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Pais e Filhos

Maternidades muito modernas /premium

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É verdade que a maternidade nem sempre é um céu. Mas para certas pessoas muito “modernas”, é difícil aceitar a maternidade como aquilo que nos liga a tudo o que há de mais animal e mais humano.

É verdade que não há maternidades perfeitas. Que toda a gravidez tem um “lado B”. Que ninguém está preparado para ser mãe. Que os desafios que um bebé coloca e tudo o mais que ele exige não dão descanso a uma mãe. Que a maternidade tem momentos muito semelhantes a uma montanha russa de emoções em que, tão depressa, se é Deus, diante de tudo aquilo que um bebé oferece como se desce a muitos períodos de uma imensa solidão. Que, durante meses e meses, se deixa de saber o que é dormir uma noite de seguida.

Que o cansaço da maternidade vai para além de tudo aquilo que se podia imaginar e que, às vezes, quando se está perto do colapso, ele se agiganta e não pára de aumentar. Que o isolamento, durante a semana, e a falta de privacidade, ao fim de semana, criam um sentimento permanente de se estar bem com quem se não está. Que uma relação conjugal se constipa toda com um bebé e que, muitas vezes, aquilo que era uma ligação amorosa se vai fraternizando.

Que, ao mesmo tempo que se ganha um bebé, se podem “perder” os pais ou deixar de se ter uma família, tais são as decepções que se acumulam que, na maior parte dos casos, começam pela “falta de apoio”, e se aprofundam com leves omissões e com pequenos-nada. Que a sexualidade de um casal passa a ter, durante muito tempo, uma agenda tão extraordinária que, quando se dá por isso, a espontaneidade parece ter-se extraviado dos gestos de desejo e de paixão mais elementares, a ponto de parecer que há uma sexualidade antes do bebé e outra depois do bebé que se desencontram, na maior parte das vezes.

Que conciliar a maternidade, uma relação, a família e o trabalho desarruma a vida, as relações e as finanças. E que um bebé é, de tal forma, a obra-prima de uma vida, que ele precede, em grau de importância, tudo o mais, o que põe questões, acentua escolhas e aviva conflitos, dentro e fora da mãe. E que – sim! – que é muito difícil ser-se mãe. E que isso não se resolve só com instinto maternal e sexto sentido. E que, para mais, tudo se acompanha com erros e com dúvidas. E com (imensos) momentos em que se deseja muito estar o tempo todo com o bebé e muitos outros em que se anseia ter férias dele, por vários bocadinhos.

E, no entanto, nada disto tira a um bebé a capacidade – mágica! – de arrebatar a mãe. E de a pôr, sem tempo, contemplativa, a perder-se, passeando-se pelo olhar dele. E a comover-se, de cada vez que o observa, e lhe chovem, em cascata, memórias, sonhos, ânsias e desejos. E de reaprender, por causa dele, a falar sem necessidade das palavras. E de se sentir, em comunhão com ele, ao mesmo tempo, à margem do mundo e no centro do Universo. E a inventar-se para o amor. Só por causa do bem que ele lhe faz,

É verdade que a maternidade nem sempre é um céu. Mas surgem, cada vez mais, artigos de opinião sobre as experiências da maternidade como se ela fosse, sobretudo, negativa. Outros – com base nas incidências pessoais das mães que os escrevem, e sempre à boleia da forma como evocam “estudos científicos” que tentam demonstrar que a maternidade moderna é mais racional, mais desprendida e mais funcional – acabam por afirmar que o aleitamento não contribui para os laços entre a mãe e o bebé. Ou insistem em reivindicar que o colo da mãe não é tão indispensável e tão insubstituível como as mães insistem em considerar.

Como se a maternidade moderna fosse diferente. Menos “animal”, menos intuitiva e mais calculada. E, quando ela não é só beatitude, e traz sobressaltos e contradições – continuando, apesar disso, a ser um laço de exaltação, singular e mágico – só pudesse ser uma experiência má. Como se a relação da mãe com o bebé fosse ou “branco” ou “preto”. E não comportasse sentimentos muito diferentes uns dos outros que viram a mãe do avesso e a tornam mais bondosa, mais comovente e mais apta para ligar, ligar e ligar (em vez de separar). E, no final, não a revolvesse e não a trouxesse para uma experiência superlativa de bem-querer a que, todos nós, talvez com preguiça, vamos chamando, simplesmente, maternidade.

É verdade que vivemos um tempo que confunde ciência e ideologia com uma promiscuidade fora do vulgar. Um tempo em que, a pretexto de uma ideia batoteira de mais “um estudo”, parece querer-nos “linhas rectas”, “curvas normais” ou “desvios-padrão” e, muito pouco, animais cheios de contradições que, todavia, pensam. Parece que, para estas pessoas muito “modernas”, é difícil aceitar a maternidade como tudo aquilo que nos liga a tudo o que há de mais animal e mais humano. E que continuará a ser – apesar desta visão, por vezes, sombria e má – a experiência que mais nos faz sentir frágeis e imortais. Pessoas de fé e um mar de dúvidas. Imensos e mínimos.

Eu acho que a maternidade irrita todos aqueles que não compreendem que ela transforma, para sempre, uma aragem de arrogância, com um tonzinho de adolescência, naquilo que, como mais nada, nos torna “só” pessoas.

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