Há palavras que nascem tortas e nunca mais se endireitam. É pena, mas é a realidade. Madrasta e padrasto são do pior que há. Têm uma carga tão negativa, tão corrosiva, que muitos enteados evitam a todo o custo a terminologia e usam exclusivamente o ‘marido da minha mãe’ ou a ‘mulher do meu pai’ para se referirem aos padrastos e madrastas.

A coisa vem de longe e não faço ideia onde começou, mas penso que, no universo feminino, a madrasta da Cinderela não estará inocente pois a sua maldade povoou para sempre o imaginário comum de crianças em todo o mundo.

Acontece que muitos séculos antes de Walt Disney ter dado cara, voz e filhas muito feias à madrasta má, já havia contos e fábulas em todas as civilizações que tocavam no medo ancestral de perder a mãe e a ver ser substituída por uma mulher desprovida de sentimentos maternais para com filhos que não são seus.

Quanto aos padrastos, não sei de nenhuma história com impacto compatível ao da Cinderela, nem tão pouco sei se os Irmãos Grimm se detiveram nos maus passos dos homens que casam com mulheres viúvas, ou com filhos de casamentos anteriores, mas a fama dos padrastos também vem de longe e, digamos assim, não é famosa.

Vida madrasta é uma expressão antiga, porventura em desuso, mas todos conhecemos o peso que arrasta. Nunca é leve. Fala sempre de uma sucessão de dramas, de uma existência severa, muito castigada, por vezes dolorosa ou até insuportável.

Penso que nenhum acordo ortográfico será capaz de resgatar palavras tão negativas como estas e, assim sendo, a solução pode passar por começarmos a aliviar-lhes a carga. Talvez isso seja possível integrando ‘mãe’ e ‘pai’ na terminologia das famílias reconstruídas. Se em vez de madrasta e padrasto passarmos a usar mãe-drasta e pai-drasto, talvez a coisa fique mais suave. Claro que isto passa pela ação e não é possível ficar apenas na compreensão. Tem que ser acompanhado de sentimentos, palavras e gestos de ternura e aceitação.

Mãedrasta e paidrasto são palavras que soam esquisitas, bem sei, mas não estamos a falar de poesia, nem de beleza semântica. Andamos apenas a ensaiar novas maneiras de encarar realidades que já não são novas. Com ou sem nome, madrastas e padrastos existem desde que o mundo é mundo.

A necessidade de criar uma nova palavra nasce no coração de muitos homens e mulheres que se relacionam com os filhos que herdaram por casamento, ou por vida em comum, e não se revêm na negatividade da designação. São mulheres e homens que partilham a vida, a casa, a mesa e a intimidade familiar com filhos que não geraram, mas que amam e respeitam como se fossem seus.

Todos os que vivem esta realidade por dentro, que a experimentam no seu quotidiano, sabem que, à partida, não é fácil aceitar estranhos em casa. Os filhos, porque estranham sempre que os pais não estejam com as mães (e vive-versa); os pais porque têm maneiras diferentes de educar e nem sempre reconhecem os valores, as maneiras, os modos de agir e de reagir de crianças e jovens que não viram nascer nem crescer. Mesmo quando a mãe ou o pai já morreram e, secretamente, os filhos anseiam por voltar a ter em casa uma figura maternal ou paternal, há sempre uma estranheza inicial nas relações.

O tempo, o amor e o respeito são grandes escultores e é pelo tempo, pelo amor e pelo respeito que tudo se torna possível. Sempre que homens e mulheres adultos dão tempo aos filhos pequenos para se adaptarem às novas circunstâncias, as coisas têm mais probabilidades de correr melhor.

Os filhos mais crescidos são capazes de perceber racionalmente que existem outras realidades, mas os mais novos precisam de continuar a sentir-se muito amados e, acima de tudo, precisam de ter a certeza absoluta de que ninguém vem roubar o espaço que ocupam no coração da mãe ou do pai. Mais, têm uma necessidade vital de sentir que continuam a ser a primeira e última prioridade dos pais. Haja o que houver, venha quem vier ou esteja quem tiver.

Sempre que o namorado/marido da mãe e a namorada/mulher do pai decidem respeitar escrupulosamente a identidade, a sensibilidade e as necessidades de cada filho que herdam, a estranheza inicial dilui-se e desaparece completamente. Mas isto só se consegue se cada elemento do casal assumir o papel de mãe-drasta e pai-drasto. Ou seja, se não se armar em mãe nem pai, mas cultivar pelos filhos que não são seus um amor verdadeiramente maternal e paternal.

Difícil? Sim. Mas não impossível. Sobretudo trata-se de um processo que requer amor, tempo, paciência (muita paciência!), bondade e respeito. Exige tudo menos um ‘olhar de fora’, daqueles sempre prontos a fazer comparações, a criticar ou a pôr de castigo. Nada pior para a construção de uma boa relação com enteados do que fazê-los sentirem-se a mais, permanentemente avaliados ou julgados. Talvez haja uma coisa pior: invadir-lhes o espaço e impor-lhes uma presença estranha esperando que fiquem contentes e se portem sempre bem. Ainda mais perverso? A comparação explícita ou implícita com os ‘meus próprios filhos’, catalogando os filhos dele ou dela com rótulos que deixam marcas.

Voltando à terminologia, é cada vez mais importante calibrar o peso das palavras negativas, não só pelos embaraços que causam a tanta gente, como pela justiça que deve ser feita aos homens e mulheres que realmente agem como pais para os seus enteados.

Curiosamente, ‘enteados’ é uma palavra tão abrangente como padrastos ou madrastas, (mais que palavras, são conceitos!), mas esta tem os dois lados igualmente ativos. Tanto pode ser usada de forma terna e carinhosa, como depreciativa ou castigadora. Há de tudo, mas a palavra não está tão perversamente refém da sua carga negativa.

A questão é demorada e tão complexa que não existem truques infalíveis. A única pista que nunca falha é a da confiança, porque gera sempre confiança, assim como o caminho do respeito, porque gera sempre mais respeito. Esta sim é uma matemática infalível.