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Madrugada, 21 de novembro de 1970, Conacri

Uma companhia de comandos e um destacamento de fuzileiros, liderados por Alpoim Galvão desembarca em Conacri. Começava assim a espetacular missão Mar Verde. Quinhentos anos depois da conquista de Ceuta por D. João I, esta viria a ser a última grande operação anfíbia do Império. Entre os objetivos, estavam as capturas do presidente Sekou Touré e de Amílcar Cabral, a destruição dos caças MIG fornecidos pela URSS e das instalações do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e sobretudo resgatar os militares portugueses em cativeiro numa prisão em Conacri.  Esta última sempre foi a maior motivação sabendo que alguns presos estavam em cativeiro há mais de 7 anos, entre estes o 1º Sargento piloto-aviador Lobato.

Fugas de informação assim como referências erradas, fruto de um trabalho deficitário da inteligência, resultaram numa obtenção parca dos objetivos, contudo, a operação não deixou de ser um sucesso. A libertação dos prisioneiros portugueses fora alcançada, o Sargento Lobato pôde finalmente regressar a casa: fora sequestrado com 25 anos, tinha 33. No rescaldo, 26 prisioneiros de guerra portugueses foram resgatados, 400 presos políticos guineenses libertados, mais de 500 baixas no inimigo e 3 portugueses sucumbiram.

Todos os intervenientes se comprometeram a nunca revelar o modus operandi da missão. O governo português apenas a viria a admitir oficialmente anos mais tarde. Podia estar a falar de um qualquer filme de guerra americano, mas não: esta é a história real de um grupo de operacionais portugueses que invade a capital do país para resgatar os camaradas. Uma história de astucia, de coragem, patriotismo e lealdade.

Entre esses militares estava Marcelino da Mata.

Marcelino nasceu na Guiné-Bissau a 7 de maio de 1940. Em 1964 integrou um grupo de comandos, participando em mais de 2000 operações, entre a Guiné-Bissau, Guiné-Conacri e Senegal. A 2 de Julho 1969 foi feito cavaleiro da Antiga e Muito Nobre Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.

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Os camaradas de armas recordam Marcelino da Mata como um homem “de grande coragem, um combatente muito competente, agressivo e inteligente.” Quando lhe perguntavam o que levava um guineense como ele a lutar contra o PAIGC, respondia sem hesitar: “sou português”. Em troca por uma vida entregue a Portugal, Marcelino recebeu pouco, muito pouco. Finda a guerra colonial, foi proibido de voltar a entrar na sua Guiné, tendo este sido um dos maiores desgostos da sua vida. Teve, porém, mais sorte que muitos dos camaradas guineenses que lutaram nas forças especiais portuguesas e foram deixados para trás por Portugal, acabando massacrados por elementos do PAIGC. No pós 25 de abril, acabou por ser preso e brutalmente torturado no quartel do RALIS por elementos afetos ao MRPP. Fugiu e exilou-se em Espanha, tendo voltado após o 25 de novembro. Em 2018, aquando da sua promoção a Major, Vasco Lourenço  num artigo intitulado “A Guerra Colonial ainda não acabou?” insurge-se contra a promoção, acusando Marcelino de crimes de guerra, ficando bem patente o desconforto que uma figura como Marcelino da Mata causava. Verdade ou não, nunca saberemos, sabemos sim que Marcelino fez sempre aquilo que considerava como certo para defender Portugal.

A história de Marcelino é pouco conhecida, não aparece nos livros de história lecionados, não há um filme, um documentário, um livro e muito poucas entrevistas. Marcelino representava e representa tudo aquilo que muitas vezes, uma certa esquerda trauliteira, não quer reconhecer.

Como é que alguém natural da Guiné-Bissau podia ser o militar mais condecorado militar do exército português?

Como é que alguém natural da Guiné-Bissau podia considerar-se português e combater o PAIGC?Operacional, comando, o mais condecorado militar Português: atribuição de duas cruzes de guerra de 1ª classe, duas cruzes de guerra de 2ª classe e uma de 3ª classe e ordenação como Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, a mais alta condecoração Portuguesa. O tenente coronel Marcelino da Mata faleceu esta quinta feira aos 80 anos no Hospital Amadora-Sintra vítima de Covid-19.

À exceção do CDS-PP, que em comunicado pediu um funeral com honras de estado (honras essas que nem sempre recebeu em vida), verificou-se um enorme desprezo por parte dos partidos políticos, o que não deixa de ser invulgar e preocupante, tendo em conta o valor de Marcelino.

Marcelino acabou condenado a um certo ostracismo nos últimos anos de vida, porque Marcelino não interessava: era negro, era guineense, era comando, era um herói de guerra, era sobretudo, como sempre se considerou e foi considerado, português.