Chicas Poderosas é a ONG formada há nove anos para trabalhar a falta de diversidade e inclusão na media latino americana que invariavelmente é liderada por homens, limitando assim a agenda mediática e não tendo perspetiva de género. Na Europa o problema é ainda mais grave, pois a media europeia não acredita ter nenhum tipo de problemas com inclusão ou diversidade. O maior cego é aquele que não quer ver.

Em 2021 esperávamos um jornalismo mais diverso e inclusivo. A nossa esperança foi abraçada e, de certa forma, a ‘diversidade’ passou a ser um termo presente em muitos lados para além do jornalismo. Vimos todos os setores da sociedade a estar mais atentos. Mesmo assim, sabemos que esse discurso ainda não indica grandes mudanças estruturais dentro do jornalismo.

Na América Latina, indígenas ainda compõem 3% das redações, enquanto pessoas trans ou não binárias não chegam a 1%. E no mundo 100 dos principais meios de comunicação contam com apenas 18% de editores não brancos. Essa estrutura de poder rígida, composta por um sistema branco, colonial e hétero, precisa urgentemente de ser transformada.

Com mais um ano pandémico para trás e a incerteza do que virá pela frente, a sensação de esgotamento mental é inevitável. Vivemos a intensidade do sensacionalismo e imediatismo nas redes e nos meios de comunicação – a corrida pela notícia (e pelo clique), o espalhamento de desinformação, as fake news, o pânico. Sem mencionar o agravamento da crise económica que afeta a todos, sendo que para aqueles que fazem parte de populações já vulneráveis o golpe é muito maior. Paralelamente a isso, governos autoritários estabelecem-se mais fortes em vários cantos do mundo, ameaçando não só valores e direitos essenciais para o jornalismo, como a liberdade de expressão e o direito à democracia, mas também sua própria vida. O acesso à informação verdadeira e de confiança tornou-se uma questão, literalmente, de vida ou morte.

E justamente nesse contexto vimos explodir o debate sobre a saúde mental e o autocuidado. Começamos a questionar os espaços de trabalho e o quão tóxicos eles podem ser. Afinal todos têm heranças coloniais que fazem reproduzir a opressão, a exploração da força de trabalho, a desqualificação do ‘outro’, a disputa por poder. Além da busca constante por alta performance, pela super produtividade, pela entrega a qualquer custo. É completamente impossível fazer um debate sobre a transformação estrutural do jornalismo para um caminho mais inclusivo e diverso sem passar pelo debate de modelos de liderança, saúde mental e autocuidado.

Chicas Poderosas continua a apostar em contar histórias sub-representadas sobre personagens invisíveis nos media e nas narrativas convencionais. Com o Laboratório de Histórias Poderosas contamos 20 histórias sobre como a pandemia atravessa a vida das mulheres e pessoas LGBTTQI+ na Colômbia, Equador e Brasil. Nessa experiência elevamos a representatividade a máxima potência, buscamos histórias sobre personagens reais que vivenciam questões sociais reais e pouco presentes nos veículos de notícia, cada um em seu território e fronteira.

O debate sobre diversidade e representatividade no feminismo vem avançando muito e torna-se cada vez mais amplificado. Já não falamos de feminismo no singular e sim de feminismos, diversidades, e pluralidades.  A compreensão sobre lugar de fala, sobre privilégios, sobre colorismo e interseccionalidades são aprendizagens indispensáveis e prioritárias para assegurar um 2022 mais inclusivo.

E quem realmente tem identificado e pautado esses ensinamentos são as comunidades ditas ‘marginalizadas’, aquelas que foram ou ainda estão excluídas dos espaços de visibilidade e do acesso equânime a oportunidades de todos os tipos. São os movimentos sociais, os movimentos negros, indígenas, LGBTTQI+ e de iniciativa comunitária, e os media independentes, as comunidades migrantes, as pessoas com incapacidades, entre muitas outras, que estão preparadas para falar sobre diversidade para pautar um debate plural. Acreditamos que muitas soluções virão daqui, por meio de sistemas de colaboração voltados para a inclusão de todos.

“Diversidade não é sobre ser politicamente correto. É, na verdade, sobre precisão. Como você pode refletir sua nação com precisão? EUA é uma nação multirracial, Brasil é uma nação multirracial, mas as pessoas que controlam as notícias não são”, disse a premiada Pulitzer Nikole Hannah-Jones. A única forma possível de aprender sobre o mundo e seus desafios é retroceder e escutar primeiro, aprender a partir da experiência de quem a viveu, e gerar oportunidades para que essas pessoas possam contar suas histórias e representar seus lugares de fala – valorizar aqueles e aquelas que vivenciam na sua pele, no seu corpo e no seu território a dor e a delícia – a potência e a opressão – de ser quem são, de viver o que viveram. Isso é representatividade.

Essa via de mão dupla entre movimentos sociais, sociedade civil e jornalismo sempre existiu e contribui de forma valiosa com o relato jornalístico, mas precisará ir além e contribuir para transformar as suas estruturas de dentro pra fora, podendo colaborar para que esses espaços estejam preparados e seguros para receber todas as diversidades e que de fato sejam diversos para além do discurso cosmético.

Como disse a grande escritora feminista Audre Lorde, “Sem comunidade, não há libertação.” Chegou a hora de reconhecer todas as lutas e descobrir nosso ponto comum na luta por transformações e aumentar a pressão sob a grande imprensa e a indústria jornalística.
Espero, em 2022, lançar o projeto de “Como medimos a diversidade nos meios de comunicação,” um ponto de partida para ver como juntos podemos melhorar enquanto organizações comprometidas com a verdade, que sejam capazes de celebrar todas as diversidades!

Mariana Santos é uma empreendedora portuguesa que iniciou uma comunidade global

para empoderar as mulheres nos media em todo o mundo, Chicas Poderosas, da qual é CEO há nove anos. Chicas Poderosas é uma comunidade global com comunidades organizadas em 16 países que promovem lideranças inclusivas, promovem treino jornalístico e uma rede de jornalistas por toda a América Latina, Portugal, Espanha e USA.

Nomeada das 100 pessoas mais influentes em políticas de género da Apolitical, com um mestrado no programa Desenvolvimento de Liderança, de Harvard, com especialização em transformação digital, Santos começou sua carreira como designer de visualização de dados interativos no Jornal Guardian em Londres, onde fez um trabalho inovador no que diz respeito a jornalismo de visualização de dados. Conduz workshops de design thinking para aumentar a abordagem multidisciplinar no contar de histórias e é uma líder no desenvolvimento de comunidades inclusivas e diversas, onde todas as vocês podem ser ouvidas.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.

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