Cara Margarida Abreu,

Apesar de já não ter dúvidas que “deixámos de ser livres”, eu valorizo viver num país onde existe liberdade de expressão.

Esta liberdade que escolhe ignorar, é a mesma que lhe permite de forma sistemática pôr em causa a legitimidade de medidas de distanciamento social e do uso de máscaras em espaços fechados no controlo pandémico do SARS-CoV-2.

Felizmente já não vivemos no Portugal onde os costumes da aldeia eram ditados pelas opiniões das sumidades locais.

Hoje em dia, com tempo, humildade, acesso à internet, e com uma dose de bom senso e critério científico, é possível aceder a opiniões dos profissionais melhor qualificados para o complexo desafio que é pandemia causada pelo novo coronavírus.

No caso do SARS-CoV-2, o perfil ideal seria o de alguém das melhores Universidades de medicina do Mundo, que já estudava vírus respiratórios antes desta pandemia, que tivesse experiência nos surtos de coronavírus anteriores (SARS e MERS) e que para além disto tudo, tenha provas dadas no controlo pandémico a este coronavírus.

Repare nesta lista de especialistas que se enquadram no perfil:

Professor Doutor Gabriel Leung: Médico, especialista em epidemiologia e saúde pública pela Universidade de Harvard, sendo neste momento reitor da Universidade de Hong Kong (top 30 Mundial). Experiência profissional nos surtos de SARS e MERS. Autor de artigos publicados nas mais prestigiadas revistas científicas em temas como surtos de coronavírus e estirpes agressivas de influenza.

Professor Doutor Christian Drosten: Médico, especialista em virologia, identificou o SARS e a sua carreira de investigação é focada na virologia epidemiológica e molecular de coronavírus emergentes. Conselheiro do Governo Alemão no combate ao SARS-CoV-2, sendo director do Instituto de Virologia da Universidade Charité de Berlin (Top 50 Mundial). É autor de mais de 100 artigos científicos em coronavírus nos últimos 20 anos.

Professora Doutora Jung Eun-kyeong: Médica de Medicina Geral e Familiar, especializada em Saúde Pública na Universidade Nacional de Seoul (Top 50). Dirige o Centro Nacionalde Prevenção de Doenças da Coreia do Sul, tendo liderado liderou o

seu país na prevenção da pandemia do novo coronavírus. Autora de artigos científicos sobre SARS-CoV-2.

Apesar de se terem especializado em Universidades e em meios culturais distintos totalmente diferenciados, estes especialistas têm algo em comum: discordam totalmente de si.

Entenda-se, ao contrário de si, levam a ameaça desta doença para a saúde pública muito a sério e consideram o uso de máscaras em espaços públicos não ventilados, as medidas de distanciamento social e o isolamento de assintomáticos como elementos cruciais para o controlo da pandemia.

Mas não podemos avaliar a solidez dum argumento com base na quantidade, competência, ou experiência comprovada dos seus autores.

Mesmo que o José Mourinho, o Jurgen Klopp e o Pep Guardiola fossem unânimes em relação à importância da hidratação no processo de treino, e um professor de educação física escrevesse no jornal, ainda que em bela prosa, uma ode à desidratação com que o George Best treinava, seria um princípio elementar de prudência e humildade considerar as diferenças de opiniões.

Permita-me estender a analogia, podemos estar perante um caso clássico como o de Galileu Galilei, onde uma voz relativamente isolada está correcta e a maioria dos especialistas equivocada.

Como ninguém é dono da verdade, só há uma forma de saber quem é quem: olhar ao método com que cada parte procura a verdade.

Os especialistas que discordam de si, providenciam as fontes e os dados que estão na base das medidas que defendem, sujeitando-se à revisão da sua opinião técnica. Para além disso, têm provas dadas no controlo pandémico nos respectivos países, tendo permitindo a desejada retoma da vida social e económica, minimizando assim o impacto directo e indirecto do novo coronavírus sobre as populações locais.

A Margarida, está numa “cruzada” de opinião publicada sem fontes, contraditório, ou revisão científica, recorrendo a um léxico, que em médicos activista-políticos, só deve encontrar precedente no Che Guevara.

“Oprimidos”, “violentados”, “injustiça”, “ditaduras”, “revoltas”, “guerras”. É neste tom que os seus textos sistematicamente põem em causa as medidas de saúde pública necessárias para a retoma da nossa vida social e da actividade económica.

Prima facie, não parece que estejamos perante um caso onde afinal a terra seja plana.

Para além de não se sujeitar a que as suas opiniões técnicas (imagino que não sejam pessoais), sejam escrutinadas por especialistas, abusa das insígnias profissionais que detém.

