Nunca tínhamos ouvido falar de Arnaud Beltrame até ao momento em que se ofereceu para trocar de posição com os reféns que um jihadista mantinha como escudo humano dentro de um supermercado no sul de França, mas o tenente-coronel da Gendarmerie Nationale Française não era um cidadão desconhecido. Muito pelo contrário.

Arnaud Beltrame, que aparece a sorrir em todas as fotografias, com ar amigável e cara de bom homem, foi a quarta vítima do atentado terrorista perpetrado em Trèbes por um jovem francês de origem marroquina. O oficial da polícia era conhecido e foi até muito reconhecido em vida, pois recebeu a Legião de Honra, a mais alta condecoração de mérito militar atribuída em França, na sequência da sua comissão de serviço no Iraque; chegou a ser conselheiro do Governo e mais recentemente tinha sido nomeado comandante da polícia anti-terrorista de toda a região de Aude, cuja capital é Carcassonne.

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Tudo indica que era um homem notável, lúcido, corajoso e extraordinariamente competente, que dedicou a vida a servir a pátria e a proteger os seus compatriotas, em especial os mais vulneráveis. Nesta lógica e seguramente com este propósito, Arnaud convenceu o sequestrador do Super U, de Trèbes, a libertar todos os reféns e ficou ele próprio duas longas horas sozinho com o terrorista armado, dentro do supermercado.

Consciente de cada um dos passos que deu, Arnaud Beltrame (que tinha 45 anos e ia casar no dia 9 de Junho) sabia que podia morrer. Fez tudo como devia ser e nem o facto de ter sido obrigado a pousar o telemóvel sobre uma mesa o impediu de ter a inteligência e o sangue frio para deixar o aparelho ligado, com uma chamada activa para que os seus colegas pudessem ouvir tudo o que se passava, a fim de se posicionarem para intervir. Não conseguiu evitar a sua própria morte, mas foi graças a ele que muitas outras vidas foram salvas.

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Durante o breve tempo em que esteve internado no hospital, depois de ter sido baleado no pescoço pelo terrorista (que acabou por ser abatido pelos polícias que estavam fora do supermercado e que graças ao telemóvel ligado, entraram antes que ele pudesse fazer mais vítimas), o mundo inteiro ficou a saber a identidade do novo herói nacional francês. Mesmo sem o conhecermos, ficámos a torcer por ele. Para que se salvasse, para que pudesse casar com Marielle, a mulher que amava, para que pudessem ter filhos e ser feliz, espalhando o bem à sua volta, contagiando muitos outros, inspirando-os e deixando ao mundo o seu legado humano e humanizante. O atentado foi na sexta feira e Arnaud acabaria por morrer na madrugada de sábado. A notícia da sua morte consternou todos os que eram por ele.

Eu sou Arnaud e, como eu, há agora muitos milhares de outros. Sou Arnaud justamente por me identificar com os seus valores humanos e reconhecer neste homem, e nos seus actos, a bravura e a coragem necessárias para fazer frente aos extremistas perversos que atentam contra inocentes e espalham o terror no mundo. Ele morreu, mas a sua vida salvou outras vidas e precisamos de exemplos como o de Arnaud Beltrame para reforçar a nossa coragem e a nossa fortaleza interior. Pessoas como Arnaud resgatam em nós a esperança e a certeza de que não está tudo perdido. Fazem-nos acreditar na Humanidade e mais Além.

Em 1941, o polaco Maximiliano Kolbe, padre missionário franciscano, ficou para sempre conhecido quando se voluntariou para morrer em vez de outro homem, no campo de concentração de Auschwitz. Desde então, o seu testemunho e a sua coragem têm dado forças e protecção a muitos outros. Mesmo que nenhum de nós venha a estar em posição de poder dar literalmente a sua vida para salvar as vidas de outros, o testemunho de homens como Maximiliano Kolbe e Arnaud Beltrame fazem-nos pensar que enquanto houver homens e mulheres como eles, com os seus valores e a sua fé inabalável, temos salvação.

