“Ok. Até acho que pode ser verdade o que ela está dizendo. Mas precisamos ouvir a versão dele também”.

Como advogada, sou a primeira a defender o direito ao contraditório. Todos têm direito a defesa. Mas acho realmente curioso, como em casos de acusação de assédio sexual, estupro ou outras condutas que costumem ter o homem como agente ativo e a mulher como agente passivo, parece haver mais preocupação com o direito de defesa do suposto agressor do que com a violência que a vítima alega ter sofrido.

E, uma vez que se confirme que, de facto, houve assédio, começa o asqueroso movimento de tentar justificar a conduta do agressor. Sim, já se sabe que ele o fez. Ele assediou uma mulher. Ele estuprou uma mulher. Algo sabidamente errado e muito fácil de discernir entre certo e errado. Mesmo assim, pessoas, até desconhecidas, mantêm-se a seu lado, buscando um pretexto para respaldar uma atitude injustificável.

Mas será que ela não deu abertura para isso?

Mas será que ela não usou roupas provocantes?

Mas será que ela não provocou essa situação para conseguir vantagens profissionais?

Mas será que ela não foi simpática demais com ele?

Mas será que ele não pode ter interpretado mal um sorriso?

Mas será que ela não estava com as unhas pintadas de vermelho?

Mas será que ela não jogava os cabelos para o lado?

Mas será que ela não usava um perfume floral?

Mas será que ela não dizia “bom dia” quando passava por ele?

Mas será que ela não disse “muito prazer” quando se conheceram?

Mas será que, na adolescência, eles não foram colegas e numa tarde de outubro ela ofereceu a ele um pedaço do seu folhado de espinafre?

Mas será que durante a infância eles não foram vizinhos e ele a viu, aos dois anos, de tronco nu?

Mas será que numa vida passada, possivelmente no Egito Antigo, ela não lhe disse que o amava?

Mas será que na ocasião do bigbang não houve um encontro de partículas que pudesse ter feito com que ele achasse que ela realmente tinha interesse sexual por ele, embora ela nunca o tivesse verbalizado?

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Quando um homem conta que foi assaltado, ninguém costuma dizer “ah, mas também precisamos ouvir a versão do assaltante”. Ninguém diz coisas como “ah, mas ele pode ter deixado o iPhone em cima da mesa do restaurante e o assaltante pode ter achado que não era de ninguém, por isso levou embora”. Curioso, né? Enfim. Todo o assaltante merece defesa e um julgamento justo. Um assediador também. O que ele não merece é que o defendam incessantemente, enquanto vítimas tentam gritar me too até praticamente perderem a voz.