Pedro Lima morreu. Suicidou-se. Ninguém estava à espera. Por respeito ao Pedro, à família e a todos os que tiveram o privilégio de o conhecer, não vou, naturalmente, escrever sobre ele. Até porque nunca tive o privilégio de o conhecer. Cruzei-me com ele duas ou três vezes no ginásio e vi, há coisa de um ano, um peça de teatro em que ele participava. Desejo que tenha encontrado a paz que procurava.

Escrevo sim, sobre a depressão. Fala-se muito, mas o preconceito mantém-se. Ou melhor, fala-se pouco, fala-se apenas quando uma tragédia destas acontece. Mas o preconceito está lá. Há apelos, marchas e associações e o raio que os partam sobre tudo o que são temas relacionados com cor, género e opções sexuais mas há muito pouca acção, informação e, pior, interesse, sobre a depressão. Quem nunca teve, teima em considerar, de forma mais ou menos consciente, que é uma “pieguice”, uma “fraqueza” ou “uma forma de chamar a atenção”.

E há pouco interesse porque as pessoas são, genericamente, egoístas e cobardes.  As redes sociais demonstram-no, aliás, diariamente. Palavras por detrás dum teclado é fácil.  Sem rosto e sem nome, agridem quem não conhecem, sem apelo nem agravo, na maioria das vezes sem sequer argumentar ou tentar perceber o outro. Opiniões diferentes são salutares, agressão gratuita não permite a ninguém evoluir. Tal como também acontece o inverso. A uma notícia destas as pessoas reagem com um “RIP” como que um “saúde” a quem espirra, cientes de que o seu comentário não tem qualquer consequência ou lhes traz qualquer responsabilidade.

Alguém assumir que está com uma depressão é difícil. Começa por ser difícil assumi-lo perante si próprio. Ninguém gosta de perceber que o sentimento de tristeza, de solidão, de falta de vontade para qualquer acção se perpetua no tempo e parece não ter solução. Tudo à volta parece não fazer sentido, não dar prazer, não preencher, vislumbra-se com uma perspicácia fina a hipocrisia, a falsidade, o vazio de quem nos rodeia e que afinal, de amigos, têm muito pouco.

Baralham-se muito os papeis de amigo, familiar e conhecido. E muitas vezes atribuem-se as designações pela longevidade com que existem. Eu distingo amigo de conhecido pela intensidade, transparência ou natureza da relação. Pode ser alguém que conheci recentemente, mas se está presente quando preciso, se se preocupa ou se fica alerta quando julga ou percebe que não estou bem, é um amigo. Se é alguém com quem posso partilhar ideias, trocar opiniões, por distintas e diversas que sejam, com quem posso contar em qualquer situação, é um amigo.  Se é alguém que tem prazer na minha companhia, que me integra nos seus grupos de amigos, que se lembra de telefonar só para dar um alô, que não me julga ou critica sem falar comigo, que não se afasta sem me confrontar, que me diz o que pensa e não o que é simpático ouvir, é um amigo. Se é alguém que faz questão de estar presente e disponível quando estou neura, é um amigo. Mas estes, os verdadeiros, são muito poucos. A maioria são conhecidos. Com quem se passam tempos giros, muitas vezes sentados à volta de uma mesa, se discutem temas actuais, se programam novas patuscadas mas sem que haja real preocupação pelo dia seguinte de cada um.

A depressão é uma doença. Vou repetir – é uma doença! Não é um estado de ânimo que hoje me deixa um bocado em baixo, mas amanhã já estou bem. Muitas vezes, pessoas com depressão tentam “ludibriar-se” a si e aos outros com extroversão.

Quem está com uma depressão, tipicamente, não o diz, mas dá sempre sinais evidentes e espera que os outros entendam. Chega o momento em que fica no seu canto à espera que lhe telefonem, à espera que o convidem para sair, à espera que o convidem para apenas “estar”, à espera que insistam se ele começar por recusar. Porque precisa de sentir que gostam dele, que sentem a sua falta, que se preocupam com ele. Porque, por um lado, quer falar. mas por outro, receia a reacção, a incompreensão, as frases vazias de quem não faz ideia daquilo por que está a passar. A falta de auto-estima é brutal. É um dos aspectos mais relevantes e pesados numa pessoa deprimida. Muitas vezes, ou a maioria das vezes, sem razão aparente. Pessoas que, à luz dos outros, têm tudo! À espera que o amigo que o conhece há tantos anos perceba que ele está diferente. Que precisa desse mesmo amigo, de forma também diferente. Que o sinta preocupado, presente e disponível.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma pessoa suicida-se no mundo a cada 40 segundos, com o suicídio a ser responsável por cerca de 800 mil mortes a cada ano, mais do que o cancro da mama, a malária, a guerra ou os homicídios.

Para a OMS o suicídio “é um importante problema de saúde pública global, que afecta todas as idades, sexos e regiões do mundo”.

Ninguém toma a decisão de se suicidar de um dia para o outro. O caminho é mais ou menos longo e penoso.

Quem tem uma depressão precisa de se sentir útil, acarinhado, procurado … por amigos, familiares, colegas. Em minha opinião, mais até do que os familiares, os amigos têm um papel preponderante para que uma depressão seja ultrapassada, não sendo sequer colmatado pelo acompanhamento profissional, que é, também, indispensável.

O psicólogo ou psiquiatra serão certamente importantes mas se não existir, em simultâneo, um conjunto de pessoas que corroborem de certa forma com o trabalho que o profissional está a desenvolver e a vontade do próprio em lutar, dificilmente a pessoa ultrapassa o estado depressivo. Uma pessoa com depressão tem de ser acompanhada de forma permanente e sistemática.

Todos se lembram do Robin Williams, aquele actor fabuloso, sempre sorridente, que se suicidou em 2014. Todos ficamos muito perplexos quando uma notícia destas acontece. Como ficámos agora com o Pedro Lima. E como ficaremos amanhã com um próximo que sente não valer mais a pena. Um próximo que se sente impotente para lutar. Mas e no dia a dia, à nossa volta? Fazemos realmente alguma coisa para o evitar? Estamos atentos aos detalhes? Oferecemos ajuda e apoiamos (e se necessário insistimos e acompanhamos) a procura de ajuda profissional? Sem julgamentos ou críticas, sem deixar para amanhã porque hoje tenho uma jantarada com malta animada?