Habituei-me a passar muitas horas em salas de espera de consultórios e nos bancos de urgência dos hospitais e, por isso, tenho estratégias para conseguir ficar 6 ou 7 horas seguidas ao lado de quem amo e sofre, sem perder a esperança de chegar a ver melhoras. Nos que são meus, naturalmente, mas também em outros pais e filhos, avós ou netos e pessoas absoluta e desesperadamente sós que ali chegam e esperam ao nosso lado para também serem atendidas e tratadas. Fiz muitos anos de voluntariado de cabeceira e aprendi a estar ao lado dos que padecem, sem horas nem pressas. Foi com todos estes doentes que percebi a extensão, a profundidade e as alturas da palavra ‘paciente’.

Nos últimos anos, a recorrência com que vou e volto às urgências é tal, que sinceramente me sinto em casa. Especialmente quando vou a São José, o hospital público onde trabalham grandes médicos de todas as especialidades e onde cada um dos meus pais foi devidamente tratado sempre que foi necessário. O meu pai morreu em São José, onde entrou em morte cerebral, mas a quem foi possível fazer uma derradeira cirurgia para ainda doar o fígado e, assim, salvar uma vida. Nunca terei palavras à altura da minha gratidão por tanto bem recebido neste e noutros hospitais, onde naturalmente também houve motivos de queixa pontuais e alguns momentos de impaciência que, felizmente, ficaram sanados.

Voltei a passar 6h seguidas nos serviços de urgência há um par de dias, mas desta vez o tempo que lá estive com a minha mãe foi todo passado do lado de lá das cortinas e portas de vidro porque fomos rapidamente encaminhadas para os médicos e depois guiadas pelas salas onde estão distribuídos os meios de diagnóstico. Dentro do azar, foi uma sorte. Digo azar porque ninguém vai parar à urgência do hospital sem ser em grande sofrimento e angústia.

Por termos ficado do lado de lá foi-nos possível assistir a tudo o que aconteceu naquele espaço, naquela noite. Foi perturbador. Em plenas obras do serviço de urgência (finalmente!), todos ficamos ainda mais expostos às misérias e doenças uns dos outros. A proximidade física é inquietante pois o nosso imaginário está povoado de ameaças reais, tais como as lendárias bactérias dos hospitais, entre infinitas outras possibilidades de contágio, mas com algum esforço acabamos por abstrair e entrar num cenário onde nos convertemos imediatamente em atores.

Não sei se comparo aquilo a um filme ou a uma peça de teatro, mas é definitivamente um dos dois. Ou ambos, pois a movimentação, os diálogos, a relação entre personagens e a sucessão de espaços acaba por revelar um enredo real que ultrapassa a ficção. Há ali de tudo, do melhor ao pior, e quase todos agem sem filtros e sem poses. Despojados, despidos de tudo e não apenas das suas roupas, ficam só com os medos, as dores e as aflições, mas também com a esperança de melhorarem e recuperarem da crise que os atirou para o banco de urgência.

Nesta noite de que falo, o registo foi trágico e os dramas sucediam-se. Não havia sequer tempo para os profissionais de saúde se deterem apenas na pessoa que, no momento, mais parecia sofrer. A tragédia começou, subitamente, quando uma mulher que estava na sala de espera recebeu a notícia brutal da morte do filho, vítima de um acidente de mota. Caiu no chão como que fulminada, aos gritos, como eu nunca tinha ouvido ninguém gritar. A mais que justificada crise de histeria de uma mãe aflita que esperava que o médico saísse do bloco operatório com notícias animadoras e contava certamente voltar a ver o seu filho para o poder ajudar a recuperar foi, para todos nós, como um punhal que nos atravessou, uma faca que nos rasgou por dentro e nos deixou também a sangrar.

À volta desta mulher desenhou-se um círculo imaginário, um perímetro de silêncio apenas atravessado pelos que a ampararam na queda e a tentaram consolar enquanto chamavam por socorro, pois também ela passou a ser um caso urgente naquela noite. Os gritos desta mãe ficarão para sempre connosco, com todos os que assistimos impotentes a tamanho choque.

Como seria connosco, se fosse nosso filho? – lia-se nos olhos de todos a interrogação interior, solidária, de cada um dos presentes.

Quando ela finalmente se deixou levar pela mão, já sem voz e de olhar vazio, como que cega, todos permanecemos em silêncio, trespassados pela dor daquela mãe ainda jovem. Ao nosso lado, dei-me conta então, estava um rapaz de cara esmurrada, olhos todos negros e muito inchados de pancada. Um rapaz que também podia ser meu filho. Tive pena dele, mas ainda não tinha visto tudo. Só passado algum tempo percebi que estava algemado. Era um de dois presos que vários guardas escoltaram ao serviço de urgência, certamente depois de uma briga na cadeia.

