Agora, a única coisa que resta à opinião pública brasileira e, em especial, às elites que têm dominado o país nos últimos 16 anos, sobretudo as do PT e do resto das auto-proclamadas esquerdas, é reflectir seriamemte nas causas da tempestade eleitoral que se confirmou ontem e será, provavelmente ratificada daqui a três semanas. Com efeito, a tempestade foi maior do que se previa. Não só no plano presidencial mas sim a todos os níveis da representação política, de tal modo que o obscuro partido do deputado Bolsonaro é já o segundo maior na Câmara dos Deputados a seguir ao PT, 51 eleitos enquanto os pêtistas caíram para 57 e grandes partidos como o MDB e o PSDB estão reduzidos a 33 e 29 deputados.

Ou seja, a rejeição de um «centrão» que havia sustentado os governos do PT até à destituição de Dilma Roussef torna inviável qualquer tentativa de regresso às anteriores plataformas de poder, tanto as de Lula e Dilma como a de Temer, cavando assim o fosso que irá separar «direita» e «esquerda». Por outro lado, a circunstância de Bolsonaro poder ganhar não só a presidência mas também uma efectiva plataforma legislativa, é enganadora. Não se trata de uma mera rotação parlamentar, pois tudo leva a crer que o provável vencedor e os prováveis perdedores quererão prosseguir o braço de ferro – verbal e não só – entre a extrema-direita e a extrema-esquerda. Dito isto, se as sondagens se confirmarem, o encolhimento do centro-esquerda faz com que o PT se veja excluído da nova plataforma de centro-direita que já se desenha.

Esta reacção da maioria do eleitorado brasileiro, abraçando um «populismo» grosseiro sem partido nem massas na rua, mostra por seu turno quão profunda e extensa é a sua reacção primária perante a situação do país em geral. Trata-se porventura menos da situação económica do que da violência latente da retórica dos extremos ideológicos e da corrupção generalizada das elites, lado a lado com profundas as desigualdades sociais. Dito de outra forma, aquilo de que se trata de um e de outro dos lados em que o Brasil se cindiu, após a queda do governo PT e a emergência do «‘lulismo’ de rua», é de uma profunda alienação mútua e da falta generalizada de reconhecimento entre duas metades que só são capazes de se exprimir através de «slogans» ideológicos e de preconceitos reduzidos a injúrias.

Apercebemo-nos, entretanto, de que as Forças Armadas (FA) mantêm uma rede de informação organizada perante a visível instabilidade da situação política e social, parecendo assumir a defesa da democracia eleitoral mas também a do papel do Estado como representante dos interesses nacionais. Questões de política internacional, em especial na América Latina, que não foram sequer ventiladas durante a campanha eleitoral estão, porém, na mira das FA, atravessando uma vez mais a linha esquerda-direita.

Em suma, se são provavelmente exagerados os perigos de ditadura militar de que a esquerda acusa a direita, não é impossível que as FA brasileiras queiram ter garantias ao nível político, tanto no plano internacional como estatal, contra diversões estratégicas como aquelas que o PT nunca deixou de promover enquanto esteve no governo. Isto mostra a que ponto foi a corda esticada: basta pensar no desastre humano que são as experiências esquerdistas da Guatemala e da Venezuela.

Para concluir: enquanto o drama prossegue nas próximas semanas convém recordar que todo o debate político se concentrou na esgrima grosseira entre esquerdas e direitas, sacando as primeiras o termo gasto de «fascismo» contra quem nem sabe o que isso foi na primeira metade do século XX. Ora se há manifestação política que o Brasil conhece bem de mais é o que se chamava o «populismo», com os seus líderes carismáticos, como Getúlio Vargas.

Ora foi esse «populismo», que não é diferente mas também não é igual ao actual populismo europeu, que se enfrentou nas presidenciais brasileiras entre um populismo dito de esquerda – populismo popular, digamos, como o do Lula sindicalista – e o populismo dito de direita, como é claramente o do militar Bolsonaro. É como se a fractura entre dois populismos de cores diferentes fosse de natureza horizontal, isto é, são ambos populistas, mas que se exprimem segundo uma aparente divisão vertical entre direita e esquerda…

Com efeito, aquilo que está historicamente presente no Brasil, como na Argentina, são populismos vividos ora à direita ora à esquerda, como os próprios estudiosos do fenómeno populista hesitam em qualificá-los quanto à natureza sócio-política cultural do regime. Não é certo que venhamos a esclarecer tão cedo esta questão mas é indubitável que a história do populismo termina sempre mal com mortos e feridos. Esperemos que não seja o caso. Como já tive ocasião de dizer, a violência brasileira era mais privada do que pública mas arrisca-se a ganhar a sociedade no seu conjunto.