À Isabel

1 – Toda a gente vai escrever ou dizer tudo sobre Maria Barroso. Ou melhor, tudo talvez não, afinal. Não é fácil encaixar em palavras coisas tão magnas como qualidade, autenticidade, profundidade e responsabilidade. Ou como coragem, inteireza, intuição e talento (a rodos).

Foi uma excelente pedagoga e uma vibrante comunicadora, era intuitiva e observadora. Teria ido muito longe na política não fora a partilha de vida com alguém chamado Mário Soares. Chegaram “lá” os dois ao mesmo tempo. Ele ficou, abrindo um lugar cativo, ela deixou-o ficar, oferecendo-lhe o brilho e o exclusivo do brilho. Foi por outro caminho. O que nunca, em quase setenta anos de teto comum, quis dizer sombra, mas apenas isso mesmo, outro caminho. Como ela o quis e talhou. Ao lado, mas nunca na penumbra do ex-líder do PS, do ex-titular dos Negócios Estrangeiros, do ex-Primeiro-Ministro, do ex-Presidente da República. Sim, era um “petit bout de femme” com intensa luz própria e um passo autónomo que nunca ninguém domesticou.

A “Maria de Jesus”, como eu gostava respeitosamente de a chamar, soube aplicar e multiplicar cada uma dessas bênçãos com que por vezes, raras vezes, a natureza humana é dotada. Utilizou-as sempre bem, nunca desistindo de cumprir os seus dias com o norte que lhe era apontado pelos valores em que acreditava e aos quais foi permanentemente fiel e se manteve direita como um cipreste; mas também com o (agudo) sentido que punha nas suas escolhas e prioridades em que a primeira não era senão a vital importância que para si assumia o seu clã familiar (e como esta matriarca defendia aquela fortaleza!). Só depois se encadeavam as suas diversas responsabilidades na vida pública e na sociedade portuguesa, num permanente, incessante, curioso, enérgico acorrer às chamadas. Mas era do “seu” Campo Grande, do seu reduto, do seu núcleo duro sentimental, da sua família, que ela partia todas as manhãs, para levantar voo para a vida. Começava pelo Colégio. Sempre elegantíssima, bonitíssima, atravessava a rua pelas oito da manhã — “Gosto que os pais me vejam ali quando trazem os filhos”, disse-me uma vez, quando estranhei tanta alvorada.

Sim, como a Maria de Jesus “praticou” bem tantos dotes e dons, como eles a abençoaram e como ela se realizou através deles… Na luta política, tão jovem, onde era tenaz e audaz;  no combate pela liberdade e pelas liberdades onde era inteira; na direção do Colégio Moderno, vivendo solitariamente tempos duríssimos: como quando Soares estava preso ou exilado e havia um permanente ambiente de desconfiança à sua volta, duas crianças em casa e parca liquidez para enfrentar a vida. Uma vez contou-me que “ nessa época ia de madrugada à Ribeira comprar hortaliças para os alunos internos porque era mais barato”; no teatro, onde foi uma imensa atriz, no cinema onde deixa marca inconfundível. Amélia Rey Colaço – que a adorava – nunca a deixou cair, recusando liminarmente as admoestações e pressões do regime para afastar da companhia do Teatro Nacional que dirigia, uma impetuosa rapariga chamada Maria Barroso. Décadas depois, após Abril de 74, a ex-atriz e futura primeira dama pagar-lhe-ia com a mesma moeda de generosidade e reconhecimento. Nunca nada as separou e era tão emocionante como quase comovente ouvi-las – como ouvi algumas vezes — falar ternamente uma da outra, desfiando recordações, revendo bons e maus momentos.

Família, política, teatro, educação, poesia. E essa essencial descoberta de Deus que surgiu tarde mas que a preencheuaté ao fim dos seus dias. Felizmente para mim não terei de proceder ao exercício fútil de decidir onde ela era “melhor”. Era una e indivisível em cada um dos ramos da fecunda árvore da sua vida. Mas só uma grande mulher consegue sê-lo e permanecê-lo, sendo ao mesmo tempo a companheira de um “ocupante” da cena portuguesa, como foi e é Mário Soares.

Una e indivisível também o foi, insisto neste aspeto, na dimensão da sua fé cristã, vivendo-a com aquele seu timbre onde tão bem se misturavam a convicção espiritual e o empenho pessoal. Via-a na paróquia do Campo Grande que ela frequentava com fervor e rigor, cultivando a sua sólida amizade com o nosso prior, Monsenhor Vítor Feytor Pinto, ao mesmo tempo que dialogava com uma alegria loquaz com os paroquianos, antes ou depois das missas, na sala do convívio da igreja. Encontrei-a ao longo de anos e anos, incontáveis vezes, em incontáveis geografias e ocasiões, nas suas casas ou na minha, no Colégio Moderno onde tive um filho: nunca mudei de opinião ou sequer de perceção a seu respeito.

Porém, talvez que o mais extraordinário de tudo o que apressada e tristemente escrevo ainda seja o eu saber que cada palavra minha não sofre do mal do elogio oco, do panegírico obrigatório, do aplauso da 25.ª hora, do pecado do excesso.

Maria de Jesus era isto e era assim. Mesmo se eu sei que tanto fica por dizer, por contar, por lembrar. Por celebrar.

Ah, feliz família que pode, no seu interior mais íntimo, aprisionar tão excecionais memórias  – e tão ricas na sua diversidade; e contar, no seu privado aconchego com tão formidavelmente cheio exemplo de vida.

2 – A esta hora já se encontraram os dois, estou certa, o Alberto e a Maria de Jesus.

O Alberto Vaz da Silva também partiu ontem, silenciosamente e com aquela espécie de discrição doce com que falava connosco e usava nas coisas. Especial, singular, amável e afável Alberto… Devem estar agora a falar de poetas, talvez ela lhe diga os versos de Sophia que tão intimamente conheceram e tanto amaram um e outro e não me custa adivinhar que ele lhe responda com a poesia de Tolentino Mendonça que o Alberto lia e bebia porque com ela se maravilhava.

Ou quem sabe, estarão a falar os dois de Deus que finalmente encontraram após o tempo terreno em que, de formas tão distintas e por tão distintas avenidas, ambos buscaram mas sempre com a certeza de que ele era uma certeza.

No céu não deve haver meses nem estações do ano mas aqui em baixo e apesar desta luz tão brilhante, este julho está a pesar-nos demais no coração.