1. Na Europa, pela Europa fora, os imigrantes ilegais são culpados.

Em Itália, na Itália das pedras velhas e das pizzas, 500 mil imigrantes ilegais são visados pelo programa do governo que não o chegou a ser, projecto de repatriamento prioritário.

No Reino Unido, a Albion radiosa de Meghan, a ameaça dos imigrantes e afins levou ao brexit.

Na Hungria, na Polónia e nos Balcãs culpam-se os estrangeiros, imigrantes e refugiados de todos os males, como pestíferos a expulsar; contra eles, crescem muros como cogumelos.

Em França, um imigrante maliano ilegal, sem papéis, salvou uma criança de cair para a morte, ao escalar quatro andares sem hesitar, com risco de vida. Foi recebido por Macron, foi-lhe outorgada uma medalha por bravura, prometida a legalização e um emprego nos bombeiros.

Não vou fazer um discurso sobre a natureza essencialmente boa da maior parte das pessoas, porque na verdade não estou seguro que as pessoas em geral sejam essencialmente boas. Nem vou insistir no acto do jovem Mamoudou, de 22 anos. No fundo, o maliano só cumpriu a sua obrigação, pagando à sociedade francesa o preço de habitar ilegalmente o país, obrigação que  nenhuma das pessoas que assistiram à quase queda da criança tinha.

Excluo destas palavras qualquer reflexão sobre o gesto cavalheiresco, só levado a cabo porque o Sr. Gassama, que há muito tempo se aproveita da bondade da République Française e do seu sistema de segurança social, viu aqui uma oportunidade para subir na vida. Não, não se trata do Homem-Aranha, nem do Super-Homem, apenas um imigrante ilegal habituado a subir a varandas para assaltar as casas, sem perfil para a função de herói.

Quero apenas assinalar a hipocrisia. Mamadou Gassama, um jovem corajoso que não hesitou em correr risco de vida para salvar a vida de uma criança, era até ao minuto anterior um imigrante ilegal indocumentado e abusador, que devia ser expulso de França pela lógica implacável dos partidos xenófobos e racistas.

Não mais. Mamadou será francês, terá um emprego. Não deixará de ser para alguns partidos e para muitos europeus, um imigrante indesejado.

2. O que nos leva a Itália e à nova crise governativa.

Talvez o Presidente Matarella tenha cometido o maior erro político da sua (já longa) carreira. Ao vetar o nome de Paolo Savona para Ministro da Economia proposto pela coligação Lega-5 Estrelas, levou à desistência do indigitado primeiro-ministro Giuseppe Conti. Deve seguir-se um governo técnico, provavelmente chefiado por Carlos Cottarelli, um ex-director do FMI com fama de especialista em cortes na despesa pública (há quem diga que é só fama).

Cottarelli, a confirmar-se, preparará novas eleições. E é aqui que a obra se complica:

A crer nas sondagens e face ao inevitável processo de vitimização dos partidos antissistema Lega e 5 Estrelas, tudo se pode complicar naquelas eleições, com crescimento acrescido daqueles partidos. A rejeição do euro e em parte da integração europeia deverá acentuar-se, com as complicações inerentes. O discurso da “ditadura” da “ilegítima Bruxelas” ganha fôlego. E continuará a agravar-se o “outro” problema complexo da vida italiana – a imigração e os refugiados. Sem um governo estável e forte, capaz de lidar com as instituições europeias, de forma honesta e resoluta, aumentará a rejeição do projecto europeu (euro, burocracia, ditames ilegítimos). Mesmo que seja injusto e, sobretudo, afastado da realidade.

Contempla-se a paisagem europeia e de tudo um pouco se vê. Governos instáveis ou muito fracos, divisões nacionais – ou nacionalistas (não é a mesma coisa) -, pulsões separatistas, inverno demográfico, programas e partidos populistas, ou mesmo nacionalistas.

3. Mais obras. Obras e obras.

Um pouco por toda a cidade de Lisboa prédios antigos caem, dão lugar a habitações de luxo para os turistas (maioritariamente), nalguns raros casos mantém-se apenas a fachada.

Há um prédio algures na rua da Lapa, em Lisboa, que substitui um imóvel icónico do século XVIII. A notícia gerou uma indignação noticiada pelos jornais. O arquitecto diz que a casa depressa estará assimilada na cidade e que a “moradia cor-de-rosa de estilo pombalino, com janelas de guilhotina, frescos e azulejos centenários e sobreportas em vidro no interior” até não tinha grande valor patrimonial. Vai daí, toca a fazer um prédio modernaço com seis pisos. Mais abaixo, junto ao rio, ao comboio do Estoril e na Av. da Índia, um novo Hospital ganha forma. Ao tempo da aprovação houve forte discussão na CML, mas agora parece que fazer um hospital naquele local, com uma via rápida ao lado e perto do rio, um rio que facilmente provoca cheias, não faz grande confusão. Não há na cidade local mais apropriado, que não seja turístico, seguro, com acessibilidades fáceis e sem transtornar os hábitos e costumes locais?

Saudade da Lisboa antiga? Há muita coisa boa a ser feita. Mas é preciso cuidar do património da cidade; depois de destruído, não volta.

  1. Morgan Freeman. Mais um octogenário acusado de assédio por mulheres que com ele

contracenaram. Lê-se as notícias e das duas, uma: ou assédio é um crime tão conceptualmente rico que vai do piropo à violação, ou então as acusadoras, os jornalistas que reproduzem as suas palavras e todos quantos lhes dão crédito, esquecem-se que cada acusação sobre acções que, na pior das hipóteses, são tentativas desgraçadas de ter graça, há pelo menos um crime grave que se torna menos grave.

Proponho um período máximo para este tipo de queixas (um ano?). E que se reescreva o dicionário: onde se lê “Piropo. s.m. galanteio, frase amável ou lisonjeira dirigida a alguém especialmente mulheres” substitua-se “amável” por “execrável”, “ou” por “e” e “lisonjeira” por “dispensável”. Onde está “especialmente mulheres”, leia-se “especialmente toda a gente”.

E comece-se já a investigar a palavra “galanteio”. Suspeito, muito suspeito…

Santa paciência.