O cancro do pulmão é o tumor que maior mortalidade determina em todo o Mundo. Em Portugal, continua a ser a principal causa de morte por cancro, no sexo masculino, sendo a taxa de mortalidade por cancro do pulmão nos dois sexos superior à do cancro do cólon, mama e próstata combinados.

Em 2018 foram diagnosticados em Portugal 5280 novos casos e os números continuam a aumentar. Ao longo dos últimos 50 anos, a mortalidade por cancro do pulmão cresceu de forma persistente, verificando-se, contudo, nos últimos anos, alguma desaceleração no sexo masculino, representando as mulheres, atualmente, 25% do número total de casos de cancro do pulmão, em Portugal, com uma tendência crescente, numa provável relação com o aumento dos hábitos tabágicos, no sexo feminino.

Os fatores de risco de desenvolvimento do cancro do pulmão, vão desde os estilos de vida, sendo o tabagismo o principal fator desencadeante, mas também a exposição a cancerígenos ocupacionais e fatores genéticos.

Atualmente, 25% dos doentes com cancro do pulmão de não pequenas células – o mais frequente – são não fumadores e pensa-se hoje que possam existir dois tipos deste cancro do pulmão com diferentes características, o cancro do pulmão do fumador e o cancro do pulmão do não fumador e que estes, mesmo em doença avançada, apresentam prognósticos diferentes com sobrevidas e qualidade de vida diferentes.

O  doente não fumador com cancro do pulmão tem maior possibilidade de ser portador de uma mutação específica que lhe permite efetuar uma terapêutica personalizada, dirigida aos recetores do tumor, com ganhos na sobrevida e qualidade de vida, mesmo quando diagnosticado em fases avançadas, como acontece com a maior parte dos doentes, dado que este tumor pode permanecer assintomático até uma fase tardia.

Ser mulher, não fumadora, e apresentar um determinado tipo de cancro (adenocarcinoma) confere-lhe maior possibilidade de ter uma mutação genética, que na população de doentes portugueses é de cerca de 15%, podendo beneficiar com este tipo de terapêuticas personalizadas.

A propósito, lembro o caso de uma doente de 56 anos, não fumadora, que há quatro anos deu entrada no Atendimento Permanente do Hospital CUF Porto por dores de cabeça, tendo a TAC cerebral, efetuada de urgência, apresentado duas lesões cerebrais. Os estudos posteriores na procura do tumor primário identificaram uma massa pulmonar, tendo sido concluído tratar-se de um tumor primário do pulmão (adenocarcinoma pulmonar) com disseminação para outros órgãos, nomeadamente cérebro e coluna. Foi identificada a presença de uma mutação genética, o que permitiu iniciar uma terapêutica oral personalizada e tratar localmente as lesões extratorácicas no cérebro e coluna.

Atualmente, a doente continua estável, praticamente sem lesões avaliáveis e levando uma vida considerada normal, mantendo as suas atividades de vida diária e com a sua terapêutica em curso.

Este caso vem reforçar, a propósito do Dia Mundial Sem Tabaco, que se comemora a 31 de maio, a importância de não fumar, uma vez que, mesmo que venha a ter um cancro do pulmão (por outros fatores), poderá ter melhor prognóstico.

Para os fumadores também uma mensagem: Pare de fumar, já que, para além de todos os riscos inerentes ao tabaco, nomeadamente cardiovasculares, neoplásicos, e outros, pode correr o risco de ter um tumor com indicação cirúrgica e ser recusado por falta de condições anestésicas, dadas as alterações frequentes da função respiratória nestes doentes.

Por último, queria apelar a todos as pessoas, numa época ainda de pandemia, que perante queixas objetivas não deixem de se dirigir, tão rápido quanto possível, ao seu médico assistente. Quanto mais precocemente for efetuado o diagnóstico melhor será o seu prognóstico. Os hospitais estão preparados para receber, com segurança, os doentes em consulta, efetuar os exames que se mostrem necessários e os respetivos tratamentos médicos ou cirúrgicos.