Emmanuel Macron será o próximo presidente francês. Na segunda volta das eleições presidenciais, não há cenário expectável em que seja ultrapassado por Marine Le Pen. Quer isso dizer que podemos suspirar de alívio? Infelizmente, não. É certo que se evitou o suicídio político de entregar a presidência francesa a Le Pen ou a Mélenchon, dois inimigos confessos do projecto europeu, que não descansariam enquanto não reduzissem a pó os alicerces da União Europeia. Mas verificou-se também a derrota dos partidos tradicionais do poder francês, cujos candidatos falharam o acesso à segunda volta. Isto em detrimento de Le Pen e de Macron, este um candidato sem definição ideológica clara e sem filiação partidária. O que há realmente a festejar na (quase certa) eleição de Macron, na segunda volta das presidenciais, para além do facto de ele não ser Le Pen? Por enquanto, nada.

O problema em Macron não surge das suas ideias ou propostas políticas que, reconheça-se, têm méritos e, apesar de naturais diferenças, alguma proximidade com o liberalismo de François Fillon. Macron promete reduzir o número de funcionários públicos em 120 mil em cinco anos, enquanto Fillon aponta aos 500 mil e nenhum outro candidato assume tal propósito. O centrista abre a porta a que se possa trabalhar para lá da idade da reforma (62 anos) para melhorar a pensão (Fillon propôs subir progressivamente até aos 65 anos). Ambos defenderam o endurecimento das regras de acesso ao subsídio de desemprego ou mais autonomia nas escolas públicas. Ambos anunciaram o aumento da capacidade das prisões em 15 mil novos lugares, garantiram o reforço do Frontex (a defesa das fronteiras europeias) e asseguraram a permanência da França na NATO. Macron e Fillon têm mais em comum do que muita gente à esquerda gostará de reconhecer.

O problema em Macron está na ausência de força política. Ele é um homem isolado, sem o apoio de uma máquina partidária, sem lealdades consolidadas ao longo dos anos, sem currículo político que se veja. E vai liderar uma França atormentada por uma economia decadente e em plena crise de identidade. A política em França faz-se com um olho nas ruas e ninguém vence essas batalhas sozinho. Ora, quem estará ao lado de Macron quando este pretender, contra os protestos nas ruas, impor as reformas liberais que defendeu em campanha? Provavelmente, ninguém.

A situação é problemática se olharmos a dois grandes desafios da França de hoje. Primeiro, a persistente resistência a reformas estruturais. Muito do que Macron propõe já decora as páginas dos programas eleitorais há vários anos. Só que cada gesto reformista tentado nesse sentido encontrou bloqueio na rua, essa instituição política que em França comanda os rumos da nação e apavora políticos, para que tudo fique como está. Exemplo? A liberalização do mercado laboral. Recorde-se 2006 e a lei do CPE (Contrat Première Embauche – contrato de primeiro emprego) que, tendo sido discutida e aprovada no parlamento francês, foi abandonada 10 dias depois, porque o governo de Dominique de Villepin (que agora apoiou Macron) não aguentou a pressão dos estudantes, dos partidos à esquerda e dos sindicatos. Sozinho, como poderá Macron obter desfecho diferente?

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O segundo desafio está na crise de identidade francesa, intimidada pela tensão social com as populações muçulmanas, perante indicadores preocupantes de radicalização sob o espectro do terrorismo. É dessa tensão que a sua adversária Marine Le Pen se alimenta, é pela insatisfação e pela insegurança que cativa eleitores. Note-se que, durante a campanha, fugiu a todas as grandes questões relacionadas com reformas do Estado – concorda com a manutenção das 35 horas semanais de trabalho, opõe-se ao aumento da idade de reforma, não tem posição clara sobre a dimensão da administração pública. Focou-se, sim, na identidade nacional e na relação com a Europa – proibição do véu islâmico, fechar mesquitas com indícios de radicalização, serviço militar obrigatório, mais polícia, abandono do Espaço Schengen, saída da NATO, referendos sobre matérias europeias e provável saída da União Europeia. A estratégia valeu-lhe 7 milhões de votos e um lugar na segunda volta eleitoral. Não dá para ignorar. E, nesse campo, a resposta de Macron fica muito longe de uma solução concreta.

Entre os festejos de ontem à noite, vários comentadores declararam o início da VIª República francesa, sem os grandes partidos na primeira fila e com novos equilíbrios partidários e ideológicos. Talvez até seja o caso. Mas de que servirá uma nova República se essa apenas trocar os protagonistas para repetir os erros da anterior? É essa a pergunta que interessa. E a resposta caiu nas mãos de Macron.