A sua constante descredibilização da importância do uso de máscaras em espaços públicos fechados, assim como de medidas de distanciamento social, não justificariam esta carta aberta, se a Margarida se apresentasse aos Portugueses como cidadã activista.

No entanto, fá-lo enquanto médica, tendo perfeita consciência que a sua formação profissional lhe confere, não só a possibilidade de ser lida, como também de ampliar o impacto das suas palavras na sociedade Portuguesa.

Demasiados Portugueses, aguardavam ansiosos pela primeira voz com o mínimo de credibilidade, que afirmasse, o que todos nós gostaríamos que fosse verdade: está tudo bem, isto não é nada, pode tudo voltar a ser como era dantes.

Numa analogia de mercado, a Procura precedia a Oferta, e no tempo dos media de click-bait era apenas uma questão de tempo até ser satisfeita.

Óbvio que neste momento conturbado que todos vivemos, de extrema vulnerabilidade emocional e económica, há um crescendo de outras revoltas por atender, as quais a Margarida não se poupa em enumerar.

Quem a lê, pode ficar com a sensação que todo e qualquer problema crónico da sociedade Portuguesa, é culpa da pandemia. Dou-lhe um exemplo que julgo que ilustra bem o que quero dizer.

A Margarida escreve que nos lares onde dá consultas “as queixas de palpitações, insónias, crises de ansiedade são uma constante” e que “a toma de antidepressivos e ansiolíticos disparou”. Perante esta afirmação, eu fiquei com a sensação que esta pandemia tinha gerado um problema de consumo excessivo destas substâncias na população idosa em Portugal.

Mas vejamos os dados pré-confinamento relativos ao consumos destes fármacos:

Portugal já era o país do mundo onde se consumiam mais ansiolíticos e o segundo onde os idosos consumiam mais antidepressivos. São 19.000.000 de embalagens destes fármacos por ano, quase duas por habitante.

Este é um problema, que como deve saber, tem vindo a crescer ao longo da sua carreira como médica, pois em 2000, o consumo diário de anti- depressivos em Portugal, situava-se ligeiramente acima das 30 doses diárias por mil pessoas e, em 2017, o número já tinha mais que triplicado para 104 doses.

Se não sabia, deveria saber, uma vez que estes psicofarmácos são principalmente prescritos por médicos de família, a sua especialidade. Por exemplo, no caso das benzodiazepinas 75% das prescrições são feitas por MGFs, que passam pelo menos uma receita ano ano a mais de 1,9 milhões de Portugueses.

Ora que eu me recorde, entre o ano 2000 e 2017, não houve qualquer tipo de medidas “abusivas” ou “autoritárias”de distanciamento social, nem tão pouco campanhas de “tortura psicológica criminosa” que “metralharam” e “manipularam a opinião pública” criando uma “falsa pandemia do medo”, ao menos ao ponto de justificarem o triplicar do consumo de antidepressivos no nosso país.

O que infelizmente nunca deixou de haver em Portugal, foi um paternalismo condescendente (e condescendido) por parte de alguns médicos que insistem em ignorar as limitações da sua especialidade e opinam sobre tudo: saúde pública, economia, política e saúde mental.

Logo não é de estranhar, que em Portugal, qualquer especialidade médica seja válida para emitir opiniões sobre as medidas necessárias para o controle pandémico do vírus SARS-CoV-2. Só falta o Presidente da Ordem dos Cirurgiões Plásticos ou um Director de Serviço de uma Unidade de Ortopedia virem dar a sua opinião.

Utilizando o seu léxico: parecem-me “pseudo-especialistas” a “metralhar” “pseudociência”. Como se já não nos bastasse a todos as trapalhices e a péssima comunicação do Governo e das autoridades de saúde.

Minar de forma sistemática a credibilidade das poucas medidas unânimes de sucesso, como uso de máscaras em espaços fechados públicos e o distanciamento social, assim como a importância de isolar assintomáticos, só vai levar a um desfecho: prolongar e agudizar o sofrimento de todos nós, agravando todo e qualquer problema da nossa sociedade.

Lá fora, já não enganamos ninguém, e podemos espernear o que quisermos acerca da honestidade dos outros em relação à nossa, que a realidade de um vírus não é a do défice orçamental. Se cativarmos, pagaremos todos em breve as consequências.

Por isso peço-lhe, se de facto quer defender a liberdade dos Portugueses, e se de facto a sua preocupação é o bem-estar emocional, físico e sócio-económico de todos nós, por favor, pare de prescrever comportamentos de risco ao público com a mesma ligeireza com que um qualquer MGF prescreve psicofármacos aos seus pacientes e os assegura: vai ficar tudo bem, faça como eu digo, que vai voltar a ser tudo como era dantes.