Falar e escrever em público são actividades peculiares: quem o faz exprime as suas opiniões; espera que os outros as oiçam; os outros preferem porém exprimir as suas; e esperam ser ouvidos; e por aí adiante. Reconhecemos aqui um círculo vicioso, e talvez um modo de vida. Ambos dependem da expressão de opiniões. Terão vantagens? Podemos por exemplo tentar explicar: porque deveria alguém dizer em público o que acha? E por que razão deveria alguém acreditar que os outros estariam interessados naquilo que acha?

A explicação mais comum é a de que exprimir uma opinião é achar que uma coisa é o caso, e dizê-lo; e dizer o que é o caso é naturalmente dizer a verdade. Quem exprime a sua opinião exprime-a porque acha que está a dizer a verdade. Mas esta explicação comum não pode ser verdadeira. Não se contesta que achemos realmente o que achamos. Mas é frequente achar realmente que 167 não é um número primo, ou que os extraterrestres colonizaram a Ilha da Páscoa, ou que Portugal é um país pobre. Trata-se do fenómeno conhecido por ‘estar enganado.’

Não se segue disto que quem se exprime em público não possa dizer coisas verdadeiras; mas apenas que a verdade é independente da opinião de quem está no uso da palavra. Não é impossível que esta ideia tenha ocorrido a muitos dos que se exprimem em público; a quase todos nós já aconteceu perceber, numa altura ou outra, que nos tínhamos enganado. Mas a experiência frequente dos nossos enganos não explica ainda porque é que nos dispomos com alegria a ocupar a posição de quem se engana em público.

É possível que gostemos de impressionar outras pessoas com aquilo que achamos, como um pombo que incha o peito para as pombas. Dá-se não obstante o facto de na esmagadora maioria dos casos as outras pessoas não costumarem ficar impressionadas com as nossas opiniões, mesmo quando o que dizemos é verdade; ocupadas com o que haverão de dizer, não mostram no geral interesse por aquilo que nós temos a dizer. Enquanto fracos pombos, acharemos que essas pombas não-impressionáveis também estão enganadas; e se por acaso se incomodarem com o que achamos, achamos que se incomodam com a verdade; embora na realidade se incomodem apenas com aquilo que achamos.

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Na realidade as reacções dos outros também não costumam impressionar quem exprime as suas opiniões em público. Quem não se impressiona com as reacções dos outros é no entanto quem admira mais a ideia de os outros poderem ter reacções. É por isso que quem fala e escreve em público é quem admira mais o modo de vida assente na ideia de falar e escrever em público. Não admira: trata-se de uma ideia sorridente sobre o seu próprio modo de vida; e as ideias sorridentes impressionam.

Com esta coluna, Miguel Tamen interrompe por enquanto a sua colaboração semanal, que retomará em breve.