Os gregos dão-se mal com a democracia. Não é coisa de hoje, é coisa antiga. É pena, mas é assim. E isso acontece desde o tempo de Tucidides. É como se a atracção helénica pelo abismo fosse irresistível.

Eu explico-me. Quem leu o clássico de Tucídides A História da Guerra no Peloponeso encontra nele uma das mais vigorosas defesas da democracia de todos os tempos – o discurso de Péricles aos atenienses. Mas também é confrontado com a descrição de como decisões mal informadas e erradas, mas democráticas, tomadas livremente pelos cidadãos de Atenas, acabaram por conduzir essa cidade à catástrofe.

Quando hoje começaram a sair os resultados do referendo grego lembrei-me desse episódio de há 25 séculos e não pude deixar de estabelecer o paralelismo. Na Grécia, ontem como nesses longínquos tempos, o povo votou, mas parece tê-lo feito sem ter noção do que estava realmente a escolher. Talvez o entenda nos próximos dias. Talvez o tenha já começado a entender com a demissão surpresa de Yanis Varoufakis.

Estas coisas acontecem mesmo com decisões democráticas: por vezes conduzem ao abismo, na melhor das hipóteses a um beco sem saída.

Tal como em Janeiro, quando escolheram o Syriza e acreditaram nas suas promessas irrealistas, os gregos voltaram a escolher a ilusão. Fizeram-no até com sentido dramático, fazendo jus à sua história e aos mitos da sua memória colectiva. Mas criaram mais dificuldades do que aquelas que já tinham.

Vamos lá pensar com alguma frieza e, para que os termos sejam claros, vamos pensar no quadro do relatório do FMI que tão citado foi na campanha eleitoral. Esse relatório diz três coisas, mas só uma tem sido referida – a necessidade reestruturar a dívida grega. As outras duas é que o país precisa de pelo menos mais 50 mil milhões de euros de ajuda externa e que terá de continuar a fazer as reformas dolorosas que são conhecidas pelo nome de “austeridade”.

Vejamos quais as possibilidades de fazer acontecer essas três coisas em simultâneo.

Primeiro que tudo, é necessário que os gregos aceitem medidas duras, reformas profundas que vão exactamente na direcção contrária ao programa e à ideologia do Syriza. Depois do voto desde domingo, com uma vitória tão folgada do não, Tsipras diz que ganhou poder negocial junto dos credores mas omite algo essencial: a margem da vitória também reforça a posição da ala mais intransigente e radical da coligação a que preside, a mesma ala que o obrigou a convocar o referendo sob a ameaça de chumbar o acordo com os credores no Parlamento. Ou seja, a margem de Tsipras para negociar com os credores é hoje mais estreita do que era há uma semana.

Depois, é preciso que os países credores aceitem emprestar mais dinheiro a uma Grécia que se recusa a reformar e, ao mesmo tempo, quer um novo perdão de dívida. Como se pode ver neste gráfico que foi preparado pelo Barclays, há países mais pobres do que a Grécia – como Malta, a Eslováquia, a Eslovénia ou a Estónia – que enterraram na dívida grega valores que correspondem a quatro ou mesmo cinco por cento do seu PIB. Acham que esses países estão disponíveis para perder uma parte desse dinheiro e, ao mesmo tempo, entregarem a Tsipras ainda mais dinheiro dos seus contribuintes? Nas reuniões do Eurogrupo eles têm sido os mais duros com a Grécia, e percebe-se facilmente porquê.

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É assim que chegamos ao terceiro ponto. O do perdão da dívida exigido por Atenas não apenas aos alemães (fica sempre bem atacar os alemães), mas a todos os países do euro, Portugal incluído. Aqui a questão não é saber se a dívida precisa ou não de ser reestruturada – na minha opinião, precisa, já o escrevi muitas vezes. A questão é saber como isso se faz.