Tacitamente evitamos sempre olhar para os condenados para não lhes acrescentar as dores do nosso julgamento e, quem sabe, da nossa culpa, por não sofrermos como eles, mas o silêncio deste rapaz prendia a nossa atenção. Discretamente todos os que estávamos no mesmo corredor, sentados no mesmo banco de madeira corrida debaixo das seculares abóbodas dos tetos do hospital, íamos trocando olhares e tentando transmitir ao rapaz alguma compaixão.

Ele via, reparava, e baixava os olhos, aparentemente sem reação, mas na verdade deixou de tentar esconder as algemas. Também esperava com paciência e resignação. Afinal havia ali quem estivesse tão mal ou pior que ele. Passadas umas horas chamou o guarda e disse-lhe que precisava de ir à casa de banho, mas o guarda disse-lhe que tinha que esperar.

– Tens que aguentar, que é o que nós temos que fazer também.

O guarda não foi agressivo, apenas factual. E mais uma vez fizemos silêncio e pensámos que poderiam ter que ser mais umas horas valentes, ali a aguentar. Todos baixamos os olhos, até a senhora mais velha que estava ali desde o início muito calada, com um olho tapado, sabe Deus porquê.

E passada uma hora o guarda veio ter com o preso e disse-lhe em voz baixa, ao ouvido, que ia ver como o podiam ajudar. Eu ouvi porque estava mesmo ao lado e, na verdade, ambos se afastaram em direção à casa de banho, seguidos por outros dois guardas prisionais.

E nós, os que continuávamos à espera e vimos a cena, intimamente interrogamo-nos sobre a vida daquele rapaz. Onde estaria ele quando cometeu o crime que cometeu? Pode ter sido mais um que nasceu do lado errado da vida ou pior, que estava no sítio errado, à hora errada, na companhia errada. Nunca saberemos e, para todos os efeitos, já foi julgado e já está a cumprir a sua pena.

Sentada no banco de madeira, de frente para a minha mãe numa cadeira de rodas desde que deu entrada na urgência, não falamos. Não temos palavras.

O silêncio pesou a todos, mas há sempre alguém capaz de chegar e tornar o ar mais leve. De nos voltar a fazer sorrir. Enfermeiros e assistentes operacionais porventura calejados ou, no mínimo, habituados a estas e outras adversidades, chegam e tratam as pessoas com ternura e graça.

– Então, princesa? – diz um destes rapazes novos e bem-parecidos apesar do fato verde e das socas brancas, a uma senhora muito velhinha, desdentada e desgrenhada, que acabou de chegar para fazer medicação pela veia.

– Vou ter que dar uma picadinha no seu braço, princesa! – e a velhinha sorri sem dentes e estende o braço como se o confiasse a um neto.

– Agora vamos fazer um exame ao coração, para saber se está apaixonado! – ouve-se ao fundo. Olhamos e vemos uma enfermeira sorridente e ainda muito bem-disposta àquelas horas da noite, dado o cenário de guerra. Vai de braço dado com um homem também ele muito desvalido, a andar extraordinariamente devagarinho porque arrasta os pés.

É impossível não ser sensível a esta casta de profissionais que lidam dia e noite com a doença, a dor, o sofrimento, o desamparo, a solidão, a fealdade (porque não dizê-lo?!), a exclusão e toda a sorte de pestes contemporâneas, sem perderem as faculdades profissionais e a capacidade de as combinar com gestos de ternura e sentido de humor.

Aqueles corredores são habitados por pessoas desfiguradas por acidentes e doenças, gente que tem cheiros e flatulências que se libertam ao menor toque, doentes que tossem, vomitam e escarram, alguns que nem sequer tomam banho em suas casas porque ou não têm condições ou não há quem os ajude, homens e mulheres de todas as idades, alguns deles em condições muito degradadas por cúmulos de padecimentos e vivências de miséria. À primeira vista é tudo muito feio, mas olhando com atenção conseguimos ver muita beleza. É um mistério inexplicável, mas há realmente beleza num lugar onde todos parecem reféns e alguns se sentem mais presos (ou menos livres) que o rapaz algemado.

Saímos ao fim das tais seis horas, gratas por não termos que passar ali o resto da noite. Saímos caladas, exaustas, mas a minha mãe bastante melhor. Saímos pelo nosso pé, ambas infinitamente mais ilustradas sobre as misérias e as grandezas dos homens e das mulheres. Médicos, enfermeiros, assistentes ou doentes, afinal todos eles são grandes pacientes.