Michael Novak, um dos mais esclarecidos e influentes estudiosos católicos do capitalismo democrático e em particular das suas dimensões moral, cultural e espiritual, morreu esta sexta-feira aos 83 anos. Como outros intelectuais influentes da sua geração, Novak começou inicialmente com um perfil marcadamente de esquerda, tendo o seu amadurecimento intelectual coincidido com um gradual abandono dessa matriz de radicalismo progressista. Depois de vários anos como académico, Michael Novak foi recrutado pelo American Enterprise Institute em 1978, tendo aí trabalhado até 2010. Em 2016, Novak regressou à Catholic University of America (onde havia estudado no final dos anos 1950) como distinguished visiting fellow.

Foi durante os seus anos no AEI que Novak desenvolveu o seu trabalho mais influente. No contexto da Igreja Católica, essa influência fez-se sentir junto do Papa João Paulo II e do Papa Bento XVI enquanto na esfera política ela foi porventura mais sentida através dos seus amigos Margaret Thatcher e Ronald Reagan, assim como por via da propagação das suas ideias em alguns dos países da Europa da Leste que se encontravam subjugados pelo totalitarismo comunista, com destaque para a Polónia.

Naquela que foi muito provavelmente a sua obra mais influente – The Spirit of Democratic Capitalism, publicado inicialmente em 1982 – Novak apresentou uma argumentação elegante no sentido de que as dimensões económica, política e espiritual-moral de uma sociedade estão profundamente interligadas e que o funcionamento de uma economia de mercado assenta nessa interdependência num contexto de pluralismo. Embora reconhecendo que o cristianismo não requer um sistema político ou económico específico (incluindo, portanto, o capitalismo democrático), Novak argumentou ao longo de décadas que o capitalismo democrático – apesar de frequentemente odiado e desprezado – constitua o melhor sistema para promover a liberdade e a melhoria das condições de vida dos mais pobres.

Membro da Mont Pèlerin Society, Michael Novak recebeu numerosas distinções em várias partes do mundo, entre as quais o doutoramento Honoris Causa concedido pela Universidade Francisco Marroquín, da Guatemala, em 1993 e o Templeton Prize em 1994. Em Portugal, colaborou com o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, tendo nomeadamente sido o orador na Palestra Tocqueville de 2001 com uma comunicação intitulada “Tocqueville and the American Founding: What does Faith add to Reason?“.

A sua lucidez, erudição e coragem na análise dos fenómenos políticos, económicos, culturais, morais e religiosos do nosso tempo vão fazer muita falta, tanto nos EUA como a nível global. Entre as suas muitas afirmações merecedoras de reflexão, talvez a mais adequada ao actual momento seja o seu alerta contra o relativismo: “The most critical threat to our freedom is a failure to appreciate the power of truth.” [“A ameaça mais perigosa à nossa liberdade é a incapacidade de compreender o poder da verdade”].

Professor do Instituto de Estudos Políticos e Director do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa. Membro do Benedict XVI Centre for Religion and Society e Visiting Senior Fellow da St. Mary’s University.