Ele é um rapaz calado e observador que parece interessar-se por tudo e está sempre com um meio sorriso. Senta-se atrás nas salas e fala pouco, mas é capaz de alimentar conversas mais longas quando conhece as pessoas. Tem olhos claros, limpos, e esse meio sorriso que nunca se desvanece. Tranquilo e confiante, pode dar a ilusão de ser tímido, mas é a ilusão que criam os que falam pouco e ouvem muito.

Nas aulas ocupa o seu espaço com naturalidade, não interrompe os outros, permanece atento horas a fio e responde criativamente a todos os desafios que lhe são feitos. Discreto, pode parecer que passa despercebido entre os estudantes, mas é impossível não reparar nele porque tem uma presença forte, e sempre aquele meio sorriso desenhado na cara. Se calhar nem sabe isso. Não sabe que os seus olhos e a sua cara sorriem mesmo quando está sério.

Estuda tanto como os seus pares e, tal como eles, tem fases mais e menos difíceis na universidade. É um entre mil a atravessar corredores e a cruzar caminhos com colegas e professores. Podia ser realmente apenas mais um bom aluno numa boa universidade, mas há qualquer coisa nele que desperta a atenção. Que interpela e faz parar.

Comporta-se nas aulas como tantos outros. Cumpre, é inteligente, focado e bem-educado. Os pares gostam dele porque está sempre pronto a ouvir e a ajudar. Os professores, esses, apreciam sempre a atitude tranquila e sem perturbações dos seus alunos. Deste ou de outros. O rapaz afinal é sem história. Ou talvez não.

Na última aula do semestre foi o primeiro a levantar-se perante a turma, para dizer o nome da pessoa que mais o inspira no mundo. Desafiados a procurarem e identificarem um misfit, um inconformado, alguém que foi capaz de ‘dar a volta’, os alunos fizeram todos a sua cartografia de talentos iluminantes. Este rapaz levantou-se e com a tranquilidade do costume, disse: a minha mãe.

Comove sempre ver um rapaz de vinte anos assumir publicamente com gratidão o amor pela sua mãe, mas mesmo assim continuaria a não haver história, digamos assim. E foi então que ele resumiu o essencial em poucas linhas. A mãe apesar de ser nova já passou por muito. Há um par de anos teve aquilo que pareceu a todos ser apenas uma gripe, mas degenerou numa septicemia e culminou numa decisão dramática, radical: ou lhe eram amputados todos os membros ou morria.

A decisão foi cortar. Do dia para a noite esta mulher de pouco mais de 40 anos viu-se amputada de mãos e pés, braços e pernas. E passou o inimaginável em dores e sofrimentos, padecimentos e angústias, pesadelos e membros fantasmas, martírios, tormentos e lágrimas. Claro que o filho, contido como é, não falou de nada disto. Apenas disse o essencial. Relatou o facto, resumiu o sucedido e sublinhou que, por tudo aquilo que viu e viveu nestes anos em casa; por toda a força e coragem que reconhece na mãe, em cada dia; por cada gesto de superação dela que reforça a fortaleza interior do pai, dos filhos e restante família, não conhece nem nunca vai conhecer ninguém mais forte e mais inspirador que a mãe.

Ficamos calados. Sem palavras, apenas silêncio. O rapaz voltou a sentar-se tranquilamente, com aquele seu meio sorriso, aqueles seus olhos claros e limpos. Voltou a apagar-se, dando espaço e foco aos outros trinta que falaram depois dele, mas não como ele.

No fim da aula todos saíram, mas o rapaz atrasou o passo e pudemos falar só os dois. Percebi que não se importava de me contar o que não tinha dito em alto a toda a turma. E contou. E eu fiz perguntas e ele deu respostas. Despedimos-nos já no corredor e vi-o ir, afastar-se com o seu ar firme e tranquilo. E pensei na mãe, claro, mas sempre de olhos fixos neste filho. No rapaz discreto, de aparência banal, que ninguém diria ser um dos pilares diários que amparam a sua mãe e a ajudam a caminhar, pois para quem nasceu com mãos e pés, braços e pernas, não é fácil adaptar-se à nova realidade depois de lhe serem amputados todos os membros.

Passaram semanas e voltei a estar com o rapaz na tarde em que todos os alunos, de todas as turmas, fazem uma apresentação de palco, um grande espectáculo que deixa marcas em todos os que participam e assistem. São mais de duzentos e entre eles há muitos outros como ele, corajosos, valentes, bravos e discretos. Rapazes e raparigas alegres e aparentemente leves que afinal vivem situações familiares exigentes. Estudantes que atravessaram e atravessam realidades difíceis, e até alguns que carregam verdadeiras cruzes. Olhando para eles, ninguém diz. Mas conhecendo-os melhor ficamos a saber que são verdadeiros heróis.

O grupo do rapaz pediu-lhe para trazer a mãe ao palco, mas ninguém sabia se ela aceitaria vir. Nem se seria capaz de subir e descer os degraus de cena. No segredo próprio de cada grupo ensaiaram um teatro de sombras, com as luzes certas e um pano branco ao alto e a todo o comprido. No dia do grande espectáculo foram os penúltimos a representar a sua peça. Do lado de cá não se percebia bem quem estava do lado de lá. Sombras a fazerem sombras para contarem uma história de amor. Quando baixou o pano e se acenderam as luzes, o rapaz avançou para a boca de cena e falou da sua mãe. Depois deu um passo atrás e abraçou-a. Ela estava de pé, sobre as suas pernas artificiais, e devolveu o abraço em silêncio, com lágrimas. O rapaz deu à sua mãe bonita uma flor também muito bonita, de pé muito alto, que ela segurou amorosamente entre os ganchos que fazem de dedos. A mãe não falou e o rapaz não recitou versos, nem disse nada que já não tivesse dito antes, mas as suas palavras, o seu abraço demorado e a flor de pé alto bem segura pelos ganchos que servem de mãos foram o poema vivo mais belo que vi até hoje.

A imagem desta mãe e deste filho hão-de acompanhar-me por toda a vida.