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KGB e Ortodoxia: até onde pode ir o compromisso? /premium

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Quase todos os dirigentes da Igreja Ortodoxa Russa colaboraram com os serviços secretos soviéticos, incluindo Alexis II, o antigo Patriarca, e Kirill, o actual, que tinha o pseudónimo de “Mikhailov”.

Sempre que algum país saído da antiga União Soviética publica alguns arquivos dos serviços secretos comunistas, entre os agentes recrutados surgem nomes de actuais dirigentes das Igrejas Ortodoxas, mas estes remetem-se ao silêncio absoluto.

Na semana passada, as autoridades da Letónia decidiram publicar a cartoteca com os nomes de cidadãos que tinham aceitado colaborar com o Comité de Segurança do Estado (KGB) da URSS, ou seja, com a polícia política.

Esta publicação está a provocar alvoroço e discussão nas redes sociais, principalmente no que diz respeito à colaboração entre o clero ortodoxo e o KGB.

Aqui é necessário abrir um parêntesis para assinalar que o KGB utilizava os dirigentes religiosos (e aqui este conceito engloba todos os credos existentes na URSS) para se infiltrar em organizações internacionais e mostrar ao mundo que o poder comunista respeitava os direitos dos cidadãos.

Segundo os documentos revelados, o actual dirigente da Igreja Ortodoxa Letónia do Patriarcado de Moscovo, metropolita Alexandre, foi recrutado em 1982 pelo tenente-coronel do Departamento da Luta contra Ataques Ideológicos do KGB, Alexandre Ischenko, que nessa altura ocupava o cargo de chefe do Conselho para os Assuntos Religiosos do Governo da Letónia soviética.  Quando foi recrutado, Alexandre era empregado de mesa de um restaurante, mas, oito anos depois, já dirigia a Igreja Ortodoxa da Letónia.

Mas o mais curioso vem a seguir. Quando a Letónia se tornou independente em 1991, quando os cidadãos soviéticos olhavam para os agentes e bufos do KGB como os portugueses para os agentes da PIDE/DGS depois de 1974, o antigo tenente-coronel foi convidado pelo metropolita Alexandre para gerir os bens imobiliários que foram devolvidos pelo Estado à Igreja Ortodoxa da Letónia do Patriarcado de Moscovo.

Quando surgem estes casos, o Patriarca de Moscovo, Kirill I, não comenta, remetendo-se ao mais absoluto dos silêncios e a razão pode ser a seguinte: após o fim da URSS, uma Comissão criada pelo Soviete Supremo (Parlamento) da Rússia teve acesso aos arquivos do KGB e encontrou dados que mostravam que quase todos os dirigentes da Igreja Ortodoxa Russa colaboraram com os serviços secretos soviéticos, mas foram revelados apenas os “pseudónimos” e não nomes concretos.

Todavia, o padre Gleb Iakunin, mais tarde excomungado pelo Patriarcado de Moscovo, cruzou esses dados com outras fontes e chegou à conclusão que Alexis II, antigo Patriarca, colaborava sob o pseudónimo de “Drozdov”. Já  Kirill, o actual dirigente da Igreja Ortodoxa Russa, tinha o pseudónimo de “Mikhailov”, etc., etc.

O impacto social foi tão forte que o Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa foi obrigado a criar uma comissão de investigação, que nunca se chegou a reunir. Depois da chegada ao poder de Vladimir Putin e dos “tchekistas”, como se intitulam os agentes da polícia política russa, essa questão deixou de ser actual. Hoje está na moda expor publicamente as excelentes relações entre o FSB (ex-KGB) e a Igreja Ortodoxa Russa. A poucos metros da sede do Serviço Federal de Segurança, no centro de Moscovo, encontra-se um mosteiro que dá “apoio espiritual” aos novos donos do país.

Posso acreditar que alguns desses altos clérigos não tenham sido talhados para serem “mártires”, como aconteceu com milhares de crentes e líderes religiosos que não quiseram colaborar com o poder comunista. Outros talvez tenham aceitado colaborar sob o pretexto de “salvar pelo menos alguma coisa”, mas poderiam fazer um “acto de contrição”.

Talvez esta seja uma das razões que levam muitos ortodoxos a manterem-se longe dos templos ou a entrar neles só para baptizados, casamentos e funerais.

As autoridades ucranianas, ao contrário das letãs, publicaram, no ano passado, os arquivos do KGB sobre a colaboração dos clérigos ortodoxos entre 1940 e 1960, ou seja, que já faleceram. E isto pode ter uma explicação. Entre os acusados de colaborar com a polícia política encontra-se Filaret, actual Patriarca Emérito de Kiev, um dos maiores defensores da independência da Igreja Ortodoxa Ucraniana em relação ao Patriarcado de Moscovo.

Claro que esse caso tem sido muito utilizado pela propaganda russa, tanto civil como religiosa, para desacreditar a nova Igreja Ortodoxa Ucraniana independente. Uma táctica muito antiga, como já dizia o Evangelista São Mateus: “E porque reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?”.

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