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Livros para férias (III): Em defesa da Europa, para além dos impérios /premium

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A cultura de Roma, enraizada em Atenas, e enriquecida pelo Cristianismo, continua a ser a matriz da civilização europeia e ocidental.

Concluo hoje esta série sazonal de livros para férias basicamente com três livros sobre a Europa (e mais um, também de certa forma relacionado).

O primeiro título que enfaticamente recomendo é As Décadas da Europa (Bookbuilders, 2019), organizado por João Rosa Lã, Alice Cunha e Pedro de Sampaio Nunes. O livro, acabado de publicar, reúne uma vasta colecção de conferências, proferidas na Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL), sobre as três décadas de integração portuguesa na (agora chamada) União Europeia.

Ouvem-se por vezes críticas à alegada falta de presença pública da vetusta SGL. Pode haver aí um ponto, se os críticos tiverem em vista a ausência da SGL na televisão e nas chamadas “redes sociais”. Pela minha parte, considero uma virtude o recato civilizado da velha Sociedade de Geografia, um clube de membros com sessões abertas ao público, onde se pode ainda usufruir de debates pluralistas em ambiente de respeito mútuo.

O presente livro As Décadas da Europa é uma prova irrefutável do inestimável contributo que a SGL continua a prestar ao debate informado sobre as grandes questões políticas nacionais e internacionais. Entre os autores contam-se Aníbal Cavaco Silva, José Manuel Durão Barroso, Luís Valente de Oliveira, Emílio Rui Vilar, João Cravinho, Francisco Seixas da Costa, Luís Valença Pinto e Luís Amado, para citar apenas alguns. Na abertura, temos um estimulante ensaio do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa sobre a política externa portuguesa.

A minha segunda sugestão de livros para férias é o Dicionário das Grandes Figuras Europeias, coordenado por Isabel Baltazar e Alice Cunha (Edição da Assembleia da República, com o Alto Patrocínio de S.Exa. O Presidente da República). São 85 capítulos sobre outras tantas grandes figuras europeias, de Konrad Adenauer a Simone Veil, passando por Winston Churchill, Ernâni Lopes, Francisco Lucas Pires e muitos outros. É uma notável obra de consulta que merece lugar de confortável acesso em boas bibliotecas, públicas e privadas.

A minha terceira sugestão é talvez mais inesperada, porque o autor é o recém-nomeado primeiro-ministro britânico, Boris Johnson (ainda que o livro seja de 2006): The Dream of Rome, com uma segunda edição em 2007, With new material on the rise of Islam (HarperCollins, 2006/07). Trata-se de uma cativante homenagem ao velho Império Romano, numa divertida narrativa historicamente informada, enquanto expressão maior da cultura e da civilização europeia e ocidental.

A homenagem inclui, na parte final, uma enfática recordação da emergência do Cristianismo e do seu fundamental contributo para limitar o poder político — sobretudo para eliminar o culto religioso de qualquer poder político. Esse legado permaneceu e de certa forma foi reforçado com a conversão de Constantino em 312. “Foi o princípio do fim da aura mágica que Augusto tinha criado — a identificação semi-religiosa entre o cidadão e o poder central” (p. 193).

Boris Johnson argumenta que a cultura de Roma, enraizada em Atenas, e enriquecida pelo Cristianismo, continua a ser a matriz da civilização europeia e ocidental. Uma das suas consequências políticas foi o fim do Império Romano — mas não da ideia de Europa. De certa forma, esta mesma ideia de Europa terá sido responsável pelo epílogo do Império e pela gradual emergência de parlamentos descentralizados.

A ideia não é obviamente original. E é sobretudo conhecida há muitos séculos nas culturas políticas marítimas que, por qualquer motivo não centralmente desenhado, tendem a recusar poderes continentais centralizados. Em qualquer caso, este livro de 2006 deveria servir de alerta para os que tentam descrever Boris Johnson como xenófobo anti-europeísta. Até o insuspeito e anti-Boris Financial Times acaba de alertar para que o novo primeiro-ministro britânico pode vir a ser a versão mais próxima, nas últimas três décadas, do conservadorismo liberal de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher. Esta não é razão suficiente para concordar com o Brexit, com o qual continuo a discordar, mas deveria levar os genuínos europeístas a tentar compreendê-lo.

Regressando ao tema do Cristianismo e do seu fundamental contributo para limitar o poder político, um outro livro recente merece enfática recomendação: João Seabra: à Sua Maneira, por José Luís Ramos Pinheiro e Raquel Abecasis (D. Quixote, 2019). Largas centenas de pessoas encheram um vasto auditório do Liceu Pedro Nunes, no passado dia 11 de Julho, para assistir ao lançamento da obra. Confirmavam pela sua presença o tema do livro: “A história de um padre inspirador de tantas causas e de tantas pessoas”. Como bom cristão, o Padre João nunca incluiu nessas causas a idolatria do poder político, qualquer que ele fosse.

Votos de boas leituras e de boas férias — se possível perto do Mar…

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