuidados melhores e mais eficientes. E pior. Não só não cumpriu, como ainda se enche de bazófias – a “inteligência artificial” e as “cirurgias robóticas” – e isto enquanto assistimos paulatinamente à desumanização da medicina.

Não me entenda mal. Sou 100% a favor de relógios que permitem detetar arritmias cardíacas e de sistemas automáticos que ajudam no diagnóstico de cancro e de doenças raras, mas sou ainda mais a favor de tecnologia simples.

Bons exemplos de tecnologia simples e económica, que tem a real capacidade de optimizar e de evitar o erro nos cuidados de saúde, são sistemas automáticos de transcrição de voz, para que o seu médico possa ditar em poucos segundos os dados que precisa de registar no seu processo clínico, ou aplicações móveis onde possa consultar rapidamente a informação de que necessita sem precisar do computador, ou onde possa prescrever os seus medicamentos eficientemente quando o vai visitar ao seu domicílio.

Muito se discute também sobre “big data” e inteligência artificial e as suas aplicações na saúde, frequentemente esquecendo que a medicina é, naturalmente, cheia de incerteza. A medicina não é uma ciência exata. É normal, por exemplo, que o diagnóstico de uma doença rara demore a ser feito, porque têm que se ponderar primeiro doenças mais comuns, com sinais e sintomas idênticos, e fazer exames mais exaustivos.

Lembro que sistemas sofisticados, como o supercomputador Watson da empresa de tecnologia e de sistemas de informação IBM, demoraram anos a entregar aplicações que permitam realmente auxiliar no diagnóstico médico. Isto deve-se não só à tal incerteza inerente à medicina, mas também à necessidade de uma grande quantidade e, sobretudo, de qualidade de dados para alimentar estes sistemas, para que por sua vez estes possam aprender e devolver resultados inteligentes.

Existe ainda uma questão importante ligada à aplicação da inteligência artificial na medicina – é que um médico necessita de entender o “raciocínio” que foi feito pelo algoritmo que está na base do sistema, para que o possa interpretar como correto ou incorreto. E, frequentemente, os algoritmos usados em inteligência artificial tornam-se opacos, impossíveis de compreender. Assim, para um médico, não chega saber que há 90% de probabilidade de determinado diagnóstico – ele precisa de entender porque é que essa probabilidade é tão alta. E ainda se levantam questões éticas, morais e legais…

Então temos, médicos e doentes, que nos preparar para um futuro próximo, em que o médico será mais um gestor de saúde do que um profissional tradicional, que partilhará a responsabilidade dos cuidados de saúde com o doente.

Mas para isso, vai ser preciso entretanto dotar a medicina de duas coisas: a tal tecnologia simples, que mencionei, e, a mais preciosa de todas, de tempo.

Tempo, para que a inteligência natural, de médicos e doentes, possa permitir-lhes estabelecer uma relação sã e duradoura; para que juntos, e com a ajuda da tecnologia, consigam tomar sempre as melhores decisões.

Então, só falta convencer os nossos decisores das mudanças necessárias. Porque médicos, e doentes, já estão de acordo.

Daniela Seixas é médica neurorradiologista, doutorada em neurociências. É professora afiliada da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Concluiu um MBA Executivo na IE Business School e co-fundou a Tonic App, a startup de saúde digital à qual se dedica atualmente como CEO.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.