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Não sei como é com os outros, mas eu tenho pavor de ficar cega. Um medo terrível de ficar às escuras se perder completamente a visão ou até a possibilidade de ver alguma claridade. Angustia-me a ideia das trevas, de deixar de ver as pessoas e o mundo à minha volta. Inquieta-me não poder ver o chão que piso. Este medo ancestral põe-me em sintonia com todos os que vivem privados de visão e faz-me querer aprender com quem sofre de cegueira. Se algum dia me acontecer deixar de ver, quero ser capaz de me socorrer imediatamente de todos os que não vêm, mas também não desanimaram por isso. Muito pelo contrário, superam-se dia após dia e provam que conseguem ver apurando e usando outros sentidos. Foi isso que me impeliu a participar numa experiência de cegueira total durante uma manhã inteira.

Todos conhecemos exemplos admiráveis de pessoas tocadas pela cegueira e é impossível ficar indiferente à atitude positiva com que vivem. Estou a pensar no Jorge Pina, pugilista, porque me interpela a sua autenticidade e o sorriso contagiante com que declara que “agora sim, agora é que eu passei a ver bem”. Diz isto publicamente com tal convicção que é impossível não acreditar. Também penso em exemplos anónimos de amigos e conhecidos a quem é dado viver a realidade da cegueira, ou da perda severa e agravada da visão, e dou-me conta de que cada um se revela no seu melhor, sem os pavores que me atravessam.

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