André Ventura vê na dupla Le Pen/Bardella uma inspiração. O líder do Chega rejeita ser de extrema-direita — revê-se mais na designação de direita radical ou direita conservadora — mas tem no União Nacional um exemplo a seguir. É, por isso, natural que — quando o partido de extrema-direita venceu a primeira volta das legislativas francesas — Ventura tenha dito que aquele grande resultado era uma “grande motivação” para o Chega vencer as próximas eleições.

Mas se a primeira volta das eleições legislativas francesas foi uma inspiração, a segunda foi uma lição. O partido de Bardella mostra que um partido nacionalista (com as características da União Nacional e do Chega) tem uma desvantagem única: pode vencer, mas só consegue governar se não depender de mais nenhum dos outros. E isso — de uma forma genérica e sem olhar a caprichos e idiossincrasias dos sistemas eleitorais — significaria ter mais de metade do país a votar nesses projetos. Ou perto disso.

O bloco que apoiava Bardella ficou em terceiro lugar, com 143 deputados, onde se inclui 17 dissidentes dos Republicanos, mas — mesmos descontando esses — a RN foi o partido que, sozinho, elegeu mais deputados: 126. Isto significa, por exemplo, que ficou à frente da Renascença de Macron, que consegui 102 deputados (a coligação Juntos Pela República, 168) e do que a França Insubmissa de Mélenchon, que teve 74 (a coligação Nova Frente Popular, 182). É verdade que Bardella tem o apoio de 143 deputados, mas tem 434 deputados que o rejeitam. Ou seja: o difícil não é ficar em primeiro, nem sequer ter a maior bancada parlamentar; o difícil é conseguir ser governo. É chegar-lá.

André Ventura também pode, e deve, neste caso, fazer um paralelismo com Portugal. O líder do Chega conseguiu nas legislativas de 2024 18,06% dos votos. Como nenhum outro partido admite coligar-se com ele — e todos o disseram claramente antes das eleições — isto significa que 81,94% votaram contra a hipótese de Ventura governar (ou até fazer parte do Governo). Em termos de mandatos, a conta também é simples: há neste momento 50 deputados no Parlamento português que querem o Chega no poder, mas 180 que tudo fariam para o evitar.

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Tempos houve em que André Ventura, deputado solitário na AR, dizia que um dia ia ganhar as eleições e isso provocava risos nos outros partidos algures entre o gozo e a comiseração. O resultado do Chega em março de 2024 tornou a potencial piada de um confiante fanfarrão num caso sério. André Ventura teve 1.169.836 votos, apenas menos 642 mil votos que o PS e apenas menos 697 mil votos que a AD. Os resultados mostraram, antes de mais, que o sonho do líder do Chega de ficar em primeiro lugar numas eleições legislativas não é impossível. Mais difícil, como os resultados em França vêm mostrar, é o sonho maior de Ventura: ser primeiro-ministro.

Mesmo que o Chega vença um dia as eleições legislativas — uma ambição legítima de qualquer partido — dificilmente irá governar. Em Portugal, só três situações poderiam provocar um governo de Bloco Central estilo 1983: uma guerra em que Portugal participe diretamente no conflito, uma bancarrota com risco de shutdown ou o Chega vencer eleições legislativas. É fácil de prever que, mesmo que o centrão não fosse suficiente, rapidamente qualquer um dos mais pequenos (IL, BE, PCP, Livre ou PAN) engoliria esse sapo sem necessidade de coaxar uma única vez.

O sistema político português seria um pouco mais simpático do que o francês, por não ter uma segunda volta que ajuda à polarização do voto, mas — mesmo aproveitando as potencialidades do método d’Hondt e as especificidades dos círculos distritais — André Ventura precisaria de, pelo menos, cerca de 40% dos votos para chegar a primeiro-ministro. Portanto, de uma maioria absoluta. E, quando um partido polariza e foge do centro moderado — como os resultados em França mostram — tem um teto (plafond, em francês) para o seu crescimento. Essa é a grande lição francesa para Ventura.

Para uma eleição presidencial, as dificuldades de Ventura não seriam menores. Mesmo que André Ventura passasse a uma segunda volta, teria uma mobilização de todos os restantes partidos contra ele. Haveria um movimento similar ao que houve em França em 2002, contra o Le Pen pai, e que culminou numa vitória de Jacques Chirac com 82,21% dos votos à segunda volta. É que entre Ventura e outro (mesmo que esse outro fosse Passos Coelho), Mariana Mortágua, por exemplo, não hesitaria como Melénchon em 2017 (que recusou a apelar ao voto em Macron para travar a Le Pen filha) em apelar ao voto no candidato opositor a Ventura — mesmo que tivesse de tapar a fotografia de Passos com a mão inteira e ler dez vezes o Das Kapital para atingir a redenção quando saísse da urna de voto.

França é, assim, o laboratório onde Ventura pode ver, em primeiro lugar, que só será primeiro-ministro com maioria absoluta. E, segundo, que uma votação maioritária é difícil de alcançar fora do centro e da moderação. O que o coloca num dilema: só cresce e se mantém forte se continuar radical e anti-regime; só é maioritário se se moderar e normalizar e, aí, potencialmente perderá votos para outros mais capazes de serem centristas. O teto existe e parece inamovível. E há uma razão para não se se ultrapassar esse teto, independentemente da altura do pé direito: é no sótão que está o desconhecido, onde moram os papões. E o eleitorado, tanto o francês como o português, não gosta de papões.