Em 2011 fez-se obrigando os credores privados a perderem 100 mil milhões de euros (entre eles estavam bancos portugueses, e parte do dinheiro da nossa troika foi usado para compensar essas perdas). Em 2012 voltou a fazer-se uma reestruturação da dívida, nessa altura dando à Grécia condições muito especiais que lhe permitem não pagar juros de boa parte dos empréstimos europeus durante dez anos. O gráfico seguinte, que fui buscar a um artigo do economista anti-austeridade Paul De Grauwe, mostra o peso que o pagamento de juros tem em diferentes economias, e nele é possível ver o efeito desse período de carência de que os gregos beneficiam: apesar de terem uma dívida muito maior do que a nossa, a Grécia paga neste momento muito menos juros.

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Esta segunda reestruturação da dívida grega foi feita de forma discreta, sem alarde, de forma a que fosse aceite pelos líderes europeus, sobretudo pelas opiniões públicas dos países credores. O que estava prometido à Grécia é que, na negociação do terceiro resgate, algo de semelhante voltaria a acontecer. No fundo, antes de mostrarem de novo a sua boa vontade e enterraren mais dinheiro no país, os credores queriam ver a Grécia no bom caminho. Se isso acontecesse, lá viria nova reestruturação.

Entretanto, nem sequer há muita pressa: com as generosas condições actuais, Atenas não tem a corda na garganta. Pior estamos nós, ou a Itália, ou mesmo a Irlanda. Havia pois tempo para resolver o problema de forma civilizada, cordata e sem gerar a oposição das opiniões públicas dos países credores.

O que aconteceu nos últimos meses deitou isto tudo por terra. Por um lado, ninguém – mas mesmo ninguém – confia, à mesa do Eurogrupo ou do Conselho Europeu, nos líderes gregos e, por isso, ninguém acredita que eles façam as reformas que justifiquem uma nova reestruturação voluntária da dívida. Já os líderes gregos, “para salvarem a face” e aceitarem algumas das medidas mais duras, exigem um compromisso sonoro de corte da dívida. Ora é precisamente isso ninguém está em condições de lhes oferecer, sobretudo porque esses mesmos gregos estão, ao mesmo tempo, a pedir mais dinheiro.

As reacções agastadas da noite do referendo – com destaque para as que foram protagonizadas por líderes socialistas e social-democratas – mostram como o estilo diplomático grego, tão subtil como o de um elefante numa loja de porcelanas, torna virtualmente impossível conciliar interesses tão diferentes entre gente que se detesta cordialmente (o cordialmente é eufemismo).

É por isso que suspeito que a decisão democrática dos gregos os conduzirá quase directamente à saída do euro. Já houve dirigentes europeus que o verbalizaram, a banca internacional começou a considerar que o Grexit é mesmo uma inevitabilidade e já começou a dizê-lo logo na noite do referendo. Pode acontecer já ou pode acontecer com a dificílima negociação do terceiro resgate, lá mais para diante – mas é cada vez mais provável que aconteça mesmo.

Não vai ser bonito de ver, mesmo se houver uma “ajuda humanitária de emergência”, o que já foi sugerido mas colocará a Grécia na posição de ser tratada como o Haiti ou a Indonésia depois de uma catástrofe natural. Com uma diferença: as feridas, neste caso, foram auto-infligidas. Primeiro, por um governo irresponsável de radicais que já conseguiram tornar a vida dos gregos bem mais difícil do que era há apenas seis meses. Depois, por uma larga maioria de eleitores que, tal como os seus antepassados do tempo de Tucídides, escolheram democraticamente darem um tiro na própria cabeça.

Pode haver, e vai haver, conversas e um real esforço de aproximação vindo de muitos líderes europeus, por causa do mito da irreversibilidade do euro e por considerações geopolíticas, mas não duvido que, como alguns já deixam transparecer abertamente, a sua vontade seja a de pedir a Tsipras que pegue no seu saquinho de brasas e vá fazer inferno para outro sítio. Como Varoufakis já foi.