Nota: 10

Para vencer é preciso usar as nossas vantagens competitivas. Mário Centeno tem pecado desde a primeira hora por explorar as suas desvantagens. Tem tentado corrigir, sem grande sucesso.

Um ministro das Finanças é actualmente o elemento central das relações com Bruxelas, com os restantes pares do euro e com os investidores financeiros. É nesta perspectiva que Mário Centeno tem de ser avaliado.

Todos os ministros que ocuparam a cadeira virada para o Tejo actuaram acima do combate político que, nalguns casos, chega a ser trauliteiro. Mesmo aqueles que estavam mais ligados aos partidos. Centeno não o fez e cometeu o seu primeiro erro. Não apenas porque das Finanças se pede uma mensagem acima das tricas partidárias, mas também, e especialmente, porque essa não é a sua melhor qualidade. É um bom economista e tem condições para fundamentar tecnicamente o seu discurso.

Começou mal logo na Assembleia da República quando se estreou como deputado. Continuou mal quando falou pela primeira vez na reunião dos ministros das Finanças do euro, o Eurogrupo. Todas as informações convergem no sentido de revelar que levou para dentro o discurso do fim da austeridade, das criticas às anteriores políticas, pondo em causa o anterior Governo – o que para o caso seria pouco importante – mas, mais grave, criticando implicitamente os seus colegas dos outros países.

Mário Centeno deveria ter ficado à margem do popular “fim da austeridade”, assumindo o papel que um ministro das Finanças tem de ter, o de dizer “não” a mais despesa pública, o de transmitir aos investidores confiança na capacidade de Portugal pagar a sua dívida. Há muitos e bons deputados e até ministros ou secretários de Estado que poderiam fazer esse papel, de prometer a prosperidade em vez de austeridade.

A guerra que abriu com o governador do Banco de Portugal, no que foi acompanhado pelo seu número dois Ricardo Mourinho Félix, foi outro dos seus erros, incompreensível e inconsequente. E que alimentou a tese da vingança, associada ao concurso para um dos cargos de direcção do banco. Não pode caber ao ministro das Finanças o papel de avançado contra o banco central.

Começou mal, mas tem tentado corrigir o seu discurso e assumir o papel de ministro das Finanças. Na entrevista que deu ao Público, por exemplo, abandona, e bem, o compromisso com a previsão de crescimento que tem inscrita no Orçamento, admitindo a sua revisão em baixa. No caso da CGD, tem oscilado entre uma mensagem de serenidade e bom senso e comunicações sobre o banco público, como foi o caso da conferência de imprensa em que pouco ou nada disse de concreto. Ou na estreia na comissão parlamentar de inquérito, sobre o “desvio” de três mil milhões de euros, que, como economista, conhece as razões.

Os esforços que tem feito para assumir melhor o papel de ministro das Finanças nas suas intervenções justificam que “passe” à tangente, com 10. Precisa de ser menos pomba e mais falcão.