A Protecção Civil resolveu distribuir kits de auto-protecção às populações mais ameaçadas pelos incêndios. Para escolher o fornecedor, consultou uma empresa de bordados, uma de programação informática, outra de comércio de electrodomésticos, uma de vestuário e uma de turismo de aventura. Talvez por estar ligada a actividades radicais, esta última arriscou enveredar por uma área com a qual não tem qualquer ligação e foi a única a responder, ganhando o concurso público. Entretanto, soube-se que quem recomendou esta empresa foi o agora ex-adjunto do Sec. de Estado da Protecção Civil. Pelos vistos, trata-se de um prodigioso vidente, pois adivinhou que a melhor empresa para fornecer material de protecção contra fogos é uma agência de viagens que organiza safaris e excursões de montanhismo. Agora que saiu do Governo, pode ir ler a sina para uma feira.

À primeira vista, para aceitar uma encomenda completamente fora do âmbito da sua actividade, o dono da empresa parece ser um aventureiro, até se saber que é casado com uma autarca do PS. Em Portugal, isso diminui bastante o risco. É o equivalente a saltar com sete paraquedas e três cordas de bungee jumping, de um avião acabado de aterrar.

O kit foi apresentado pelo Governo como media de protecção, no âmbito do programa “Aldeia Segura”. Sucede que esse kit inclui uma gola anti-fumo feita de material inflamável, que transforma quem a usa numa cabeça de fósforo. A Protecção Civil veio dizer que o kit é meramente para sensibilização, apesar de ter havido demonstrações do kit às pessoas em que lhes foi dito que a gola do kit era mesmo para usar. Não vejo qualquer contradição: quem usa uma gola 100% de poliéster durante um incêndio, vai, digamos, apanhar um escaldão, que lhe deixará a pele da cara hiper-sensibilizada. Quem estiver a usar a gola de poliéster e for apanhado por uma fagulha, fica com a cara plastificada. O que faz da gola um produto muito útil em caso de catástrofe, mas só se a seguir a um incêndio houver uma cheia, na medida em que boca e nariz estarão impermeabilizados.

Entretanto, o ministro Eduardo Cabrita veio verberar a comunicação social por ter lançado uma notícia alarmista (i.e., que não diz muito bem do Governo). Para Cabrita, falar é fácil. Se eu tivesse uma papada à pelicano como a dele, com capacidade para alguns 70 litros de água pronta a aspergir, também estava tranquilo. O ministro avisou ainda que todo este charivari se deve a estarmos em ano eleitoral. O problema dos socialistas é que estão perante um paradoxo: pedem às pessoas para acreditarem no Governo, mas, se as pessoas acreditam e, por exemplo, usam a gola que o Governo mandou distribuir, em princípio falecem e já não votam no PS. Pode haver uma espécie de auto-de-fé ao contrário, na medida em que só é chamuscado quem crê.

O problema das golas é duplo. Os portugueses que as usem podem queimar-se, mas o resto dos portugueses, mesmo que não as usem, ficam a arder. Já se percebeu, pela intrincada teia de mini-moscambilhas nesta história, que estamos perante um esquema para, como se diz em textos sérios, lesar o erário público. Mini-moscambilhas que continuam a surgir, como só as mini-moscambilhas sabem surgir, fazendo com que tenha tido de reescrever esta crónica três ou quatro vezes, só com as últimas actualizações de falcatruas.

Estes pequenos aldrabões autárquicos, pilha-galinhas de província, sempre à bica de uma tetinha estatal onde fincar as beiças, são aos milhares. O termo técnico para estes burlõezecos é sementes de Sócrates. Basta um medrar, dar os primeiros golpes sem ser descoberto, chegar a Lisboa já com algum poder, e torna-se logo mais difícil apanhá-lo. Desta feita, em vez de se enamorar pelo patife, o jornalismo salvou o dia. Impediu que um crime de colarinho branco acabasse em crime de golas pretas.

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