Rádio Observador

Portuguese Women in Tech

Já reparou? O seu médico está zangado…

Autor
  • Daniela Seixas
1.121

Sou médica, mas dedico-me à tecnologia, e o que observo é que esta ainda não cumpriu o prometido na saúde: tornar os cuidados melhores e mais eficientes. Não só não cumpriu, como se enche de bazófias.

O seu médico está zangado, mas não é consigo.

Está zangado porque tem apenas 15 minutos para o ver, porque o computador que tem à frente para trabalhar é lento, porque tem que inserir os seus dados em vários programas ao mesmo tempo e nesse mesmo computador, porque não pode prescrever todos os exames que entende perante o seu caso clínico, porque tem limitações à prescrição de medicamentos e porque cada vez menos tem acesso a inovação terapêutica e tecnológica. E podia continuar…

Desde já declaro o meu conflito de interesses: sou médica. Sou médica, mas dedico-me desde há uns anos à tecnologia, e o que observo é que esta ainda não cumpriu o prometido na saúde: tornar os cuidados melhores e mais eficientes. E pior. Não só não cumpriu, como ainda se enche de bazófias – a “inteligência artificial” e as “cirurgias robóticas” – e isto enquanto assistimos paulatinamente à desumanização da medicina.

Não me entenda mal. Sou 100% a favor de relógios que permitem detetar arritmias cardíacas e de sistemas automáticos que ajudam no diagnóstico de cancro e de doenças raras, mas sou ainda mais a favor de tecnologia simples.

Bons exemplos de tecnologia simples e económica, que tem a real capacidade de optimizar e de evitar o erro nos cuidados de saúde, são sistemas automáticos de transcrição de voz, para que o seu médico possa ditar em poucos segundos os dados que precisa de registar no seu processo clínico, ou aplicações móveis onde possa consultar rapidamente a informação de que necessita sem precisar do computador, ou onde possa prescrever os seus medicamentos eficientemente quando o vai visitar ao seu domicílio.

Muito se discute também sobre “big data” e inteligência artificial e as suas aplicações na saúde, frequentemente esquecendo que a medicina é, naturalmente, cheia de incerteza. A medicina não é uma ciência exata. É normal, por exemplo, que o diagnóstico de uma doença rara demore a ser feito, porque têm que se ponderar primeiro doenças mais comuns, com sinais e sintomas idênticos, e fazer exames mais exaustivos.

Lembro que sistemas sofisticados, como o supercomputador Watson da empresa de tecnologia e de sistemas de informação IBM, demoraram anos a entregar aplicações que permitam realmente auxiliar no diagnóstico médico. Isto deve-se não só à tal incerteza inerente à medicina, mas também à necessidade de uma grande quantidade e, sobretudo, de qualidade de dados para alimentar estes sistemas, para que por sua vez estes possam aprender e devolver resultados inteligentes.

Existe ainda uma questão importante ligada à aplicação da inteligência artificial na medicina – é que um médico necessita de entender o “raciocínio” que foi feito pelo algoritmo que está na base do sistema, para que o possa interpretar como correto ou incorreto. E, frequentemente, os algoritmos usados em inteligência artificial tornam-se opacos, impossíveis de compreender. Assim, para um médico, não chega saber que há 90% de probabilidade de determinado diagnóstico – ele precisa de entender porque é que essa probabilidade é tão alta. E ainda se levantam questões éticas, morais e legais…

Então temos, médicos e doentes, que nos preparar para um futuro próximo, em que o médico será mais um gestor de saúde do que um profissional tradicional, que partilhará a responsabilidade dos cuidados de saúde com o doente.

Mas para isso, vai ser preciso entretanto dotar a medicina de duas coisas: a tal tecnologia simples, que mencionei, e, a mais preciosa de todas, de tempo.

Tempo, para que a inteligência natural, de médicos e doentes, possa permitir-lhes estabelecer uma relação sã e duradoura; para que juntos, e com a ajuda da tecnologia, consigam tomar sempre as melhores decisões.

Então, só falta convencer os nossos decisores das mudanças necessárias. Porque médicos, e doentes, já estão de acordo.

Daniela Seixas é médica neurorradiologista, doutorada em neurociências. É professora afiliada da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Concluiu um MBA Executivo na IE Business School e co-fundou a Tonic App, a startup de saúde digital à qual se dedica atualmente como CEO.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)