Rádio Observador

Economia

Liderança: um diálogo pai-filho /premium

Autor
182

Podes ter a melhor das intenções, as características pessoais que achas apropriadas ou mais valorizas, a visão e a estratégia para o exercício da liderança. Mas a cultura, se não ajudar, estás morto.

Existem uma série de bonecos e posts e caricaturas sobre chefes e líderes pelas redes sociais. Um chefe com uma vara apontada a um conjunto de coitados para que trabalhem e, em contraponto, um líder a puxar um carro onde outros, em cima, aparentemente se passeiam. Um chefe aos berros e um líder a procurar consensualizar. Um chefe sentado a olhar para outros a trabalharem arduamente e um líder a dar o exemplo e a trabalhar mais que os demais. Enfim, as ilustrações são muitas e são mais ou menos expressivas.

Posto isto e como queria escrever sobre liderança, sem me deter na observação simples dos vários modelinhos e bonecos de liderança que surgem em revoada e que se tornam repetitivos, havendo inclusive listas para descrever as características do chefe e do líder, resolvo – de forma menos ortodoxa e sem pedir autorização –  reproduzir parcialmente um diálogo entre pai e filho. Entre mim e um dos meus filhos a propósito de liderança. Surge isto logo após uma palestra que os dois fizemos em conjunto sobre liderança vista por gerações diferentes.

O diálogo teve vários momentos e porque aqui se trata de texto pode parecer muito mais monólogo porque muito disto resulta apenas do meu contributo. Este diálogo evidencia não uma clivagem entre duas gerações e mundos mas, antes, do entendimento saudável entre pai e filho na procura incessante de pontos de intersecção. Um dos grandes segredos, de resto, para que haja muita convergência inter-geracional: diálogo. Muito diálogo.

Que grande confusão causou a sua apresentação, pai. O pai parece-me mais a fugir das questões centrais da liderança do que a responder-lhes. Ou seja, se eu lhe perguntasse diretamente o que é liderança parece-me que o pai, num exame de faculdade, teria dificuldade em responder. É isto ou não?

Completamente. Não sei responder mesmo. Mas olha, sem tentar ser académico e fugindo à tipificação, e apesar do que por aí se diz e escreve, penso que liderança é acima de tudo um exercício de condução de outrem (quando não do próprio). Se é conseguido aos berros e por coação ou se é conseguido com suor e exemplo alguém virá dizer que um é apenas chefe, o primeiro, mas que o segundo é o verdadeiro líder. Aliás é isso que podes ver por aí nas redes sociais. Estereótipos.

Devo dizer-te que, procurando fugir ao estereótipo, cruzei-me na minha vida profissional com pessoas com feitios insuportáveis, autistas e com condução por berros e/ou por coação e até liderando por imposição de medo. No final, não deixavam de ser líderes. Não eram o meu role model. Mas eram líderes porquanto acabei por lhes reconhecer alguma coisa de pessoal naquilo que fizeram. Talvez as suas características pessoais transpostas para o exercício da liderança. Outros houve onde este exercício de transposição pessoa-líder foi bem mais complexo.

Há líderes em circunstâncias dificílimas em que os resultados não aparecem e não têm como aparecer e não deixam de o ser. Olha a Theresa May. Goste-se ou não das ideias as características de resiliência, o trabalho árduo, a procura incessante de consensos, a negociação de um pacote de itens com a UE que evitasse o Brexit desordeiro foram conquistas. Não deixar baixar o nível das conversas foi um ativo para mim importantíssimo e uma característica que valorizo numa pessoa que está líder. Nela tens uma líder em circunstâncias adversas em que aqueles que eram do seu próprio partido lhe tiraram publicamente o tapete. Não uma, mas variadíssimas vezes.

Ou seja, digo-te que a liderança é um exercício absolutamente idiossincrático, não estereotipável e dificilmente enquadrável em modelos. E devo confessar-te também que quando me dizem que um líder adota mais ou menos o mesmo tipo de comportamentos qualquer que seja a circunstância fico perplexo. Primeiro porque podem (e devem) haver alguns pontos comuns mas se formos por perfis ou tipos de liderança consigo ver na mesma pessoa vários tipos. E não quero com isso dizer que a pessoa é bipolar. É um líder a vestir um perfil numa circunstância e a vestir outro, noutra. Uns mais dominantes que outros, certamente, ou talvez mais frequentes. Afinal, as pessoas têm as suas próprias características.

E, portanto, se cunharem esse exercício de liderança com essas características pessoais pode resultar como pode não resultar. O contexto, a cultura, a circunstância particular da empresa (organização ou país), entre tantos fatores, determinam a liderança e o fit da pessoa aos liderados, às equipas, à envolvente.

Gostava que ficasses com estas ideias. Primeiro, os líderes não têm de ser apenas os ganhadores. Depois, há muito líder, senão todos, que em determinadas circunstâncias agem com chefes (e por isso essa dicotomia das redes sociais entre líder e chefe parece-me utópica). Mais, os estereótipos são arrumações fáceis. Por último e por agora, analisar pessoas e tipologias de liderança sem ter em conta o contexto, a envolvente, o estado da empresa ou do país, as equipas, entre vários, é um exercício sem sentido.

Ok. Vamos admitir que está a fugir à resposta dos estereótipos e das tipologias. Se bem que ao referir características dos líderes já está mais ou menos a estereotipar. Percebo o que quer dizer mas o argumento está pouco sólido. O pai está a reconhecer certas características à pessoa que, depois, transporta para o líder. Mas essas características da pessoa podem encontrar melhor ou pior ambiente para se imporem pelo que o líder pode estar, como pode não estar, na sua praia. Acho que é mais ou menos isto que está a tentar dizer. Estou errado?

