Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Segundo Vitor Espadinha, Recordar É Viver. Noutra perspectiva, quiçá menos romântica, admito, recordar é também uma forma estupenda de começar a crónica de hoje. Recordar, neste caso, os idos de Abril de 2020. Por essa altura, o Presidente da República ecoava os elogios escutados a “estrangeiros” — vários, ainda assim nunca devidamente identificados –, que davam conta da mestria com que ele próprio e o Governo haviam liderado o país na crise pandémica. Chegado à fronteira do Caia, o SARS-CoV 2 havia agitado a bandeira branca, com aquele género de espigões que ele para lá tem a tremerem, pedindo tréguas aos indefectíveis guerreiros Marcelo e Costa. Hoje, recordar é conferir que, se calha Portugal ser capaz de operar um milagre, será o de sobreviver a estes anos sob o jugo, perdão, a liderança, sob a liderança, inspirada e inspiradora, de Costa e Marcelo.

Ainda assim, tem sido evidente a mais-valia de tão pródiga convivência entre o PS e os seus compinchas de extrema-esquerda nos últimos anos. Basta ver a quantidade de medidas, medidas de excepção às medidas, e outras medidas que visam contrabalançar as consequências imprevistas das primeiras medidas, que o Governo tomou nos últimos dias para controlo da pandemia. Esta azáfama decisória fez-me lembrar a maravilha que era, na saudosa União Soviética, o sistema centralizado de fixação de preços. Diariamente, um batalhão de burocratas inventava quanto devia custar, por exemplo, um rolo de papel higiénico. Na União Soviética, este ímpeto controleiro redundava em prateleiras de supermercado mais desertas que o Atacama e em rabos sujos. Por cá, o ímpeto controleiro do Governo redunda em permanente ruptura do stock de confiança que os portugueses depositam nos nossos dirigentes políticos.

Bom, mas o que importa é que os postigos fecharam. A partir de agora, para controlar a Covid, não há cá mais vendas ao postigo. Não interessa se é um café vendido ao postigo, se é uma peça de roupa vendida ao postigo, não há cá mais postigos para ninguém. Confesso que — obviamente — não fui ler a legislação agora aprovada pelo Governo, mas assalta-me a seguinte dúvida. Vendas ao postigo, o Governo não permite. Mas então e se eu tiver um guichet e não um postigo? Será que já posso vender, se for num guichet? É que é em francês e tudo. Se calhar pode-se. Ou então imaginem. Um comerciante está a fazer uma venda e vem a polícia:

Polícia: Caro comerciante, vou ter de o autuar.
Comerciante Fernando: Então porquê, senhor agente?
Polícia: Porque estão proibidas as vendas ao postigo.
Comerciante Fernando: Postigo? Não, senhor agente. Esta abertura por onde estou a escoar produtos do meu estabelecimento comercial não é um postigo. É uma portinhola. Portinhola.
Polícia: Ai isso é uma portinhola?
Comerciante Fernando: Sim, sim, é uma portinhola.
Polícia: É que, de repente, parecia mesmo um postigo.
Comerciante Fernando: Acredito. Mas é uma portinhola.
Polícia: Bom, nesse caso, peço desculpa. Prossiga com as vendas através da sua portinhola.
Comerciante Fernando: Obrigado, senhor agente. Por acaso, não é a primeira pessoa que me diz “Eh pá, ó Fernando, tens aí um belo postigo.” E eu respondo: “Não, não é um postigo. Trata-se de uma portinhola. Portinhola.” E as pessoas: “Ah.”

Com tudo isto a suceder, quase se olvida que, já no próximo domingo, teremos novo Presidente da República. Enfim, pode haver segunda volta. Mas estou a torcer para que não haja. Caso contrário este parágrafo perde sentido. E eu não aprecio assim tanto a luta democrática, ao ponto de me estragar uma piada. Portanto, vamos avançar. Onde também há Presidente novo é nos Estados Unidos. Mas enquanto por lá optaram por eleger um novo Presidente, ou como eles costumam designar, um novo POTUS, por cá vamos manter o mesmo porque somos um bocado patos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR