Na passada sexta-feira, percebi que Lisboa tinha, por acaso, encontrado a solução para os seus problemas de trânsito. Nessa manhã, tive de sair da cidade durante a hora de ponta. Tive assim aquela deliciosa satisfação de conduzir o meu carro no sentido oposto às filas do costume na ponte sobre o Tejo. Ao voltar à cidade, ao fim da manhã, segui para o centro, através do Rato e do Príncipe Real, e notei que o trânsito estava muito melhor do que é costume para uma sexta-feira. Mas essa não era uma sexta-feira normal: era o dia da marcha lenta dos táxis.

Quando há greve do Metro, o trânsito pára e os autocarros enchem-se até parecerem latas de carne com roupa e cabelos lá dentro. Naturalmente, estava a espera de ver um cenário parecido, por causa dos táxis. Reparei que havia apenas dois táxis a trabalhar a essa hora na zona do Príncipe Real, quando normalmente há dezenas, e ocorreu-me que, de facto, com 4000 táxis em São Bento, isso queria dizer que havia menos 4000 carros nas ruas do resto da cidade. Problemas de trânsito resolvidos.

Falo deste assunto apenas como uma cliente de táxis e de transportes públicos, e não como uma ideóloga nem uma analista de negócios. Tenho poucas noções de percentagens, subsídios, modelos de negócio ou sistemas desatualizados. Apenas sei que, por vezes, preciso de chegar rapidamente a um sítio, e apanho um táxi, em parte por que há sempre um perto de mim, em parte porque continuo a esquecer-me de fazer download da app da Uber. E é quando meto o pé dentro do táxi, que descubro o que me saiu na grande lotaria dos táxis.

Posso ter a sorte de apanhar um carro com um cheiro normal e com todos os equipamentos, como GPS, ar condicionado e travões. Ou posso ver-me de repente dentro de um tanque de guerra, sem amortecedores e com o cheiro entranhado de 30 anos de tabaco e de suor. Ou até pode ser um carro mais recente, mas já sem memória das pastilhas de travão. Posso entrar num carro cujo condutor ainda não aprendeu usar a embraiagem, mesmo depois de décadas ao volante. Posso encontrar um senhor — até hoje só apanhei uma vez um táxi conduzido por uma mulher — que é bem educado ou pelo menos civilizado, mas também posso encontrar um gajo que comunica através de grunhidos e que ressente a presença dos clientes no seu carro nojento e mal cheiroso. Ou um racista que gosta de falar muito, ou um grande fascista ou comunista que me quer contar tudo sobre a sua ideologia, ou um sexista que ralha com o rádio porque estão a dar notícias de futebol feminino em vez de futebol de gajos.

Ao ver o grande gesto de irmandade que os taxistas fizeram para os telejornais na sexta-feira, fiquei estupefacta. Quantas vezes tenho estado num táxi a ouvir os apitos do táxi que segue atrás, com o taxista a mandar para o c****** o meu taxista, e o meu taxista a mandá-lo para o mesmo sítio, e a conduzir em marcha-lenta de propósito, enquanto me explica que todos os seus colegas são bandidos.

Numa das minhas primeiras crónicas para Observador, escrevi que as indústrias de serviço em Lisboa tinham finalmente aprendido a tratar os seus clientes como clientes: a tratá-los com gentileza e respeito, de modo que eles voltem outra vez e se tornem fiéis. Em 2016, em quase todo o comércio em Lisboa, somos recebidos com um sorriso. A cidade tornou-se (na maior parte) um sítio alegre para viver, fazer negócios e comprar uma sandes. A única excepção são os táxis. Abençoados sejam os poucos taxistas bem dispostos e respeitosos, porque a maior parte parece achar que ainda vivemos numa qualquer Idade Média, quando toda a gente tinha o emprego garantido e podia cumprimentar o próximo com um grunhido ou com uma zombaria impaciente e mal disposta.

Pergunto-me quantas pessoas finalmente se lembraram de fazer o download da app da Uber na sexta-feira passada.

(traduzido do original inglês pela autora)

The taxi lottery in Lisbon

The other day, I realised that Lisbon had accidentally stumbled upon a solution for her traffic problems. I had to go out of town for the morning, and drove past the usual morning rush hour queues that were coming in from the bridge and from the A5. I had that delicious feeling of sailing across the bridge in the other direction. On my way back into town, late in the morning, I sailed back across the bridge and drove into the city centre, through Rato and Príncipe Real, and the traffic was far better than usual, for a normal Friday. This wasn’t a normal Friday.

When the metro goes on strike, traffic comes to a standstill and buses fill up until they look like tins of luncheon meat with added clothes and hair. I was expecting to find the same on Friday morning because of the slow march of the taxis. I spotted two taxis working when usually at that time there would have been dozens and it hit me. If you park 4000 taxis in a São Bento shaped carpark, that’s 4000 fewer cars in the rest of the city. Traffic problem solved.

I come at this solely as a user of taxis and of public transport, rather than as an ideologue or as a business analyst. I know little of percentages, of subsidies, of business models or outdated systems. What I do know is that if I need to get somewhere in a hurry, I take a taxi, partly because there is usually one around, and partly because I keep failing to have remembered to downloaded the Uber app. And the moment I step into the taxi, I discover what I have won today in the Great Taxi Lottery.

I might get lucky and get into a sweet smelling brand new car with all mod cons. I might find myself in a 30yr old tank with no suspension and 30 yrs of fag smoke and sweat ingrained in it, or a fairly new car that still smells ok but whose brake pads are a distant memory. I might get into a car whose driver hasn’t worked out how to declutch after many years of doing this. I might find a delightful man — to date, I have only caught one taxi driven by a woman — who knows how to be courteous or, at the very least, civil, or I might get a grunter, who resents anyone getting into his disgusting smelling car, or a talkative racist, or an enormous fascist or communist who wants to tell me all about it, or a sexist who shouts at the radio because it keeps talking about women’s football instead of men’s football.

Watching their lovely “band of brothers” act on the telejornais made me laugh, too. How many times have I got into a taxi only to have some impatient taxi behind bleating his horn and hurling insults out of his window, to the car I am in, and the driver of my car hurling the insults right back at him and driving slowly on purpose, and telling me that the others are a bunch of bandidos.

As I wrote in one of my first crónicas in Observador, the service industries of Lisbon have finally learned (most of them) to treat their customers as just that, customers. Treat them well, with kindness, with respect, and they’ll be loyal. Almost everywhere you go in Lisbon in 2016, you are greeted with a smile and the city has become (mostly) a joyful place to live and do business and buy a sandwich. Not in the taxi business, though, where blessed are the few cheerful and respectful drivers, while the rest of them think we’re still in the good old days, when everyone was owed a living and greeted the world with a grunt or a sneer and impatience and grumpiness.

I wonder how many people finally remembered to download the Uber app on Friday morning.