A única lembrança que o meu pai trouxe da tropa colonial foi um velhinho com o nariz vigiado por uma curva de bigode e sempre com os lábios enterrados nas covas deixadas pela ausência súbita dos dentes. Trouxe-o embrulhado na mão como um amigo. O velhinho tinha sido um alferes miliciano, recordo-me do capim, em forma de pêlos, saindo-lhe pelas orelhas e protestando a ruína humana que já era. O velho, de nome Queiroz, instalou-se na avenida 25 de Setembro (antiga avenida da República), Maputo, num prédio com estampas de fungos nas paredes, um elevador de chaparia queimada por urina de ratos e escadas fracturadas pelos martelos dos passos arrastados.

Foi ele que me falou da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, do bairro Benfica e da sua perna podada por uma mina antipessoal em Angola; gosto de vê-lo coçando a cicatriz de linhas que tem onde as pernas não existem. Restava-lhe uma perna, mas o cancro veio correndo e meteu-se nela e o velhinho viu o serrote tirando-lhe a segunda perna; saiu do Hospital Central de Maputo suspenso, evaporando em duas muletas de alumínio com duas borrachas nas pontas. E as duas borrachas eram como se fossem seus pequenos sapatos.

“Um dia volto a Benfica” diz sempre o velhinho com um palito afogando-se na boca vazia. E eu escrevo isto não para falar do Queiroz, mas para falar de si, génio. Talvez escreva para si pensando no Queiroz, pois ele era um alferes miliciano e metade do seu juízo ficou em Angola, por isso que hoje pega nas suas muletas e dispara a todos que passam pela varanda fora, tal qual você disparou em Vila Gago Coutinho, nas matas de Chiúme e em Malange.

É o Queiroz que devia fazer uma continência para si, pois ele foi a Angola e voltou com a calça dobrada e mordida por um alfinete anunciando a ausência da perna esquerda; e você esteve em Angola, sabe Deus com que dificuldades, talvez ao lado do Queiroz, talvez deixando a antipessoal para o Queiroz, talvez dizendo ao Queiroz que não queria pisar a antipessoal, pois queria voltar a Benfica com os dois pés.

“Um dia volto a Benfica” ainda o diz Queiroz, sentado na sua varanda, Avenida 25 de Setembro, em Maputo, arrumando os seus dois alfinetes nas pernas ausentes. Arruma-os com a dedicação de uma mãe que improvisa um trapo em forma de fralda na cintura do filho. É sobre si que quero escrever, todavia a voz do Queiroz não me pára de perseguir, talvez volte a Benfica para ocupar um pequeno apartamento no Cemitério de Benfica, uma pessoa sem pernas não merece uma sepultura gigante.

Lobo, fechado em seu apartamento, vai tricotando as enormes linhas da velhice; outras ficam-te, por engano, no pano do sorriso e nas arestas das bochechas e continua o mesmo médico militar que cuida das nossas feridas abertas pelas navalhas da história, colocando-nos muletas sobre os ombros das nossas vozes caladas pelas antipessoais do colonialismo e metendo-nos nas bocas as vozes que tira dos frascos dos seus livros para nos servirem na nossa longa terapia de sermos humanos.

O Queiroz continua com as duas muletas disparando aos inimigos que caminham com pausas nos semáforos, a cada piscar da luz vermelha do semáforo põe-se a gritar: “uma antipessoal activa, atenção”, quando passa uma ambulância ladrando, protege a cara com as calças cheias pelo vazio das pernas inexistentes, afasta as muletas e rende-se “estou às ordens, não me matem agora, pois ainda quero voltar a Benfica”. Não sei se ele ainda volta a Benfica, talvez foi porque o seu avô nunca o levou para Pádua fazer a primeira comunhão sob o olhar atento de Santo António.

Lobo, sei que não te dá tempo de entulhar-se em Moçambique, terra dos teus avôs, com a bata que usava no Miguel Bombarda, para se deixar tranquilizar pelo sotaque dos beirenses e ajudar o Queiroz que ainda não tem 78 anos, mas quer voltar a Benfica com o juízo bem arrumado e prumado. Ele aceita todos como amigos, basta lhe falar de Angola, do Benfica, da tropa colonial e da Igreja de Nossa Senhora do Amparo. E ele jura que conhece todos que foram nascidos no bairro de Benfica.

Você fez 78 anos e parece que as lápides dos cemitérios da memória decidiram vomitar pequenos fantasmas, veja as ruas de Lisboa amontoadas de gritos, a violência no norte de Moçambique, os prisioneiros que parecem exumar seus ossos em Tarrafal e põem-se a andar e há enclausurados na Cadeia de Repressão Colonial do Missombo. E parece que o Queiroz tem razão em disparar com as suas muletas ao trânsito que posiciona explosivos nos passeios, pois os fantasmas do nosso passado viram a cada dia pequenos deuses; o medo virou o amuleto mais seguro.