Qualquer pessoa educada pela televisão e pelo cinema sabe que para se poder concluir que alguém cometeu um crime é preciso determinar se teve os meios, os motivos, e ainda a oportunidade para o fazer.   A mera intenção de cometer um crime não conta como crime.   A vida, sem falar na ficção e no direito, seriam diferentes se tal fosse o caso.    Sendo as coisas como são, as intenções suspeitas requerem acções, as quais serão regra geral más acções.

Pouco observado é o facto de haver dificuldades parecidas no caso das acções boas.    Naturalmente, menos um calvinista ou outra pessoa séria, alegaremos todos ser pessoas com intenções satisfatórias:  mas parece existir uma logística das boas acções que também requer meios, motivos e oportunidade.      Quando nenhum destes requisitos se verifica, a nossa situação não é muito diferente da do criminoso inepto que, apesar das suas intenções e da sua vontade, não conseguiu fazer mal a ninguém.   As pessoas satisfatórias que não se encontram apoiadas pela logística necessária às boas acções não conseguem fazer bem a uma mosca.   Em ambos os casos parece haver factores exteriores às nossas intenções.

Do mesmo modo, tal como quem hesitou diante da comissão de um crime, hesitamos diante da comissão de acções boas.   Embora a virtude não seja, ao contrário do que alguém observou, a tentação insuficiente, a tentação da virtude não é quase nunca suficiente.   Quando nos sentimos menos encorajados a cair nessa tentação invocamos razões logísticas.  Sabendo genericamente que devemos amar o próximo, diremos que não havia ninguém por perto; ou que não tínhamos qualquer ideia daquilo que numa determinada circunstância seria considerado amar;  ou até que não teria havido uma razão particular suficientemente forte para amar alguém em particular.   Estas razões são desculpas e apenas enquanto desculpas merecem ser tomadas a sério.   Quem assim invoca a ausência de pressupostos logísticos é como quem se queixa genericamente da falta de condições; em boa verdade sente-se muitas vezes a falta das condições relevantes com um certo alívio.

Um caso diferente é o daquelas pessoas que têm a certeza de que, verificados os meios, o motivos e a oportunidade, seriam capazes do melhor; sabem no fundo das suas almas que se as circunstâncias fossem outras, ou a sua sorte tivesse sido diferente, seriam santos ou heróis.    Sabem sem o conseguir provar que existe em si a capacidade para fazer coisas boas e até extraordinárias;  sentem a falta de condições como uma enorme frustração;  mas ao mesmo tempo parece-lhes que nasceram num tempo inóspito, como alguém que descobrisse agora que o seu maior talento era ser hospedeira de zeppelin ou pintor rupestre.   Para estas pessoas, a falta de meios, motivos e oportunidade é a grande tragedia das suas vidas.