É por aí. A liderança é muito mais a resultante de uma combinação de fatores, de circunstâncias, de personalidades, de oportunidades, de pessoas lideradas, entre tantos outros.

Tudo resulta de uma combinação de fatores exógenos com as características da própria pessoa. E há até, no limite, líderes “do mal, o menos”. Mas tudo resulta de circunstâncias e contextos. Às vezes há líderes transitórios que até podem vir a ser líderes revelação e podem ficar (o futebol está cheio destes exemplos). Eram improváveis e resultaram. Foram os resultados que os trouxeram à liderança. E depois há líderes que provaram e não conseguem fazer valer a sua liderança noutros ambientes porque lhes são hostis. O futebol, por exemplo, também está cheio destes exemplos. Há líderes de sorte. Há líderes do acaso, fortuitos. Há líderes cujos traços de personalidade os deviam levar aos antípodas da liderança e, no entanto, são líderes. Há líderes que resultam de consensos. Outros de oportunismos. Outros de conjugação de astros. Enfim.

O que quero dizer é que não consigo encaixar essa coisa das tipologias e dos modelos. Consigo sim ver o fit, melhor ou pior, da pessoa a um contexto e dinâmica. E consigo ver líderes pelos resultados como consigo ver líderes sem quaisquer resultados.

Mas isso é uma desconstrução da liderança. Quase parece um conjunto de forças do universo a tenderem para a criação de um líder. É aí que o pai quer chegar?

Parece-me haver pouco determinismo nestes processos de liderança. Julgo haver um contexto que, com as características da pessoa, faz ou não o fit. Mas a observação, no geral, não me parece desadequada. Sobretudo se servir para desmistificar um pouco esta coisa dos chefes e dos líderes que por aí anda e sobretudo da estereotipagem que vagueia pela cabeça de muitos.

Percebo. Mas então fugindo aos modelos há qualquer coisa que o pai consegue apontar a um líder que goste de ver nele? De outra forma, há características da pessoa que considera melhores para o exercício da liderança, independentemente do contexto e da envolvente, ou não?

Ah, com isso entramos num capítulo diferente. A liderança de que eu gosto. Não as tipologias de liderança. Antes as características que eu gosto de ver nas pessoas e que, por isso, as potenciam como líderes. Mas atenção, há pessoas com estas características que nunca chegarão a líderes. Porque o contexto, o género, o momento, a vontade, o que seja, não “deixam”.

Se me perguntas o que deve ter um líder para eu gostar dele estamos a falar, portanto, de outra coisa. Digo-te algumas coisas de que gosto: dimensão humana, sentido de serviço, trabalho, resiliência, visão e desenvolvimento de pessoas.

Dimensão humana porque gosto dos líderes que humanizam. Humanizar é para mim uma boa característica para alguém que é líder. Mas digo-te, obviamente, existem muitos líderes sem grande lado humano.

Sentido de serviço porque gosto de líderes que sirvam as organizações e não que se sirvam a si mesmos.

Trabalho porque acredito no valor do trabalho. E no sentido que o trabalho dá à própria vida. E é claro que funciona como um exemplo para outros. Ou não. Pode funcionar como um exemplo a não seguir por trabalho a mais. Eu, apesar de tudo, prefiro ver alguém que trabalhe, a sério, a liderar.

Resiliência porque acho que o exercício de liderança acaba por ser um exercício de muita solidão. E resiliência é também saber aguentar sozinho o peso das decisões e dos resultados.

Visão porque me parece que tem de haver um misto entre utopia e realidade, entre inatingível e possível e que funcione como estrela e orientação.

Finalmente, mas não menos importante, o desenvolvimento de pessoas. Para mim uma pessoa que se preze desenvolve e dá oportunidade a outras pessoas. Deve passar isso à sua liderança. Mas, lá está, isto vem do lado pessoal. Ou secas pessoas ou desenvolves pessoas. Eu gosto de quem desenvolva.

Reunir estas características todas numa pessoa não é fácil há que admitir. Ou o pai encontrou alguém com tudo isto?

Não é fácil, de facto. Mas é aqui que talvez eu entre em contradição. Não gosto de modelos ou estereótipos mas aceitei dar-te as características das pessoas que considero que potenciam lideranças. Estou a fugir ao estereótipo criando outros. E encontrar tudo isto numa pessoa não é nada simples. Mas volto a dizer-te, mesmo reunidas estas características não é líquido que o exercício da liderança tenha resultados positivos.

Digo-te isto para acabar… Lembras-te da frase de Drucker que diz que a “cultura come a estratégia ao pequeno almoço”? Pois é. Tal e qual como na liderança. Podes ter a melhor das intenções, as características pessoais que achas apropriadas ou que mais valorizas, a visão e a estratégia para o exercício da tua liderança. Mas a cultura, se não ajudar, estás morto. E cultura…vem dos liderados. E de todos os demais stakeholders. Funciona, na liderança, como o contexto. Ou o ambiente, como dizias.

Professor Catedrático, ISCTE – IUL; Presidente da Comissão Executiva – INDEG-ISCTE Executive Education

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Felicidade

Adeus, vou ser feliz /premium

José Crespo de Carvalho
812

Quando me dizem, “adeus, vou ser feliz”, fico preocupado porque a felicidade é uma conquista de todos os dias e nem todos os dias são dias felizes. Dá muito trabalho.

Combustível

Os motoristas e o mercado

Jose Pedro Anacoreta Correira
338

Quando o Governo não consegue instrumentalizar politicamente os sindicatos, passa ao ataque. A luta e defesa dos trabalhadores é só para trabalhadores do Estado e filiados na CGTP.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)