Na véspera, a minha filha de 7anos choramingava insistentemente, tentando em vão avistar um lobo (Canis lupus) do Gerês, até que acabou mesmo a chorar a sério com uma picada de abelha à beira do gélido rio Homem, pondo fim abrupto à excursão desse dia. Com chuva, o programa para o dia seguinte era mais humilde: visitar o Castelo de Lindoso. Caminho de mil verdes, curto e fácil de percorrer na companhia das plácidas Vacas Cachenas e dos Garranos indiferentes à chuva. Ainda nada de lobos.

Trazíamos connosco o farnel de almoço, assim a pandemia o obrigava. Estacionei junto ao Castelo e mal abri a porta do carro, cabeça e patas dianteiras de um cão (Canis lupus familiaris) entraram saudando amistosamente, tanto que instintivamente retribuí com uma festa no cachaço do inusitado intruso. A reação da minha mulher àquelas súbitas fiadas de dentes e ao porte do animal não foi a mesma e em defesa da família e de um almoço tranquilo atraí-o para longe dali. Quando regressei, lá estava ele de volta com o mesmo entusiasmo. Conduzi ,então, atrapalhadamente, pelas ruas estreitas de Lindoso tentando em vão despistar o obstinado cão. Um cão grande, mas não tanto assim, com pelo cerdoso amarelo cor de cão e borrifos de fuligem no focinho, como que desenhando-lhe um rosto, um rosto simpático. Desistimos e resignámo-nos a almoçar dentro do carro, planeando terminar o assunto com a partilha dos restos no final. E assim foi.

Dirigimo-nos finalmente para o Castelo, rendidos àquela surpreendente companhia que mesmo de barriga cheia, ou por isso mesmo, se mantinha connosco. Subitamente, tomou a dianteira e seguimo-lo porque era também aquela a nossa rota. Foi só dentro das muralhas do Castelo de Lindoso que percebemos toda a falta de chá que até aí tínhamos tido para com o nosso incrível anfitrião, mais que um simples cão. Castro, chamámos-lhe assim pelo primo Laboreiro da região e pela fortificação que por mérito conquistou. Decidido, escalava às ameias atravessando vertiginosos caminhos com passos firmes e saltos assombrosos. Nos melhores ângulos ficava estático na sua melhor pose, dando tempo para a fotografia sair perfeita. Repetia os movimentos, dando várias chances ao turista, permitindo novos ângulos e fotografias de grupo, com o Castro, claro, em destaque. Mais à frente, de repente, ficou eufórico e começou a fazer uma festa enorme que só compreendemos ao dobrar a esquina para a saída – tinha terminado a visita guiada ao Castelo de Lindoso.

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A tentação de o trazer existiu, mas o Castro, nisso, nem de perto insistiu e, instantaneamente, percebemos que seria o mesmo que trazer o Castelo, uma Vaca Cachena ou um Garrano. O Castro é o resultado de todo o movimento de preservação da natureza, da arquitetura e dos modos de produção preconizados pelo Parque Nacional Peneda-Gerês (PNPG).

Escrevo estas linhas, porque buscando online não encontrei nada sobre este magnífico postal do PNPG, pretendendo portanto garantir que a proteção dada aos Canis lupus da região se estenda a este Canis lupus familiaris e a outros que resultem desta harmonia única entre o Homem e a Natureza que é o Gerês.