Maximiliano Kolbe

Maximiliano Kolbe, que viria a ser canonizado pelo seu compatriota, o Papa João Paulo II, também sabia que ia morrer e que a sua agonia seria um calvário, uma verdadeira via crucis. Tal como Arnaud, deu um passo consciente e livre. Nenhum deles agiu por heroísmo, mas por convicção profunda de que podiam dar a vida para salvar outras vidas. Em Auschwitz tinha havido uma fuga de prisioneiros e, como represália, foram escolhidos 10 presos para serem levados para uma cela subterrânea, privada de luz, água e comida, e ali ficarem até sucumbirem de fome, de sede e de frio. Um dos selecionados gritou “ minha pobre mulher e meus filhos, que não os voltarei a ver!”. Maximiliano ouviu este grito pungente e atravessou o pátio para se oferecer em vez do outro preso. Morreu ao fim de uma longa agonia de 21 dias, mas o seu testemunho de fé e de forças, de humanidade e de generosidade continua vivo e interpelador.

Arnaud e Maximiliano tornaram-se conhecidos de todo o mundo, mas muitos outros como eles permanecem desconhecidos. Sei de alguns e estou a pensar numa mulher frágil, ainda nova, que um dia ia perdendo a sua própria vida a tentar salvar a vida de um rapaz que se ia atirar da ponte. Conheci esta mulher por acaso e fiquei a saber a sua história. Ia sozinha ao volante do seu carro, entre muitos outros carros, quando viu o jovem rapaz preparar-se para se atirar ao rio. Parou o carro, correndo desde logo o primeiro risco de vida, pois foi a única que parou diante de uma cena que estava à vista de todos (podia ter sido imediatamente atropelada) e foi a correr socorrer o rapaz, que já estava mais para lá do que para cá. Depois de uma intensa luta, também ela de vida e morte, dada a fragilidade desta mulher e as forças do rapaz e da própria gravidade, que os puxava a ambos para o abismo, conseguiu impedi-lo de saltar.

O rapaz não se mostrou imediatamente grato, ao contrário do que aconteceu com Franciszek Gajowniczek, o preso que Kolbe salvou em Auschwitz quando tinha quarenta anos (e sobreviveu mais 5 anos no campo de concentração, vivendo depois até aos 94!), mas ao fim de vários meses este mesmo rapaz foi capaz de ir ao encontro desta mulher para lhe agradecer ter-lhe salvo a vida.

Há, no mundo, muito mais pessoas como esta mulher anónima e estes dois homens, que nunca serão esquecidos, do que terroristas, mas o poder de difusão dos media e das redes sociais é tal que parece que estamos rodeados de gente diabólica. Estamos e não estamos. O mundo parece perdido sempre que assistimos a um ataque terrorista, em directo ou em diferido, e a humanidade fica ferida de cada vez que sabemos da morte de inocentes, de injustiças, violações e outros crimes, mas é vital perceber que por cada perverso que há à face da terra existe, pelo menos, uma pessoa muito boa. Diria mesmo que existe muito mais que uma, mas como não tenho estudos para o afirmar, parto da realidade que conheço e experimento.

Quando digo que sou Arnaud, quero dizer que acredito no que ele acreditava. Neste caso não falo apenas de profissionalismo, competência, coragem, espírito de sacrifício, sentido de missão e amor ao próximo, valores que considero absolutamente fundamentais. Falo do Deus em que ele também acreditava e que era o mesmo Deus de Kolbe. Falo desse Essencial absoluto em quem cada um punha toda a sua confiança, pois sabemos agora que Arnaud vivia uma experiência de profunda conversão e prática cristã há mais de dez anos.

O Deus de Kolbe e de Arnaud é o meu Deus, que reconheço neles e conheço através de Jesus, que viveu ensinando o amor e espalhando o bem. Embora inocente, também Jesus percorreu o seu calvário e se deixou pregar numa cruz entregando a vida de forma livre, consciente de que a dava pela salvação de muitos outros. Não fugiu, não se revoltou, não incitou ao ódio nem à vingança. Também não fez nada por heroísmo e, muito menos, por protagonismo. Falou sempre de amor, perdoou e pediu perdão para outros até ao último suspiro. Entregou-se, sabendo que nenhuma cruz é o fim.

Noutra escala e noutros contextos, muitos outros homens e mulheres actualizaram e continuam a actualizar este mesmo gesto, na certeza da vitória do bem sobre o mal, do amor sobre o ódio.