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Politicamente Correto

Mas já não sobra nada entre o politicamente correto histérico e a boçalidade?

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A esquerda desvaloriza a violência sexual quando é cometida pelo ‘outro’ exterior ao Ocidente. Não precisamos do mesmo à direita, tipo Milo Yiannopoulos. Felizmente por cá ainda não ocorreu o contágio

A culpa primeira pertence à esquerda progressista histérica, que canonizou o politicamente correto como a bitola para se aferir a decência de uma pessoa. Aos que, perante cada dúvida mínima sobre os dogmas esquerdistas, rasgavam as vestes, eriçavam-se-lhes os cabelos e, sobretudo, insultavam. Aos que ficaram roucos de tanto gritar xenofobia, racismo, homofobia, islamofobia, fascismo sempre que encontravam alguém que, estando a milhas do extremismo de direita, cometia o gravíssimo pecado de não coincidir inteiramente no credo progressista.

Um atrevido quer discutir a permissibilidade de os gays darem sangue (mesmo se por desconhecimento técnico)? Bom, há cabelos arrancados, caixas inteiras de ansiolíticos tomadas de uma vez e, acima de tudo, insultos abundantes.

Um pobre infeliz (evidentemente afirmando que a maioria dos muçulmanos são gente pacífica que não sonha com explodir as entranhas dos crentes de outras religiões) constata ligação entre terrorismo e islão, convencido por minudências como muitos clérigos islâmicos usarem os seus púlpitos religiosos para radicalizarem e apoiarem o terrorismo? Ou pelo facto de os terroristas muitas vezes seguirem literalmente o corão, incluindo a parte das escravas sexuais ou a de garantirem que nem todas as cabeças de infiéis estejam ligadas aos corpos em que nasceram? Ultraje. Há choro e ranger de dentes com a indignação. Evidentemente que o islão é uma religião de paz e os terroristas uns apóstatas. Se se quer insultar uma religião, façam o favor de se dirigirem para os facínoras da Igreja católica.

Ah, ainda o islão. É carregar nos insultos aos machistas conservadores, essa escória abjeta que a evolução das espécies não solucionou devidamente (com o extermínio). E, a seguir, defender a burka e o burkini como símbolos da libertação feminina. E fingir que os abusos sexuais na passagem de ano em Colónia não ocorreram e os autores não eram islâmicos. Quem é que liga a uns apalpões valentes a umas louras alemãs? Os imigrantes podem apalpar, só Trump é que não.

Uma pessoa distraída comete o supremo crime (de gravidade comparável a um genocídio de média dimensão) de declarar que considera preferencial a existência de adultos de referência tanto femininos como masculinos na educação de uma criança? (Questões de adoção por gays e lésbicas à parte, porque numa adoção nunca se está a lidar com a situação ideal, ainda que possa ser, com todos os tipos de pais, redentora para crianças e adultos.) Mais insultos com fartura. Vindos do grupo que defende as quotas porque considera importante o ponto de vista feminino na política e nas empresas; mas que declara enfaticamente que não existe nenhum ponto de vista feminino ou masculino quando se trata de educar crianças.

Bom, com este cenário histérico da esquerda progressista desonesta e intolerante, era inevitável que o simétrico acontecesse na direita. Por um lado, por reação e, por outro, porque (com grande pena minha) a tendência humana para a estupidez não se concentra só do lado ideológico oposto ao meu.

Donde surgiu um grupo – uma direita malcriada, brutamontes, paroquial, anti-intelectual, machista – que elegeu o combate ao politicamente correto como fim último da política. Já não interessam as ideias, nem a procura do bem comum. Muito menos a decência de procedimentos e o respeito pelo outro. Tal como a esquerda progressista histérica, desonesta e politicamente correta quer, acima de tudo, insultar quem diverge e cobrir de lama qualquer pessoa de direita, mesmo que moderada, ignorando os valores tradicionais da esquerda para perseguir um igualitarismo ressentido e sempre de dedo acusador apontado – também a nova direita abandonou a defesa das condições que deixavam prosperar os melhores através do seu mérito e trabalho para endeusar os seus mais básicos e rasteiros. É que não há nada mais politicamente incorreto que a grunhisse e a falta de educação (como a esquerda revolucionária sempre soube e fez).

Foi este ódio ao PC que permitiu a celebridade de personalidades questionáveis como Milo Yiannopoulos. Um ícone da liberdade de expressão. Muitas palmas. Uma estrela da direita americana, até há pouco tempo recatada nos antros do Breitbart, mas que republicanos mainstream (o que diz tudo destes) começaram a adotar depois da vitória da pessoa laranja.

Há uns anos, uma conferência da Universidade de Cambridge decidiu discutir placidamente a normalidade de sexo com crianças, dando até palco a abusadores condenados. Outros dois académicos da área da Filosofia, em 2012, viram como pertinente retirar o estigma do infanticídio, escondido no eufemismo aborto pós-nascimento. Nada a objetar, não é? Afinal tudo se pode discutir, e dizer que há limites (desde logo a mais básica decência humana) não deixa de ser um tanto politicamente correto. Só gente tenrinha – certamente pessoas moles da esquerda – é que se sentem ofendidos com estes objetos de discussão. São debates politicamente incorretos, e isso torna tudo admirável, não é?

Milo Yiannopoulos está agora a ser condenado pela direita por considerar normal, no mundo homossexual, sexo entre miúdos de treze anos e homens mais velhos. Que bom: esta direita tem limites (pelo menos conceptuais). Porque quando Milo Yiannopoulos defendeu os abusos sexuais nas universidades contra jovens mulheres, e declarou fraude qualquer acusação de violação, esta inqualificável direita celebrava-o como um campeão anti PC. Coitadinhos dos rapazes de dezoito anos, não sabem distinguir o consentimento de uma mulher. E as mulheres estão lá como cobaias para as aprendizagens masculinas. Servimos lá para outra coisa.

Há uns tempos, Alexander Chancellor declarava-se conservador, na Spectator, por acreditar em pontuação e frases com verbos. Eu, que sempre me vi como liberal e nem por isso conservadora, neste último ano tendo a simpatizar com o conceito. Não por defender o status quo de cada momento, nem por medo da mudança. Mas, certamente sou de uma direita picuinhas, porque torço o nariz a quem faz a apologia de crimes sexuais. Bata na esquerda ou não. E não me agrada que a violência sexual se torne num estandarte da direita. A esquerda desvaloriza a violência sexual quando é cometida pelo ‘outro’ exterior ao Ocidente. Não precisamos do mesmo à direita. Felizmente por cá ainda não ocorreu este contágio.

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