Vários estudos internacionais e nacionais, realizados junto da população portuguesa, demonstram que há um aumento do número de internamentos por enfarte durante os meses de inverno, de novembro a março, com o maior registo de número de casos a ocorrer em dezembro.

Tudo indica que existem vários fatores que contribuem para o aumento da incidência de enfarte no inverno, entre os quais a temperatura ambiente. É referido por alguns autores, que a descida de 10ºC é acompanhada de um aumento do número de enfartes em cerca de 7%.

Para além da temperatura, também a pressão atmosférica e a redução das horas de sol poderão estar envolvidas. Há a possibilidade de fatores inflamatórios, associados às infeções respiratórias, mais comuns no Inverno, contribuírem também para esta situação.

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal. A prevenção será a melhor arma para diminuir esta prevalência e deverá ser reforçada para o período do inverno. Por isso mesmo, é fundamental o bom controlo de doenças como a hipertensão arterial, a diabetes e o excesso de colesterol – que contribuem para a ocorrência de enfarte do miocárdio (ataque cardíaco).

Quando a pandemia por Covid-19 surgiu, os portadores destas doenças viram as suas consultas habituais desmarcadas, as análises de controlo adiadas e tiveram dificuldade na renovação do receituário necessário ao controlo da doença.

Aos poucos, procurando garantir que os cuidados de saúde são prestados em segurança, as unidades de saúde retomaram a atividade clínica programada, mas muitas pessoas e, em particular, os doentes crónicos e cardiovasculares – devido ao alerta de que estão em maior risco para Covid-19, ganharam receio na procura dos cuidados médicos habituais.

A estes factos poderão ser associados outros, de fatores de risco para as doenças cardiovasculares, como o sedentarismo e o aumento de peso – que poderão ter ocorrido nestes meses. devido à obrigatoriedade da permanência em casa, com impossibilidade de fazer exercício e associado, também, a prováveis excessos alimentares, contribuindo assim para o agravamento da hipertensão, da diabetes e do colesterol. Não podemos também esquecer o tabagismo, que neste período de maior stress poderá ter aumentado.

Todas estas razões provocaram, de uma maneira ou de outra, um desregular no controlo da doença cardiovascular. Será urgente tomar medidas para inverter esta tendência, principalmente porque o Inverno está próximo.

Mas será que poderemos inverter a tendência gerada pelo pouco controlo da doença cardiovascular?

Sim, poderemos certamente, mas para isso creio que é necessário voltar às consultas onde previamente era feito o seguimento, realizar os exames que eram habitualmente programados, como análises, eletrocardiogramas e outros exames cardiológicos necessários para o acompanhamento da doença cardiovascular.

Mas também é necessário ter cuidado com a alimentação, fazendo restrição do sal, observar o consumo moderado de hidratos de carbono (pão, massas, batatas, arroz), evitar os açúcares e as gorduras animais. O controlo do peso é também um fator muito importante, por isso sugiro iniciar exercício físico de modo progressivo, realizando exercícios aeróbicos (caminhar, nadar, andar de bicicleta), idealmente durante 30 minutos diários, cinco dias da semana. Deixar de fumar é também uma medida fundamental e, se necessário, procure ajuda numa consulta hospitalar de desabituação tabágica.

Coloque de lado receios e cuide da sua saúde. Foram criados circuitos seguros para doentes não Covid-19 (Covid-19 Free). À entrada do hospital, é feito controlo de temperatura e desinfeção das mãos, o uso de máscara é obrigatório durante toda a permanência no hospital, nas salas de espera e nas filas de atendimento são mantidas distâncias de segurança entre doentes. Nas salas de consulta e locais de exame, entre doentes, é feita a desinfeção dos materiais que estiveram em contacto com cada doente.

Os profissionais de saúde também estão sujeitos ao controlo de temperatura diária e ao uso de máscara. A desinfeção das mãos é feita com regularidade e sempre que necessário. Por todas estas razões, é seguro voltar às consultas.

Mas, se tiver dúvidas, não hesite em procurar saber junto do seu médico assistente qual o funcionamento das consultas. Eventualmente, também haverá a possibilidade de fazer teleconsulta. É sempre uma alternativa e poderá esclarecer dúvidas e receber orientações sobre a melhor maneira de controlar a sua doença.

Os meses de inverno aproximam-se e, com o frio, o aumento do enfarte acontece, este ano com provável número acrescido por inexistência de um bom controlo das doenças associadas. Mas, provavelmente, ainda iremos a tempo de alterar esta previsão, se retomarmos os cuidados com a nossa saúde. Depois das férias coloque na sua lista pessoal de prioridades uma vinda a uma consulta generalista – de Medicina Geral e Familiar ou de Medicina Interna – para despiste de fatores de risco para doença cardiovascular, ou consulta da especialidade onde habitualmente é seguido, nos casos de doença já conhecida.

É sempre melhor prevenir, mas não adie o tratamento. Se tiver algum sintoma de enfarte, não fique em casa, procure ajuda, os hospitais são seguros.