Preocupado com a incompreensão patenteada pela maioria dos cidadãos portugueses relativamente às temáticas que dizem respeito à inclusão e aos assuntos a esta inerentes, designadamente, a identidade do género, o deputado do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares, profundamente desapontado com a sistemática utilização duma linguagem inapropriada para o efeito, tenta (?) evoluir a mesma.

Esta obsessão com a inclusão não é de estranhar. É perfeitamente compreensível que Pedro Filipe Soares sinta necessidade de se manifestar a favor da inclusão. O Bloco representa a parte do proletariado que foi desprezada por Marx e Engels, o lumpenproletariat. Sim, não estranhem! Basta ler “A Ideologia Alemã” (1845). Marx e Engels discriminaram uma parte significativa do proletariado, pela qual não tinham qualquer respeito, por considerarem que se tratava de secções do proletariado miseráveis, desprovidas de recursos económicos e de rectidão política, sendo, por essas razões, susceptíveis de servir aos interesses da burguesia e de corromper a consciência revolucionária do proletariado. O lumpenproletariat, literalmente “homem trapo”, era formado por aqueles que apenas se dedicavam a actividades marginais e que em nada contribuíam para a produção.

No quinto capítulo do “O 18 Brumário de Luís Bonaparte” (1852), Marx faz esta descrição: “Sob o pretexto de criar uma sociedade de beneficência, organizou-se o lumpemproletariado de Paris em seções secretas, cada uma delas dirigida por um agente bonapartista, ficando um general bonapartista na chefia de todas elas. Junto a roués (libertinos) arruinados, com duvidosos meios de vida e de duvidosa procedência, junto a descendentes degenerados e aventureiros da burguesia, vagabundos, licenciados de tropa, ex-presidiários, fugitivos da prisão, escroques, saltimbancos, delinquentes, batedores de carteira e pequenos ladrões, jogadores, alcaguetes, donos de bordéis, carregadores, escrevinhadores, tocadores de realejo, trapeiros, afiadores, caldeireiros, mendigos – em uma palavra, toda essa massa informe, difusa e errante que os franceses chamam la bohème: com esses elementos, tão afins a ele, formou Bonaparte a soleira da Sociedade 10 de Dezembro.”

É neste paradoxo que o deputado Pedro Soares Filipe e os sequazes do Bloco de Esquerda vivem. São trotskistas, mas anseiam pelo perdão de Marx, perdão esse que nunca virá. Herbert Marcuse tinha razão! A esquerda não é um agente da mudança e o Bloco apenas almeja a manutenção do status quo. Eis porque Pedro Soares Filipe defende a linguagem da inclusão. Para justificar a existência do Bloco! Obviamente, esta linguagem, dita inclusiva, nada tem de abrangente porque toda a direita já foi à-priori excluída.

Todavia, surpreendido com a falta de ambição expressa por Pedro Soares Filipe, completamente inadequada à riqueza da língua de Camões, deixo-lhe as seguintes sugestões e despeço-me em conformidade: Senhoro deputado, pense para além dos “camarados”. Porque não Bloca de Esquerdo? Acredite, senhoro deputado, que Vosso Excelêncio é capaz de fazer muito mais.

Politólogo, professor convidado EEG da Universidade do Minho