Com relutância aparente, Passos Coelho admitiu pela primeira vez apoiar a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da Republica. Na verdade, disse três coisas: que tem a certeza de que o Conselho Nacional de Dezembro do PSD deliberará sobre o assunto; que a propósito de um possível apoio formal a Marcelo, “é provável que o partido tenha uma posição”, até para evitar divisões na sua área política; e que “não faz qualquer sentido que os partidos não tomem posição” sobre o assunto, como sucede com o PS. 

A verdade é simples, já referida por muitos: o ainda primeiro-ministro pressente que o deixará de ser muito em breve e que seria desastroso não ser visto – provavelmente enquanto líder da oposição – como apoiante indiscutível do mais que provável vencedor das eleições presidenciais em Janeiro; acresce já não parecer haver outros candidatos ganhadores à direita, seja porque se autoexcluíram há muito (Santana) ou há pouco (Rio), seja porque nem sequer terão considerado candidatar-se (Barroso).

Por isso, talvez, para evitar divisões, Passos Coelho tem a certeza que o PSD deliberará, e é provável que decida, pois não faz sentido que não tenha uma posição… A verdade é que a tomada de posição é tardia e chega na pior altura, a dias da tomada de decisão de Cavaco Silva, cada vez mais presumivelmente de nomear António Costa primeiro-ministro. 

Fica a sensação – que em política é como a honestidade para a mulher de César (do romano) – que Passos, como Portas, procrastinaram uma decisão sobre Marcelo Rebelo de Sousa, como se tivessem todo o tempo do Mundo, esperassem por uma solução melhor ou menos incómoda, ou se sentissem incomodados com o discurso abrangente do candidato, pouco propenso a deixar-se acantonar nas posições extremadas da sua área política.

Permitam-me que tente ser ainda mais específico, correndo o risco de me enredar nas minhas próprias palavras, do que antecipadamente me penitencio: convencidos de que o impasse decorrente do resultado das eleições de 4 de Outubro terminaria favoravelmente para os seus interesses, os responsáveis da coligação quiseram levar Marcelo a comprometer-se com eles, usando o (não) apoio do partido como elemento de pressão. Circularam até rumores segundo os quais o PSD, desagradado com a falta de comprometimento de Marcelo, poderia insistir com as candidaturas de Rio e Santana. Nesse sentido, também, as opiniões mais ou menos hostis à candidatura de Marcelo de comentadores e sectores claramente afectos aos dois partidos da Coligação.  

“Não há pressa”, chegava do interior do partido já a candidatura do professor estava em marcha. A admissão de Passos da possibilidade de apoio a Marcelo Rebelo de Sousa, feita embora do modo ambíguo que referi, levou a imprensa a questionar o candidato. E Marcelo, interrogado a esse respeito, disse que não pede apoios nem decide o que os partidos pensam das presidenciais. Esse apoio seria bem-vindo, afirmou, mas não mais do que isso: e acrescentou que é substancial a diferença entre eleições presidenciais e parlamentares. 

Era difícil fazer uma declaração mais clara de independência. Ser o Presidente de todos os portugueses significa mesmo ser o Presidente de todos e não apenas dos apoiantes ou simpatizantes de um ou outro partido. Marcelo não quer ser colado à direita e apenas à direita, sobretudo num cenário de divisão do país – aquele que vivemos –, que um Presidente tem como obrigação procurar resolver. 

É provavelmente neste ponto que radica o erro da procrastinação de Passos: a forma como a coligação extremou o discurso sobre um possível governo à esquerda, fazendo da oposição a essa hipótese quase um “casus belli”. Se Passos (e Paulo Portas) tivesse adoptado uma postura mais conciliadora e tranquila, todo o peso da responsabilidade da estabilidade de um governo PS apoiado “contra natura” por partidos comunistas assentaria exclusivamente nos ombros de Costa e seus apoiantes. O falhanço pouco mais que inevitável desse governo, num prazo que não acomodará mais do que dois orçamentos – no máximo, repito -, traria quase certamente a maioria absoluta à coligação.

Ao agirem da forma excessiva como agiram (e expressei esta opinião algumas vezes nestas páginas), lançando frases e palavras como golpe de Estado ou ilegitimidade, propondo inopinadas revisões constitucionais ou ameaçando vetar toda e qualquer lei proposta pelo futuro governo socialista, PSD e PP acantonaram-se num registo sem retorno e puseram sobre si o ónus, pelo menos em parte, da governação socialista. Sem qualquer necessidade. O PS poderá agora argumentar, em caso de queda do seu governo pela mais do que provável instabilidade gerada pela falta de sintonia entre os três partidos dos acordos, que a responsabilidade é do comportamento irresponsável e contrário ao interesse nacional da direita, “que veta toda e qualquer proposta socialista”. Restará à direita não agir dessa forma, caso em que poderá paradoxalmente contribuir para fazer durar o governo socialista.

Sempre, por exemplo, que o PCP rejeite uma decisão decorrente das obrigações europeias do país, o PSD terá de apoiar o governo sob pena de se descredibilizar, por estar a cumprir a “lei de Talião” que anunciou! Isso não contribuirá para a vitória eleitoral esperada (ie. absoluta).

Passos Coelho, cometido o erro da procrastinação que tão caro lhe pode custar, deixou já de exigir a Marcelo um compromisso de dissolução futura de um eventual governo socialista. Parece agora, finalmente, e depois de tanta agitação, aceitar essa possibilidade com menos amargura e apostar a fundo na (falta de) credibilidade, estabilidade e sustentabilidade da futura governação. Era o que devia ter feito desde o início.  

Quanto à candidatura de Marcelo, costuma dizer-se que mais vale tarde do que nunca. Se efectivamente o PSD vier a apoiar o seu antigo Presidente, não deixará de retirar dividendos, nem que seja como apoiante do futuro titular de Belém. Rebelo de Sousa, como aliás já referiu, aceitará o apoio de bom grado, mas apenas se não puser em causa a sua relação com um eleitorado mais vasto.

O professor prometeu uma candidatura de afectos. Cumpre-lhe, sendo eleito como é crível, unir um país partido em dois, ser um árbitro neutral, justo e imparcial para o bem dos portugueses. Apaziguar, não tomar posição de um lado da barricada. 

Talvez, afinal, Passos Coelho tenha feito bem em procrastinar.