Crónica

Longe da praia /premium

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Não ser daqui não é apenas não ter aquilo a que se costuma chamar uma terra, mas passar por aqui sem um reconhecimento da natureza — paralelo do reconhecimento humano, muitas vezes também ausente.

Tenho quase a certeza de que ao longo de décadas em Lisboa os meus avôs africanos nunca foram à praia em Portugal. A natureza para eles é o metropolitano; o brilho dos néons do Rossio; Pepe, a glória do Belenenses; o acre alimado da amêndoa amarga.

São o africano solitário na aldeia; os velhos cabo-verdianos à sombra à espera do autocarro; o horticultor de fim-de-tarde, meio-bêbedo, que planta feijoeiros na berma da via-rápida sem se lembrar de que a CRIL não é São Vicente.

Na praia, não os consigo imaginar.

Eles estão mais e mais dentro de mim à medida que dou com a natureza como uma senha apenas disponível a quem já cá estava. Nunca beberam água da nascente, nem apanharam amoras. Não plantaram batatas na terra onde a vida os plantou, longe da praia.

Não foram procurados pelo chamado dos plátanos ao vento, nem terão visto um céu estrelado num horizonte desimpedido — nem um morcego que não fosse suburbano.

No arquivo digital do Estúdio Horácio Novais, dou com a sua capital, uma Lisboa que os precedera, pontilhado a preto e branco de reclames de Boas Festas, asfalto, repuxos, sobretudos e tipografia,  cidade em cujo rio nunca molharam os pés, de onde nunca saíram para subir uma serra. Talvez eles fossem numa dessas fotografias uma das sombras a avançar na calçada ao anoitecer, num casaco abotoado, aquecendo as mãos num pacote de castanhas com um sorriso desfocado, assimétrico.

A natureza é o primeiro dos luxos, vista daqui. Abstermo-nos dela uma nacionalidade engasgada que nos deixa incompletos. Aos poucos, eles fazem-se caseiros, geógrafos apardalados da Baixa-Chiado a Sacavém, senhores do cimento e de uma bazófia caduca que Lisboa não lhes arrancou pela raiz.

Nunca mergulharam, nunca perderam o pé. Habituaram-se ao banho de mangueira. Não tiveram sequer uma tarde de descanso à sombra de um pinheiro. Nem de um eucalipto. A natureza nem lhes sorriu, nem os deixou entrar. Em vez disso, queimaram-se com fósforos em lamparinas de azeite acesas em caricas nos lugares que aqui lhes calhou.

Poucos interditos são maiores a quem vem de fora do que esse. Não ser daqui não é apenas não ter aquilo a que se costuma chamar uma terra, mas passar por aqui sem um reconhecimento da natureza — paralelo do reconhecimento humano, muitas vezes também ausente. Quantas árvores, quantas serras, quantas falésias terá visto, tocado, pisado quem veio de fora, antes que a natureza se tornasse uma realidade distante e hostil e, enfim, nada?

Djaimilia Pereira de Almeida é autora de “Esse cabelo” (2015) e “Ajudar a cair” (2017). 

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