Quando, lá para 2025, Elon Musk apresentar mais uma fantástica caranguejola futurista movida a energia solar, é justo que não se esqueça de agradecer ao grande responsável pelo sucesso. Conto com qualquer coisa como: “E, finalmente, devo homenagear a pessoa que tornou isto possível. O homem que resistiu a pressões de lobistas e conseguiu levar adiante o projecto do lítio de Montalegre, o melhor lítio do mundo, com o qual construímos as baterias que propulsionam esta fantástica caranguejola futurista. Obrigado, Sr. Primeiro-Ministro de Portugal, Dr. João Galamba, pela força moral que revelou enquanto secretário de Estado da Energia. Confrontado com tricas entre empresários pilha-galinhas, ignorou o apelo das cunhas de ex-governantes socialistas e seguiu a lei, não atrasando o processo de extracção deste lítio, que é mesmo muito bonito. Obrigado.”

Será um agradecimento merecido. Mas, há que admitir, o trabalho de João Galamba foi facilitado pela inépcia dos ex-governantes socialistas recrutados pelos empresários desavindos para meter cunhas no Governo.

De um lado temos Jorge Costa Oliveira, ex-secretário de Estado da Internacionalização, contratado por uma das partes para levantar capital. Digamos que levantou um bocadinho mais do que isso, levantou suspeitas. Para já, é arguido no caso das viagens que a Galp ofereceu a membros do Governo, no Euro 2016, o que não é o melhor cartão de visita para uma actividade que se quer discreta. Depois, ao ser entrevistado por Sandra Felgueiras, no Sexta às 9, diz que é possível que tenha falado com algum membro do Governo sobre o negócio do lítio, mas que, se falou, não foi para pôr pressão. O que, convenhamos, é um péssimo desmentido para um lobista. Das duas, uma: ou tem certeza sobre se houve conversa e, caso tenha havido, lembra-se do teor; ou não tem certeza se houve conversa e, caso tenha havido, também não tem certeza sobre o teor. O que não pode é ter a certeza que não falou de determinado tema numa conversa que não tem a certeza que existiu. Ou dizia que não tinha falado com ninguém, ou dizia que tinha falado, mas não sobre lítio. Meias-tintas é que não.

O segundo ex-governante socialista, arregimentado pela outra parte, é Nuno Cardoso, ex-Presidente da Câmara do Porto. Cardoso confessou candidamente ao Sexta às 9 que solicitou uma reunião informal com o ministro do Ambiente, para influenciar a assinatura do contrato de exploração. Não só não tem pudor em admitir que usou a porta do cavalo para tentar obter favores políticos, como também não se importa de reconhecer que a cunha não deu em nada. Boa sorte em arranjar clientes, Nuno Cardoso.

E é este o nível da influência em Portugal. Temos o melhor lítio do mundo, mas os piores lobistas do lítio do mundo. É óbvio que é bom ter um ex-governante socialista para ajudar a desbloquear um negócio. Mas não pode ser qualquer um. Tem de haver padrões mínimos de qualidade lobista. Ainda por cima, o que não faltam por aí são ex-governantes socialistas. E, como se viu no número de nomeados neste Governo, é uma fonte que nunca vai secar. É possível que haja mais ex-governantes socialistas para fazer lóbi sobre o lítio, do que lítio propriamente dito.

Com tanta oferta, não entendo porque é que estes empreendedores do lítio se contentaram com influenciadores como Jorge Costa Oliveira e Nuno Cardoso. Está visto que não percebem nada de influenciar. Nem de lítio, já agora. A única ligação que têm ao lítio é na bateria dos telemóveis que usam para ligar a membros do Governo. E para serem desmascarados em entrevistas telefónicas com a Sandra Felgueiras.

Espero bem que as empresas que disputam a licença de exploração sejam melhores a encontrar lítio, porque para encontrar ex-governantes socialistas que metam cunhas, não têm jeito nenhum. Podiam juntar-se a outras vítimas de abusos por parte de lobistas incompetentes. Um movimento #lítioo.

Mesmo face a lobistas tão fracos, há que reconhecer o mérito de João Galamba, que não se deixou influenciar. Esteve muito bem. O único aspecto negativo que se pode apontar a Galamba é a forma como não foi transparente em relação à tal reunião pedida por Nuno Cardoso a Matos Fernandes. Não se percebe porque é o secretário de Estado da Energia, quando questionado, omitiu que Nuno Cardoso e Matos Fernandes tinham estado presentes.

Sobre Nuno Cardoso, Galamba referiu-se a ele como uma pessoa que vinha a acompanhar o sócio da empresa, não achando relevante dizer que essa pessoa é um ex-governante socialista. Sobre o ministro Matos Fernandes, Galamba optou por não dizer que esteve na reunião porque a pergunta da jornalista fora “Com quem reuniu?” e João Galamba considerou que, naquela ocasião, não reuniu com o ministro, apenas se fez acompanhar por ele. Logo, diz que não mentiu. É um tipo de preciosismo sonso a que qualquer pai está habituado:

– Comeste as bolachas todas?

– Não.

Passados 15 minutos.

– Perguntei aos teus irmãos, ninguém comeu bolachas. Estás a mentir-me?

– Não. Perguntaste se comi as bolachas todas. Ora, eu deixei uma. Tecnicamente, não menti.

Apesar disso, percebe-se o secretismo de João Galamba. Trata-se de alguém que já foi acusado de ser muito liberal com a informação, nomeadamente quando enviou SMS a José Sócrates, avisando-o que era alvo de investigação. Na altura até houve quem dissesse que o brinco que Galamba usa não era um adorno, mas sim uma anilha de pombo correio. Talvez por isso Galamba seja agora mais reservado com a informação. De boca-rota, passou a não se descoser. Aprendeu a lição. Se bem que com algum exagero. Antes adorava dar informação a quem não devia, agora abusa e acaba por não a dar a quem deve.